Bilionário mexicano prepara sua maior aposta no setor bancário após acordo com o Citi

Fernando Chico Pardo quer recuperar a relevância do Banamex no mercado mexicano após comprar 25% de participação; ‘Gostaria de encerrar minha carreira como o responsável por transformar o Banamex’, disse ele em rara entrevista à Bloomberg News

Fernando Chico Pardo
Por Michael O'Boyle
04 de Março, 2026 | 04:41 PM

Bloomberg — Aos 74 anos, Fernando Chico Pardo está pronto para seu próximo capítulo.

O magnata mexicano construiu sua fortuna ao comandar uma corretora e um banco ao lado de Carlos Slim. Depois, fez uma aposta relevante em aeroportos no México e, mais tarde, no comércio internacional, por meio de um investimento em uma operadora portuária.

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Chico Pardo também passou a atuar no setor hoteleiro com seus filhos, investindo em resorts da marca Four Seasons em destinos de alto padrão, como Mallorca.

Seu novo movimento pode ser o mais ambicioso até agora. O acordo de US$ 2,3 bilhões para comprar uma participação de 25% no Banamex, do Citigroup, lhe dá o controle de uma ampla operação de varejo bancário no México que perdeu relevância nos últimos anos.

Quando o Citigroup assumiu o banco, em 2001, o Banamex concentrava mais de 22% do crédito no país. Em 2024, essa fatia havia caído para 6%.

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“Gostaria de encerrar minha carreira como o responsável por transformar o Banamex”, disse em uma rara entrevista presencial na sede do banco, na Cidade do México, à Bloomberg News.

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Segundo ele, há disposição para ajudar o Banamex a recuperar participação de mercado — movimento que começou no ano passado após a separação das operações em relação ao Citi México.

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O executivo afirmou ainda que o banco ampliará de forma significativa sua disposição a risco e aumentará o volume de crédito para diversos segmentos, incluindo empresas, governo e pequenas companhias.

“Vamos emprestar mais”, afirmou. “Hoje, o banco concede menos crédito do que poderia.”

Para o Citigroup, o investimento de Chico Pardo representa uma saída para um negócio que vinha enfrentando dificuldades, ao transferi-lo para um empresário que a CEO Jane Fraser descreveu como “um dos investidores mais bem-sucedidos do México”.

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A redução da presença no Banamex faz parte do recuo mais amplo do banco americano em operações internacionais de varejo consideradas pouco estratégicas.

O Citigroup continua reduzindo sua participação no negócio. Em fevereiro, o banco fechou acordo para vender 24% do Banamex por cerca de US$ 2,5 bilhões a investidores que incluem fundos administrados pela Blackstone e pela General Atlantic, e também o BTG Pactual.

Segundo o banco, Chico Pardo participou ativamente da escolha dos novos investidores. No futuro, o Citigroup pretende buscar um IPO, dependendo das condições de mercado e das aprovações regulatórias.

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Durante anos, os desafios enfrentados pelo Citigroup no Banamex levaram à estagnação tecnológica e a uma série de escândalos prejudiciais, afirmou Jorge Llaguno, especialista em cultura corporativa mexicana do IPADE Business School.

El edificio de oficinas corporativas de Banamex en Ciudad de México. Foto: Mayolo Lopez Gutierrez/Bloomberg

Chico Pardo atribui o declínio do Banamex ao apetite limitado por risco do Citigroup no México. Integrante do conselho do BBVA México desde 2009, ele acompanhou concorrentes conquistarem clientes do Banamex, o que corroeu sua posição no mercado.

Um acordo de não concorrência com o Citigroup expirou quando ele assumiu o controle do conselho, permitindo que o banco mexicano passe inclusive a disputar clientes do próprio Citi.

Por outro lado, Chico Pardo assume uma instituição com marca histórica no México. Sob o Citi, o banco também reformulou seus sistemas de compliance após os escândalos e tornou-se referência no setor bancário local em políticas de diversidade na contratação.

“Há muitas coisas que o Citi fez muito bem, e devemos continuar fazendo”, disse. “Há também muitas que não foram bem feitas. Essas precisam mudar.”

O Citigroup preferiu não comentar.

Recomeço

Já em 1997, Chico Pardo poderia ter se aposentado como um homem rico que deixou marca na história financeira do México.

