Bloomberg — O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, voltava para casa após mais uma viagem agitada a Davos quando veio a notícia: o presidente Donald Trump havia entrado com um processo contra ele e seu banco por US$ 5 bilhões.
Não se trata apenas da mais recente tentativa de Trump de atacar empresas que, segundo o presidente americano, o prejudicaram pessoalmente – é mais um capítulo de sua relação longa, complexa e por vezes conflituosa com o chefe do maior banco dos Estados Unidos.
Os acionistas do JPMorgan não se abalaram: a ação (JPM) chegou a cair levemente antes de fechar o dia em alta, adicionando mais de US$ 4 bilhões ao valor de mercado do banco. Em seguida, o conselho anunciou um aumento de 10% no salário de Dimon.
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Nesta rodada das ameaças, Trump acusou Dimon de tê-lo excluído pessoalmente do sistema financeiro dos Estados Unidos após deixar a Casa Branca, em 2021.
Ou, como afirma a ação: o CEO e sua instituição “woke” de Wall Street teriam “desbancarizado” ilegalmente os negócios de Trump por razões políticas e, em seguida, colocado o nome Trump em uma “lista negra” do setor, bloqueando também o acesso a outros credores.
“Você não pode fazer o que eles fizeram – Jamie Dimon, o que ele fez, não é permitido”, disse Trump posteriormente a jornalistas a bordo do Air Force One. “Não sei qual seria a desculpa deles. Talvez a desculpa sejam os reguladores.”
De fato, o JPMorgan afirmou que segue regras federais que o levam a “encerrar contas porque elas criam risco legal ou regulatório para a empresa”.
A instituição, que assim como outros bancos, reduziu sua relação com Trump nas semanas após o ataque de seus apoiadores ao Capitólio dos Estados Unidos, declarou apoio aos esforços recentes do governo para aperfeiçoar essas normas e evitar qualquer potencial “instrumentalização do setor bancário”.
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O novo processo se soma ao recente afastamento do presidente em relação a Wall Street.
Depois que suas políticas de desregulamentação e corte de impostos proporcionaram aos bancos dos Estados Unidos um de seus anos mais lucrativos da história, Trump lançou neste mês uma série de ataques às instituições financeiras — exigindo, entre outras coisas, que reduzam as taxas de juros do cartão de crédito a níveis que esmagariam os lucros.
No caso de Dimon, Trump mira um dos decanos do setor, que com frequência atuou como mediador entre Wall Street e a Casa Branca.

Pressão sobre o setor privado
A ação foi apresentada por Alejandro “Alex” Brito, o advogado que ajudou Trump a processar o New York Times, o Wall Street Journal e, no mês passado, a emissora BBC, buscando um total de US$ 35 bilhões por suposta difamação. As empresas negam irregularidades e contestam os processos.
Trump também reclamou publicamente que a Capital One e o Bank of America rejeitaram indevidamente seus negócios ao longo dos anos. Até agora, ele não conseguiu fazê-las pagar.
A Trump Organization processou a Capital One em março, alegando que o banco prejudicou seus negócios imobiliários e outras operações ao cancelar centenas de contas após o fim de seu primeiro mandato.
A ação, inicialmente apresentada em um tribunal estadual da Flórida e depois transferida para a Justiça federal em Miami, afirma que as empresas de Trump foram clientes da Capital One por décadas, movimentando dezenas de milhões de dólares por meio da instituição.
A Capital One negou qualquer irregularidade e pediu o arquivamento do processo. O banco afirmou que não considerou a posição política de Trump, não buscou encerrar todas as contas relacionadas a ele e concedeu prazo adicional para que sua empresa transferisse ativos.
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Órgãos de fiscalização do governo Trump, incluindo o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) e a Federal Deposit Insurance Corp. (FDIC), tentaram coibir a prática de “desbancarização” após apelos do presidente e de parlamentares republicanos.
As regras em questão têm como objetivo manter os bancos seguros, pressionando-os a examinar e, se necessário, afastar clientes que representem riscos reputacionais.
