Família bilionária sueca prepara sucessão em seu império de US$ 40 bilhões

Centenária dinastia Wallenberg, que exerce influência sobre 40% das empresas listadas na bolsa de Estocolmo, a gestora de private equity EQT e a gigante de telecom Ericsson, busca se modernizar ao trazer a sua sexta geração ao comando

Peter Wallenberg Jr
Por Rafaela Lindeberg - Charles Daly
31 de Janeiro, 2026 | 05:32 AM

Bloomberg — A dinastia Wallenberg é a realeza corporativa da Suécia, conhecida por sua hierarquia rígida, senso de dever cívico e comando firme. Mas foi um experimento – uma espécie de “quebra-gelo” familiar realizado na casa do estadista Peter “Poker” Wallenberg Jr. há mais de uma década – que preparou o terreno para os mais recentes esforços de sucessão do clã.

Tratava-se de uma pequena, porém reveladora, ruptura com a tradição: o objetivo não era ungir a próxima leva de líderes mas incentivar primos e membros de uma família extensa e apegada aos costumes a simplesmente conversar entre si.

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Aquele encontro discreto hoje é visto como o início silencioso de uma reformulação muito mais ampla – e como um teste para saber se uma família construída sobre o controle de longo prazo consegue se modernizar para enfrentar desafios crescentes.

O que está em jogo é elevado, dada a influência dos Wallenberg sobre o ambiente empresarial sueco – de participações na gestora de private equity EQT à gigante de telecomunicações Ericsson.

Por meio de uma intrincada rede de fundações, holdings e estruturas acionárias com classes distintas de ações, o grupo exerce um poder decisório desproporcional em seu país de origem, que chega, segundo algumas estimativas, a exercer influência sobre cerca de 40% das empresas listadas na bolsa local.

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É um sistema que, para alguns, está maduro para uma revisão.

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Nos últimos meses, movimentos discretos indicam mudanças em curso, à medida que o clã promove novos nomes, enquanto a chamada quinta geração de líderes se aproxima da idade convencional de aposentadoria.

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Jacob Wallenberg Jr., de 33 anos, ingressou no conselho da EQT, e de Fred Wallenberg, 35 anos, tornou-se membro do conselho da Investor AB, o principal veículo de investimentos da família.

Outras nomeações recentes incluem Martina Wallenberg, de 36 anos, para o conselho do banco SEB, e Stephanie Gandet, de 40 anos, para o conselho da Fundação Knut e Alice Wallenberg. Ainda assim, está longe de ser claro quem assumirá o comando final.

Império de US$ 39,8 bilhões da família Wallenberg é organizado por meio de uma rede de empresas de investimento e holdings

Esse grupo mais jovem, em grande parte ainda pouco testado, herdará uma série de questões junto com as chaves de um império empresarial avaliado em US$ 40 bilhões.

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Embora o sistema de ações com direitos diferenciados seja defendido como promotor de estabilidade e visão de longo prazo, críticos afirmam que ele cristaliza privilégios e prejudica acionistas minoritários.

A Investor AB acaba de sair de um forte ciclo de valorização que levou alguns investidores a vender ações, preocupados com a capacidade da empresa de sustentar o desempenho recente. A família também trabalha para ampliar a presença feminina em seus níveis mais altos.

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Poker Wallenberg, hoje com 66 anos, é o responsável pelo planejamento sucessório e um dos três homens que lideram a família, ao lado do irmão mais velho, Jacob, de 70 anos, e do primo Marcus, de 69 anos.

Sentado sob um imponente retrato a óleo do antepassado Knut, em uma sala de conselho em Estocolmo, durante entrevista à Bloomberg News, ele diz desejar que mais mulheres do grupo de 30 integrantes da chamada sexta geração cheguem a posições de destaque, defende o sistema sueco de ações com votos diferenciados e refuta qualquer insinuação de favoritismo familiar.