Após passagens pelo Salomon Brothers e pelo Standard Chartered em Nova York e Londres, ele voltou ao México e fundou sua própria corretora no fim dos anos 1970. Foi nesse período que conheceu Carlos Slim no pregão da bolsa.

“Ele era especializado em dívida da Telmex e eu operava petro bonds”, relembrou.

Ele fundiu sua corretora com a operação de Slim, dando origem ao Grupo Financiero Inbursa. A dupla acumulou fortuna nos mercados após a privatização de participações estatais em empresas nos anos 1980.

Quando o então presidente José López Portillo nacionalizou os bancos mexicanos, em 1982, o governo passou subitamente a controlar grandes participações acionárias em centenas de empresas.

Seu sucessor decidiu vender no mercado os ativos não financeiros detidos por essas instituições. Segundo Chico Pardo, ele e Slim conseguiram adquirir diversas companhias por cerca de 20 centavos por dólar.

“O México estava à venda”, afirmou. “Foram anos extraordinários.”

Chico Pardo reconhece que aquela oportunidade foi rara — resultado da combinação entre expansão de mercado e uma conjuntura específica de política econômica. Mas diz que a experiência mostrou que comprar barato não basta.

“O essencial é administrar o negócio entendendo como o mundo muda”, disse. “E agir antes que tudo mude.”

Slim e Chico Pardo também investiram em outros setores, inclusive por meio do conglomerado Grupo Carso. Um exemplo foi a Condumex. No início dos anos 1990, quando o grupo adquiriu o controle da fabricante de fios de cobre, a empresa enfrentava concorrência de grandes companhias europeias com escala muito superior, o que levou os novos controladores a direcionar o negócio para nichos mais especializados.

“É preciso entender onde o setor cresce, qual é sua vantagem competitiva e como transformar o negócio”, afirmou.

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Para Chico Pardo, havia um limite dentro do Inbursa: Slim pretendia transferir o império aos herdeiros. Ele permaneceria como sócio minoritário — e tinha três filhos aos quais dedicava pouco tempo. Aos 45 anos, decidiu seguir carreira própria.

“Foi orgulho”, disse. “Queria trabalhar para minha família. Comecei de novo. Minha própria trajetória.”

Após a separação, criou a gestora de private equity Promecap, focada inicialmente em special situations e, posteriormente, em veículos de investimento voltados a fundos de pensão mexicanos.

Ele também se associou a George Soros para adquirir participações em empresas, incluindo o hoje extinto varejista e banco Grupo Famsa, segundo documentos regulatórios.

Executivos do setor afirmam que um dos legados duradouros de Chico Pardo foi estruturar veículos que permitiram aos fundos de pensão mexicanos investir em private equity.

Chico Pardo “foi um dos primeiros investidores institucionais em private equity no México”, disse Pablo Coballasi, presidente da associação do setor Amexcap e sócio-gestor da PC Capital.

“Hoje, a Promecap continua entre os principais e mais bem-sucedidos gestores de crédito privado, liderada por Fernando e uma equipe extraordinária.”

Apostas em turismo

Seu império se expandiu de forma significativa em 2004, quando começou a comprar participações no Grupo Aeroportuario del Sureste (Asur), conjunto de aeroportos anteriormente vendido pelo governo a quatro diferentes acionistas.

“Era uma bagunça”, afirmou.

Ele passou a ser conhecido pela gestão enxuta de aeroportos em destinos turísticos como Cancún, Mérida e Oaxaca. O boom do turismo elevou em quase 17 vezes o valor das ações da Asur negociadas nos EUA desde 2004, avaliando sua participação atual em cerca de US$ 2,6 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.

No ano passado o Grupo Asur expandiu sua atuação ao comprar 20 aeroportos da brasileira Motiva por R$ 11,5 bilhões

O bilionário também ampliou suas apostas em infraestrutura ao adquirir 49% da operadora portuária Carrix de um fundo de infraestrutura do Goldman Sachs. À época, a companhia — controladora da SSA Marine e já uma das maiores operadoras portuárias privadas do mundo — concentrava a maior parte de seus terminais nos Estados Unidos.

Com apoio de sua experiência no mercado local, a receita no México mais que triplicou, segundo Chico Pardo, que vendeu metade de sua participação para a Blackstone em 2019.

