Bloomberg Opinion — Para alguém que entende o poder da vantagem, Donald Trump está demorando muito para reconhecer a influência que o Irã conquistou no Estreito de Ormuz.
A ameaça do presidente americano de fechar completamente o estreito, bloqueando também as exportações iranianas que passam por ele, tem muito mais chances de arrastá-lo para uma guerra politicamente prejudicial do que de forçar a capitulação de Teerã.
Bloqueios energéticos são atos de guerra. Em caso de dúvida, lembre-se do ataque a Pearl Harbor, que ocorreu cerca de seis meses depois que os Estados Unidos impuseram um embargo total de petróleo ao Japão. Eles também levam tempo para surtir efeito.
Assim, o já frágil cessar-fogo de duas semanas no Golfo está em risco e tudo o que está claro é que o bloqueio em si é um desafio que os EUA não podem vencer.
Interromper as exportações de petróleo do Irã e de outros países através de Ormuz — uma via navegável por onde passa cerca de um quinto do abastecimento mundial de petróleo — faz certo sentido.
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A economia do Irã depende fortemente da receita do comércio que passa por essa passagem, e sempre foi extraordinário que os EUA tivessem se colocado em uma posição em que apenas o petróleo bruto iraniano e outras mercadorias fossem deixados passar. Em teoria, um bloqueio poderia aumentar a pressão sobre Teerã sem forçar uma grande escalada da guerra.
Mas isso só funciona se você acreditar que a República Islâmica não responderá atacando mais instalações energéticas ao redor do Golfo e que cederá à pressão resultante antes mesmo de Trump. Ambas as hipóteses parecem tão improváveis que é difícil entender o que a Casa Branca espera ganhar com essa tentativa.
Trump entrou em guerra em meio a negociações que não estavam conseguindo forçar a rendição que ele desejava para justificar sua decisão, no primeiro mandato, de romper os acordos nucleares de 2015.
As exigências americanas para que o Irã desistisse de todo o enriquecimento de urânio, limitasse seu programa de mísseis balísticos de longo alcance e abandonasse os aliados — do Hezbollah do Líbano aos houthis do Iêmen — que compõem sua estratégia de “defesa avançada”, foram concebidas para privar o regime de Teerã de sua capacidade de desestabilizar a região.
Do ponto de vista do Irã, porém, essas armas ofensivas também eram sua proteção. Eram os elementos de dissuasão de que precisava para manter a retaliação dos EUA e de Israel à distância. Elas claramente falharam em sua tarefa.
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No entanto, a guerra atual deu à República Islâmica um novo e mais potente ponto de vantagem: o poder de interromper, ou potencialmente até mesmo controlar e monetizar, o ponto de estrangulamento energético mais importante do mundo.
As chances de Teerã abrir mão agora de todos os seus quatro meios de dissuasão em troca do alívio das sanções, ou de qualquer outra vantagem que os EUA possam oferecer, são praticamente nulas.
Trump afirma que não se importa se os iranianos voltarem ou não à mesa de negociações. O vice-presidente JD Vance diz que a recusa em aceitar a última e definitiva oferta de Washington prejudicará mais o Irã do que os Estados Unidos.
Tudo isso, francamente, é ilusório e revela o fracasso de Trump e de seus conselheiros mais próximos em reconhecer que causar mais danos ao adversário não é o mesmo que vencer. Gostaria de pensar que a natureza errática de suas declarações em tempo de guerra, às vezes contraditórias dentro de uma única postagem nas redes sociais, faz parte de um plano astuto. Mas são meramente expressões de frustração pelo fracasso da supremacia militar dos EUA em se traduzir em sucesso.
Trump diz que venceu a guerra, mas também que talvez ainda precise destruir o Irã como civilização se o país não ceder. Ele afirma que o programa nuclear do país foi “aniquilado”, mas também que a recusa de Teerã em abandoná-lo é um obstáculo intransponível para qualquer acordo.
Ele diz que os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte podem abrir o Estreito de Ormuz à força, o que seria fácil, ao mesmo tempo em que a Marinha dos EUA não está disposta a fazê-lo. Agora ele quer bloquear ainda mais o estreito, para que o Irã o abra. Ele está em negação.
As guerras têm o dom de contrariar os planos e sair do controle, e esta não é exceção. Ainda é possível que o regime iraniano desmorone sob pressão, embora não haja sinais disso até o momento.
E enquanto isso continuar sendo o caso, o presidente terá, em algum momento, que reconhecer algumas verdades difíceis: ele ainda não venceu, não tem um caminho militar claro para chegar lá e nem ele, nem a economia global, podem se dar ao luxo de manter o Estreito de Ormuz fechado.
Não se enganem: o regime iraniano é monstruoso e não deve ser autorizado a possuir armas nucleares. A única questão relevante é como isso pode ser alcançado de forma realista. Seus líderes também estão em uma posição mais fraca do que suas fanfarronices de vitória sugerem.
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A situação deles só ficará mais difícil quando os combates cessarem e eles tiverem que encontrar o dinheiro e a aquiescência popular para a continuidade de seu governo, que já lhes faltavam mesmo antes do ataque dos EUA e de Israel em 28 de fevereiro.
Por enquanto, a infeliz realidade é que o regime está “no comando”, como disse o ex-chefe da agência britânica MI6, Alex Younger, no mês passado.
Isso não se deve ao fato de ser mais forte que seus inimigos, mas porque sabe que pode bloquear o Estreito de Ormuz e está mais disposto a infligir o sofrimento econômico resultante ao seu próprio povo do que Trump ou outras nações ao redor do mundo.
O governo dos EUA precisa reconhecer que não pode esperar obter uma vitória rápida nessas circunstâncias, mesmo que bloqueie todo o comércio com o Irã através do Estreito de Ormuz.
Ele pode fazê-lo se quiser intensificar uma guerra sem um caminho claro para o sucesso e com custos enormes para os EUA e o resto do mundo.
Ou Trump pode aceitar que, pelo menos temporariamente, terá de abandonar seus ultimatos e retornar às negociações em um prazo mais realista, com um cessar-fogo em vigor e o Estreito de Ormuz aberto.
Os negociadores iranianos deixaram claro que estão prontos para retornar à diplomacia, e os mercados de commodities e de ações parecem — a julgar por sua resposta ainda relativamente otimista — acreditar que isso tem que acontecer. Trump acabaria se arrependendo de testar essa crença por muito tempo.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Marc Champion é colunista da Bloomberg Opinion e cobre a Europa, a Rússia e o Oriente Médio. Já foi chefe do escritório de Istambul do Wall Street Journal.
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