“Para que essa sucessão funcione, precisamos formar uma equipe da sexta geração que não apenas tenha capacidade profissional e disposição para assumir a função, mas que também consiga trabalhar em conjunto e realmente se conheça”, afirma.

‘Bons tempos e maus’

A influência corporativa da família se apoia no sistema de ações classe A, com maior poder de voto, em vigor há cerca de um século e semelhante às estruturas de ações de classes múltiplas comuns na América do Norte.

Na Suécia, esse modelo permitiu que os Wallenberg e outras famílias ricas locais influenciassem empresas avaliadas em trilhões de coroas e com centenas de milhares de funcionários.

A Investor AB, por exemplo, controla menos de 10% do capital da Ericsson, mas detém cerca de um quarto dos direitos de voto.

Uma das críticas vem da consultoria de governança Institutional Shareholder Services Inc., que defende o fim das estruturas de ações de classes distintas na Europa, citando preocupações com o tratamento dado a investidores minoritários.

Nos últimos anos, a empresa se envolveu em um embate público com membros seniores da família Wallenberg após recomendar que investidores votassem contra diretores de companhias que mantêm esse tipo de estrutura acionária.

Christer Gardell, gestor sueco e investidor ativista, também se somou às críticas. Ele argumenta que detentores de ações classe A correm o risco de ter pouca “pele em jogo” (“skin in the game”) quando uma empresa enfrenta dificuldades, como, segundo ele, ocorreu na Ericsson alguns anos atrás.

“Se você controla uma companhia por meio de ações A, precisa ter exposição suficiente para que doa quando as coisas dão errado”, disse em entrevista à Bloomberg News.

“Fazemos isso desde 1916 com essas empresas”, responde Poker. “Estivemos presentes, construímos tudo isso, garantimos uma visão de longo prazo e asseguramos que as companhias pudessem se desenvolver tanto em bons quanto em maus momentos.”

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Ele e os demais líderes da quinta geração, assim como o ex-CEO da Investor AB Johan Forssell, também apontam para um desempenho acima da média.

A Investor AB superou o mercado acionário sueco por 15 anos consecutivos, com retorno anual médio de 19%, contra 11% do índice SIX Return Index. Para o próximo grupo de líderes, igualar esse histórico pode ser uma tarefa difícil.

Um gestor de hedge fund, que pediu anonimato por considerar o tema sensível, afirmou que a família apresenta o processo de seleção como baseado em desempenho, embora, no fim, os cargos mais altos tenham ficado com insiders bem posicionados.

A sucessão típica dos Wallenberg é descrita como uma “meritocracia do sangue”, segundo o historiador Gunnar Wetterberg, que afirma que, embora treinamento e credenciais sejam importantes, o nome da família e a linhagem são fatores decisivos.

“Eles foram nomeados porque eram membros da família com a experiência e o histórico relevantes”, diz Poker sobre as promoções recentes. “Não somos uma agência de empregos.”

A ascensão do setor de tecnologia sueco e de uma nova classe de bilionários é outro desafio potencial ao poder e ao prestígio da família no país.

Há dez anos, disse o gestor de hedge fund, existiam talvez meia dúzia de instituições às quais se recorria em busca de capital. Hoje, há cerca de 50 indivíduos privados com bilhões de dólares capazes de financiar startups na Suécia.

Nem todos compartilham dessa visão.

“Mesmo com empreendedores de sucesso como Daniel Ek ou os fundadores da Klarna, eles ainda estão muito longe do nível de influência dos Wallenberg”, afirma Sverre Linton, diretor jurídico e porta-voz da Associação Sueca de Acionistas, que representa pequenos investidores.

Realeza sueca

Apesar da enorme influência e do vasto império empresarial, a família raramente aparece em listas internacionais – e até suecas – de pessoas mais ricas, e fica atrás de nomes como o herdeiro da H&M, Stefan Persson, o cofundador do Spotify, Martin Lorentzon, e os herdeiros da fortuna da Tetra Pak.

Isso ocorre porque seus ativos estão majoritariamente alocados em fundações, criadas por Knut e Alice Wallenberg em 1917.

