Bloomberg — Apesar de um início seco da temporada de esqui no Colorado, o Winter Park Resort abriu no Halloween e ofereceu neve fresca no período de festas de fim de ano.
O segredo do resort fica a alguns quilômetros: um equipamento que lembra um defumador de carnes preso ao topo de uma escada.
Quando as condições climáticas estão adequadas, uma empresa contratada pelo Winter Park liga a máquina, que queima um pó fino de iodeto de prata no céu — processo conhecido como semeadura de nuvens.
No cenário ideal, as partículas se dispersam em uma nuvem fria e úmida o suficiente para produzir neve, mas que pode precisar de um empurrão.
O iodeto de prata se torna o núcleo das gotículas de água, como pequenos pedaços de ferro atraídos por um ímã. Essas gotículas congelam e caem do céu em forma de flocos de neve, renovando as pistas do resort, que tenta atrair as multidões de turistas de Denver e destinos de esqui maiores e mais chamativos mais a oeste.
Doug Laraby, que ajuda a administrar o Winter Park há quase quatro décadas, diz que o resort recorreu intensamente ao equipamento de semeadura de nuvens durante o feriado de Natal, “polvilhando” o céu à medida que a neve caía dias antes do crucial fim de semana de Ano-Novo.
No momento, o Winter Park tem mais neve do que Breckenridge, Keystone e uma série de resorts maiores nas proximidades.
“Para nós”, explica Laraby, “aquilo foi uma tempestade de um milhão de dólares”.
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As estações de esqui buscam cada vez mais soluções para renovar as encostas marrons que se espalham pelo Oeste americano neste inverno, mesmo enquanto a Costa Leste enfrenta tempestades consecutivas.
No mês passado, a Vail Resorts — que controla quase 50 resorts nos Estados Unidos e no Canadá — afirmou que ficará abaixo das projeções de receita devido à neve aquém do esperado nesta temporada.
A falta de precipitação nas Montanhas Rochosas “limitou a capacidade de abrir áreas” e, como consequência, reduziu os gastos tanto de moradores locais quanto de turistas, disse o presidente-executivo Rob Katz em comunicado.

Na disputa para melhorar — ou ao menos manter — o acúmulo de neve diante do aumento das temperaturas e da seca, o Winter Park, operado pela Alterra Mountain, rival da Vail, é um dos grupos crescentes no Oeste americano que redobram a aposta na semeadura de nuvens, ao lado de governos estaduais, áreas de esqui, concessionárias de serviços públicos e agências de gestão de bacias hidrográficas.
Carentes de água — idealmente na forma de neve —, eles apostam nessa estratégia para sustentar a indústria americana de esqui, avaliada em US$ 6 bilhões, ao mesmo tempo em que mantêm rios e reservatórios em níveis saudáveis na primavera.
Apesar da promessa, porém, as empresas ainda tentam reunir dados que comprovem que a tecnologia realmente entrega volumes significativos de neve. E cientistas que estudam a semeadura de nuvens colocam em dúvida o quão eficaz ela é.
Katja Friedrich, professora de ciência atmosférica da Universidade do Colorado, reconhece que a semeadura funciona em laboratório. “Mas lá fora”, diz ela, apontando para nuvens cirrus que avançam sobre a Front Range visíveis de seu escritório, “é um negócio totalmente diferente”.
Tempestades de neve são ambientes voláteis, complexos e implacáveis para a coleta de dados. “A aplicação está muito à frente do que a ciência de fato demonstra”, explica Friedrich. “Normalmente, é o contrário.”
A ideia de semear nuvens remonta ao século 19 e ganhou impulso inesperado com pesquisas da General Electric no período pós-Segunda Guerra Mundial. O DRI, instituto de pesquisa sem fins lucrativos de Nevada, começou a semear nuvens nos anos 1960. A prática de introduzir partículas nas nuvens para gerar precipitação ganhou tração nos últimos anos à medida que ondas de seca atingiram os Estados Unidos, somando US$ 14 bilhões em prejuízos apenas em 2023.
Hoje, o DRI conduz operações de semeadura de nuvens em todo o Oeste, inclusive o programa do Winter Park. Em 2023, os geradores do Winter Park ficaram ligados pelo equivalente a cinco dias seguidos, “plantando” cerca de 60 centímetros de neve nas pistas que não teriam existido de outra forma, segundo o DRI. Isso equivale a 13% do volume que teria caído naturalmente.