Sob a liderança de Jonathan Gould no OCC, a agência concluiu que nove grandes bancos dos Estados Unidos fizeram “distinções inadequadas” entre clientes entre 2020 e 2023, ao restringir o acesso de alguns aos serviços bancários ou submetê-los a análises mais rigorosas.
A FDIC propôs um plano separado que proíbe explicitamente agentes examinadores de forçar bancos a encerrar contas por motivos políticos, sociais, culturais ou religiosos.
O JPMorgan afirmou que pediu a diferentes governos mudanças em regras que “nos colocam nessa posição”.
No Air Force One, na quinta-feira (22), Trump disse que Dimon teria “implorado” a ele quando repórteres perguntaram sobre o novo processo, embora não tenha detalhado quando ou como isso ocorreu. Em Davos, Dimon fez uma avaliação equilibrada das ações recentes de Trump.
“Tenho deixado isso claro: quero uma Otan mais forte, uma Europa mais forte”, disse Dimon em uma entrevista no palco. “Algumas das coisas que Trump fez contribuem para isso. Outras, não.”
Depois que a editora-chefe da Economist, Zanny Minton Beddoes, pressionou Dimon sobre a existência de uma cultura de medo entre executivos em relação a Trump, o banqueiro deixou claro que já tinha dito o suficiente.
“O que mais vocês querem que eu diga?”, afirmou Dimon. “Pronto, aqui vai a manchete: sou um globalista.”
Relação conturbada
Em vários momentos ao longo da última década, Dimon e Trump colaboraram em políticas públicas, elogiaram as percepções um do outro, criticaram falhas e trocaram farpas.
Após sugerir publicamente que Hillary Clinton derrotaria Trump em 2016, Dimon mudou de tom depois da eleição e enviou um comunicado aos funcionários dizendo que os eleitores haviam expressado desejo por mudança e que “precisamos ouvir”.
Pouco depois, Dimon passou a integrar o conselho consultivo de CEOs do presidente eleito. No Fórum Econômico Mundial daquele janeiro, ele instou líderes empresariais a se concentrarem na equipe do presidente, formada por “pessoas muito sérias”, e não em suas “tiradas”.
O conselho de CEOs não durou um ano e foi dissolvido após a resposta de Trump à violência racial em Charlottesville, na Virgínia. Na ocasião, Dimon disse aos funcionários que “não há espaço para ambiguidades aqui”.
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Os dois entraram em choque no fim de 2018, quando Dimon afirmou que poderia derrotar Trump em uma eleição porque “sou tão duro quanto ele, sou mais inteligente do que ele”. Acrescentou ainda: “Aliás, esse nova-iorquino rico realmente ganhou seu dinheiro” e “não foi um presente do papai”.
Horas depois, o JPMorgan divulgou um comunicado de Dimon dizendo: “Eu não deveria ter dito isso”. Trump reagiu nas redes sociais: “O problema de o banqueiro Jamie Dimon concorrer à Presidência é que ele não tem aptidão ou ‘inteligência’, é um péssimo orador e um poço de nervos — fora isso, é maravilhoso”.
Durante o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos Estados Unidos, Dimon voltou a se manifestar, afirmando que “nossos líderes eleitos têm a responsabilidade de pedir o fim da violência, aceitar os resultados e, como nossa democracia faz há centenas de anos, apoiar a transição pacífica de poder”.
À medida que a corrida presidencial de 2024 se intensificava, Dimon disse que Trump estava “em parte certo” em algumas de suas políticas. Em junho daquele ano, Trump afirmou que, se eleito, consideraria Dimon para secretário do Tesouro — e negou isso algumas semanas depois.
Após vencer a reeleição, Trump publicou nas redes sociais que Dimon não seria convidado a integrar seu governo. Minutos depois, Dimon subiu ao palco em uma conferência e agradeceu a mensagem de Trump, acrescentando: “Não tenho chefe há 25 anos e não pretendo começar agora.”
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