Apesar da diversificação, ele nunca se afastou do setor financeiro. Décadas atrás integrou o conselho do Bancomer antes da aquisição pelo Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) e permaneceu como conselheiro desde 2009.

“No BBVA há enorme disciplina no controle e na gestão de risco”, disse. “Disciplina é essencial.”

Ao assumir o Banamex, Chico Pardo avalia que o banco pode usar seu acervo de dados acumulados ao longo de mais de 140 anos para competir de forma mais eficiente.

“Precisamos garantir que esses dados sejam usados para ajustar o apetite de risco”, afirmou.

Antes disso, porém, o banco pode precisar modernizar sua tecnologia para explorar plenamente essas informações. O principal obstáculo para o sucesso futuro do Banamex é atualizar sistemas considerados obsoletos diante de concorrentes digitais mais avançados, disse Llaguno.

Chico Pardo afirmou esperar que os investimentos em tecnologia representem o maior aporte no primeiro ano, mas evitou divulgar valores.

Ele também busca reforçar o foco estratégico da instituição. Enquanto o Citigroup mantém operações relevantes de gestão de patrimônio e banco de varejo nos EUA, a maior parte de sua receita global vem do atendimento a empresas. Já o Banamex historicamente ficou associado ao crédito ao consumidor no México.

“O tipo de banco que o Banamex era, comparado à estratégia do Citigroup nos Estados Unidos, fazia parecer duas instituições com propósitos completamente distintos”, disse Llaguno.

O negócio também foi afetado por um grande escândalo. O Banamex USA, antiga subsidiária do banco, foi fechado em 2017 após o Citigroup admitir falhas nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro.

Segundo José Antonio Quesada, consultor e ex-regulador bancário, o perfil discreto e prudente de Chico Pardo o tornou o candidato mais adequado entre os interessados no ativo.

“O perfil dele é mais apropriado para resolver os desafios decorrentes da separação completa e da futura listagem do Banamex em bolsa”, afirmou. “Ele tem boa reputação pública, prestígio e é visto como alguém capaz de atrair o mercado para esse projeto.”

Planejamento sucessório

A participação no Banamex também ajuda Chico Pardo a fortalecer os negócios que pretende transferir aos filhos Andrés, Felipe e Pablo.

Os três trabalham há anos em diferentes empresas da família. O patrimônio de Chico Pardo é estimado em ao menos US$ 3 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index — valor que não inclui sua fatia na Carrix, empresa fechada, nem a Promecap, que administra US$ 6,5 bilhões em ativos de fundos de pensão. Eles também comandam o family office da família, chamado Rodina.

Luis Téllez, ex-autoridade do governo mexicano e ex-executivo da KKR no país, conhece Chico Pardo desde os anos 1990 e afirma que sua maior conquista foi formar filhos que se tornaram empresários bem-sucedidos e respeitados.

“Ele transmitiu aos filhos tanto sua ética quanto sua visão de negócios”, disse Téllez.

Segundo Chico Pardo, a família é próxima. Ele cresceu em uma família de classe média alta na Cidade do México e estudou em escolas administradas pela ordem jesuíta, ligada à Igreja Católica e voltada à justiça social — formação que, segundo ele, influenciou profundamente sua visão de mundo.

Hoje, gosta de descansar em sua casa em Valle de Bravo, destino à beira de lago a poucas horas da capital mexicana, ao lado dos dez netos. Em alguns momentos se afasta dos negócios para andar a cavalo e passar tempo com seus dois cães da raça Boxer, Petra e Simon.

Ainda assim, família e negócios permanecem interligados. Os três filhos participaram diretamente da proposta de aquisição do Banamex. Conhecido por conduzir negociações sem recorrer a bancos de Wall Street para evitar taxas, Chico Pardo contou com o apoio deles nas tratativas com o Citigroup.

Ele afirmou ter recorrido a financiamento para comprar sua participação, o que demonstra, segundo suas palavras, o tamanho de sua confiança no México e no futuro do Banamex.

“Eu não poderia assumir mais que 25%, esse era o limite de risco que queria correr”, disse. “Fizemos isso nós quatro, e isso é extraordinário. Essa é minha maior recompensa por ter seguido meu próprio caminho.”

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