“O principal motivador [para nossos clientes] são os recursos hídricos”, diz Frank McDonough, cientista pesquisador do DRI. Mas, observa ele, “podemos ajudar toda a economia das montanhas”.
Empresas privadas também passaram a desempenhar um papel maior, com destaque para a Rainmaker Technology, uma startup que hoje é a principal contratada de semeadura de nuvens de Utah, estado que montou um dos programas mais agressivos do Oeste americano.
De um galpão em Salt Lake City, o fundador Augustus Doricko, de 25 anos, com um vistoso mullet que contrasta com sua infância em Connecticut, comanda uma equipe de 120 pessoas — em sua maioria jovens — trabalhando para fazer nevar em montanhas que, em outras circunstâncias, poderiam estar escalando ou esquiando.
Quando o tempo parece favorável, equipes da Rainmaker entram em 12 picapes, cada uma carregada com dois drones, e sobem em comboio pelos cânions das Montanhas Wasatch. Metade dos drones é enviada para dentro da “sopa” de nuvens, pulverizando iodeto de prata por cerca de uma hora.
Quando as máquinas retornam para recarga, a equipe lança a segunda leva. O ciclo se repete até que as nuvens se afastem ou fiquem quentes demais.

Doricko afirma que sua empresa cria um novo suprimento de água sem impacto ecológico; o iodeto de prata é inorgânico e, mesmo se ingerido, não se dissolve no corpo humano.
Neste ano, o estado de Utah pagará US$ 7,5 milhões à Rainmaker, como parte de uma ofensiva de semeadura de nuvens iniciada há três anos. Com o Great Salt Lake em níveis historicamente baixos, os parlamentares de Utah aprovaram um aumento de dez vezes no financiamento, comprometendo pelo menos US$ 5 milhões por ano para as operações e mais US$ 12 milhões para modernizar e expandir uma frota de quase 200 máquinas de semeadura em solo.
A Rainmaker tem a missão de gerar neve suficiente para ajudar a reabastecer parcialmente o lago. A empresa também mantém contrato com o Snowbird Resort, a leste de Salt Lake City, e grande parte da semeadura ocorrerá perto dos resorts Powder Mountain e Snowbasin, mais ao norte, embora nenhum dos dois seja cliente.
“Tudo o que pudermos fazer para aumentar os níveis de água vai valer muito a pena”, diz Jonathan Jennings, meteorologista do Departamento de Recursos Naturais de Utah.
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A lista de interessados em mais água no Oeste americano é longa, indo de estações de esqui a combatentes de incêndios florestais, de gestores de reservatórios a agricultores.
“Todo estado do Oeste ou está semeando nuvens ou pensando em semear”, afirma Friedrich, da Universidade do Colorado.
A prática também é popular, em parte, porque é barata. Jennings estima que o custo para produzir cerca de 1,2 milhão de litros de água (cerca de meia piscina olímpica) seja de aproximadamente US$ 30. Reciclar ou dessalinizar a mesma quantidade custaria algo em torno de US$ 1.000. A produção de neve artificial, por sua vez, é mais cara e consome mais água do que gera.

Quando Doricko visita potenciais clientes — sejam concessionárias, resorts de esqui ou agências estaduais —, seu discurso de vendas é simples: “É a única forma de trazer um novo suprimento de água para o Oeste das Montanhas Rochosas”.
Na maioria das vezes, hoje em dia, o argumento convence. Idaho também contratou a Rainmaker neste inverno, ansioso para encher seus reservatórios e manter os agricultores satisfeitos. Ao todo, a empresa tem cerca de 100 drones voando pelos céus do Oeste.
No Colorado, onde as condições secas agravaram os incêndios florestais, autoridades acompanham com interesse as capacidades dos drones da Rainmaker enquanto aguardam os números de neve deste inverno em Utah.
Enquanto isso, trabalham para substituir máquinas de semeadura em solo, com décadas de uso, por equipamentos que podem ser acionados remotamente. Sem a necessidade de um operador para acender o queimador, as novas unidades podem ser instaladas em locais mais remotos e em altitudes mais elevadas, que permanecem frias por mais tempo, aumentando as chances de neve.
