Bloomberg Opinion — Greg Abel passou em seu primeiro teste desde que assumiu o cargo de Warren Buffett como novo CEO da Berkshire Hathaway (BRK/A). Em sua primeira carta aos acionistas, ele enfatiza que a cultura da Berkshire vai muito além de um único homem.
No entanto, quase ao mesmo tempo, ele nos diz para não nos preocuparmos — afinal, Buffett ainda está presente no escritório.
Aqui está o que Abel escreveu em sua carta a acionistas:
“[Buffett] é mais do que um guru dos investimentos. Warren transformou a Berkshire em uma empresa duradoura com seu parceiro de negócios Charlie Munger. Eles combinaram alocação de capital de classe mundial com visão e liderança para criar uma empresa totalmente equipada para fazer a transição de uma empresa liderada pelo fundador para uma bem posicionada para os próximos 60 anos e além.”
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E aqui ele deu uma garantia extra para aqueles que ainda não conseguem aceitar uma Berkshire pós-Buffett:
“Temos a sorte de ter Warren como presidente da Berkshire, no escritório cinco dias por semana, e disponível para nós enquanto subscrevemos seguros, operamos nossos negócios não relacionados a seguros e aplicamos capital, incluindo investimentos em ações. Warren também continua como proprietário da Berkshire (embora suas ações sejam todas destinadas à filantropia nos 10 anos seguintes ao seu falecimento).”
Abel está seguindo uma estratégia de comunicação comprovada para sucessões. Sua carta remete a algumas das palavras usadas por Tim Cook, da Apple (AAPL), após assumir o lugar de Steve Jobs em agosto de 2011 (pouco antes da morte de Jobs, em outubro daquele ano).
Assim como Cook, Abel se apresenta como o próximo administrador de uma empresa com uma cultura forte, construída para sobreviver ao seu líder.
Buffett pode ser um investidor singular (assim como Jobs era um visionário singular da tecnologia), mas, ao final de seus mandatos como CEOs, sua magia havia se tornado parte de suas organizações. Pelo menos, essa é a mensagem que seus sucessores procuraram transmitir.
É uma mensagem sensata. Nenhuma grande empresa jamais sobreviveu sem evoluir, mas Abel pode se apoiar na mensagem de continuidade pelo tempo que for necessário para minimizar a volatilidade e a rotatividade na tão elogiada base de acionistas da Berkshire.
Aos 95 anos, é difícil imaginar Buffett trabalhando “cinco dias por semana” por muitos anos ainda (embora muitas pessoas já dissessem isso há 15 anos, e só agora Buffett deu seu primeiro grande passo para trás). Por enquanto, sua presença pode impedir que alguns desses acionistas se retirem enquanto o histórico de Abel está sendo estabelecido.
É claro que, na analogia com a Apple, Cook seguiria traçando seu próprio caminho, começando apenas alguns meses depois, em março de 2012, quando anunciou o primeiro dividendo da empresa em 17 anos. (Jobs, assim como Buffett, sempre rejeitou dividendos, que podem ser ineficientes em termos fiscais e limitar a flexibilidade corporativa).
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Com o tempo, ele também se associou a evoluções críticas em toda a cadeia de suprimentos da empresa e a novas iniciativas estratégicas, incluindo o Apple Watch.
Cook conseguiu avançar, mantendo grande parte da “aura de Steve Jobs” na empresa. Ele expandiu uma cultura que prioriza os valores éticos e permitiu que a empresa se tornasse menos dependente da personalidade de um único indivíduo. Abel pode seguir um modelo semelhante.
Em geral, a carta de apresentação de Abel é reverente e respeitosa ao legado de Buffett, e tenta homenagear o estilo popular do Oráculo de Omaha.
Ele menciona a afinidade de Buffett com o jogador de beisebol do Hall da Fama Ted Williams, que “dividiu a zona de strike em 77 segmentos e tentou rebater apenas em arremessos em uma ‘zona feliz’ muito menor, resultando em uma média de rebatidas de 0,344 na carreira e uma temporada histórica de 0,406 em 1941”.
Abel conclui: “Disciplina, paciência e discernimento semelhantes definem os investimentos de Warren: determinar os arremessos preferidos, esperar por eles e então rebater com determinação”.
Abrir a carta dessa forma nos lembrou imediatamente que estávamos lendo um texto da Berkshire; a referência a Ted Williams vem diretamente da carta de Buffett de 1997. Isso mostra que Abel é um “buffettologista” experiente, não alguém tentando ser um escritor popular por conta própria.
Abel se afasta da marca Buffett de maneiras mais sutis. Sua carta está repleta de jargões convencionais de gestão. Ele vê seu papel como garantir que “os níveis de liquidez e a aplicação de capital permaneçam intencionais e deliberados” e deseja “buscar a excelência operacional” em todos os negócios operacionais.
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No geral, o texto se afasta um pouco de Omaha, Nebraska, e se aproxima de Wall Street — e tudo bem. Abel nasceu no Canadá e mora em Des Moines, Iowa, então a imagem definitiva que ele terá como executivo provavelmente não será nenhuma das duas extremidades.
Com o tempo, ele deixará sua marca na Berkshire com a forma como conduz aquisições e navega por tempos difíceis. Mas ele não precisa se tornar uma lenda dos investimentos por conta própria — o modelo da Berkshire já está estabelecido. Por enquanto, ele deve ter como objetivo ser o guardião da cultura que Buffett e Charlie Munger construíram.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Jonathan Levin é um colunista com foco nos mercados e na economia dos EUA. Anteriormente, trabalhou como jornalista da Bloomberg nos EUA, no Brasil e no México. É analista financeiro com certificação CFA.
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