“Eles não tinham filhos”, explica Poker, sob o olhar fixo do retrato de Knut. “Queriam encontrar um sistema que garantisse a continuidade depois que eles não estivessem mais aqui. Para nós, da quinta geração, você olha para isso e pensa: ‘Uau, eram pessoas que realmente pensavam no longo prazo’.”

Em alguns momentos, o clã chegou a ser comparado à família real. Os integrantes do topo recebem salários das fundações e holdings em que trabalham e frequentemente participam de visitas de Estado.

Marcus Wallenberg, por exemplo, integrou uma delegação ao Canadá ao lado do rei Carl XVI Gustaf, da rainha Silvia e da vice-primeira-ministra Ebba Busch, em novembro.

“As vidas dos principais Wallenberg se assemelham, em muitos aspectos, às das famílias reais europeias – e, por isso, dificilmente são sempre particularmente agradáveis”, escreveu o financista finlandês Bjorn Wahlroos em suas memórias. “Trata-se de autodisciplina e do dever de assumir responsabilidades.”

Marcus Wallenberg

Poker, apelido dado por um parente devido à sua expressão enigmática quando criança, recorda com certa nostalgia as lembranças do pai, que viajava constantemente quando ele era menino.

Quanto ao destino do dinheiro, cerca de 80% dos dividendos das fundações financiam pesquisa e educação, enquanto os 20% restantes podem ser reinvestidos.

Em 2025, esse financiamento somou mais de 3,1 bilhões de coroas (US$ 396 milhões), o maior valor anual já registrado. Os beneficiários das fundações não são os membros da família, mas instituições de pesquisa.

Ainda assim, há indícios claros de privilégios associados ao cargo. Wahlroos menciona que ele e a esposa foram convidados para uma viagem de caça em um lodge no norte da Suécia – embora a propriedade pertencesse ao banco SEB, segundo ele, os Wallenberg tinham o local à sua disposição.

Início no setor bancário

A história do império familiar começou em 1856, quando Andre Oscar Wallenberg fundou o Stockholms Enskilda Bank, um dos primeiros bancos comerciais da Suécia, hoje conhecido como SEB.

Cerca de duas décadas depois, várias grandes empresas receberam empréstimos de emergência do SEB durante uma crise econômica. Esses créditos acabaram convertidos em participações acionárias, dando início à era dos Wallenberg como proprietários de ativos industriais.

Em 1916, ocorreu outro marco importante, com a separação do SEB entre as operações bancárias e a Investor AB. Um ano depois, foi criada a Fundação Knut e Alice Wallenberg.

Alguns membros da família teriam ficado insatisfeitos com a transferência de riqueza para fora do clã, mas a decisão definiu o formato atual dos ativos da família – e seu senso de responsabilidade cívica.

Ericsson

Poker – assim como naquele encontro informal em sua casa anos atrás – afirma que continua empenhado em dar um viés mais moderno às tradições familiares, incluindo maior representação feminina.

A próxima onda de liderança virá de um grupo de 30 pessoas – em sua maioria ainda na casa dos 20 e 30 anos – que assumirão mais responsabilidades dentro das 16 fundações sem fins lucrativos e holdings.

“Quando éramos jovens, havia alguém ali apontando e dizendo o que podíamos ou não fazer”, disse. “E não quisemos transmitir isso para a próxima geração.”

Agora, à medida que o país passa a produzir uma onda cada vez maior de empreendedores e investidores ricos, Poker afirma que gostaria de ver mais endinheirados direcionando suas energias para criar sistemas que permitam o florescimento de parcerias público-privadas – como Knut e Alice fizeram há mais de um século.

“Espero que os novos bilionários da Suécia se sentem, como meus antepassados, e percebam que tiveram o privilégio de trabalhar em um sistema que lhes deu a oportunidade de se tornar muito ricos”, disse. “E que comecem a pensar em como usar parte disso para retribuir.”

-- Com a colaboração de Julia Janicki.

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