“Estamos confortáveis em dizer que conseguimos obter de 8% a 12% adicionais de precipitação por tempestade”, afirma Andrew Rickert, gerente do programa de modificação do tempo do Colorado Water Conservation Board. “E, se tivermos um ótimo inverno no Colorado, há de 30 a 35 tempestades que podemos semear.”
Friedrich não tem tanta certeza dessa estimativa, apesar de ser considerada uma espécie de estrela no campo da semeadura de nuvens. Em 2017, sua equipe de pesquisa fez um avião equipado com sinalizadores de semeadura ziguezaguear por uma nuvem em Wyoming que não produzia neve. De fato, a neve caiu no mesmo padrão do voo, resultado que alimentou grande parte do recente boom da semeadura.
No entanto, como ressalta Friedrich, não caiu tanta neve assim. E ainda há muito desconhecido, como o efeito do vento sobre a quantidade de iodeto de prata que entra na nuvem e se as partículas desencadeiam precipitação além do que ocorreria naturalmente.
“Entendo por que as pessoas estão comprando essa ideia, porque estão desesperadas”, diz ela. “Mas, se me perguntar, não há prova científica” de que produza um volume significativo de água. Friedrich trabalha em um novo estudo para tentar determinar quão eficaz pode ser a semeadura de nuvens a partir do solo e quais são as melhores condições de operação.
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A semeadura de nuvens também enfrenta resistência de teóricos da conspiração que afirmam que ela funciona até demais. Apesar de não haver evidências, a Rainmaker foi implicada de forma equivocada nas enchentes fatais do Texas no verão passado nos EUA, e projetos de lei para banir a modificação do clima foram apresentados em dezenas de assembleias estaduais, inclusive no Colorado e em Utah.
A ex-deputada da Geórgia Marjorie Taylor Greene também apresentou no Congresso um projeto federal para proibir a semeadura de nuvens após as enchentes de julho passado.
Doricko, da Rainmaker, tem trabalhado para convencer parlamentares de que a semeadura não causa danos e, em outra frente, conquistar cientistas céticos como Friedrich.
A Rainmaker passou boa parte da primavera e do verão desenvolvendo seu próprio sistema de radar e implantando uma rede de estações meteorológicas em solo para medir resultados.
A empresa também colabora com pesquisadores independentes para obter validação por pares. Assim como Friedrich fez anos atrás, a Rainmaker tenta pulverizar iodeto de prata em padrões de zigue-zague, para que os resultados fiquem mais visíveis no radar — a chamada “assinatura de semeadura”.
Doricko reconhece a dificuldade de separar a influência exata da semeadura artificial — que ele brinca chamando de “feijões mágicos” — da precipitação natural. “Nossa pesquisa fundamental agora na Rainmaker é toda sobre que ‘pia de cozinha’ de sensores conseguimos jogar nesse problema para realmente validar” nosso trabalho, afirma.
A Vail abandonou seu programa de semeadura de nuvens em 2020, redirecionando recursos para investir pesadamente em máquinas que usam água para produzir neve artificial. Os canhões de neve mais novos monitoram o clima em tempo real e podem ser programados remotamente.
“Essa tecnologia permite que a Vail aproveite ao máximo cada momento em que as condições permitem a produção de neve”, diz a porta-voz Michelle Dallal. Ainda assim, o resort sente o impacto de um inverno anormalmente seco.
Autoridades estaduais tentam trazer a Vail de volta. A semeadura de nuvens, argumentam, pode ser mais barata do que a produção de neve artificial, tanto em custo quanto em emissões de carbono, além de acrescentar água ao ecossistema, em vez de retirar uma parte dele.
O estado também tenta convencer outras áreas de esqui a aderir: neste ano, o Colorado posicionou um sistema em solo para semear nuvens nas encostas de Aspen, na esperança de que o resort ajude a financiar programas futuros.
Enquanto isso, o Winter Park emergiu como um dos maiores entusiastas da semeadura de nuvens no estado. Laraby diz que apenas 10% da montanha conta com equipamentos de produção de neve artificial, e não há planos de instalar mais.
Ainda assim, quando as tempestades atravessaram o estado em 28 de dezembro, o Winter Park afirma que seus esforços de semeadura produziram 12 polegadas de neve — o triplo do que caiu em Vail.
“Se me perguntar, isso aumenta a eficiência dessas tempestades”, diz Laraby. “Acho sensacional.”
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