Em Davos, Bolsa de NY projeta novo ciclo de IPOs, que inclui empresas brasileiras

Em entrevista à Bloomberg Línea, Chris Taylor, chefe de Listagens Globais da NYSE, falou sobre os planos para negociação de ativos tokenizados, impulso com menor regulação e sobre a perspectiva de uso de dados gerados por mercados de previsão

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Bloomberg Línea — A Bolsa de Nova York avalia que existem condições favoráveis de mercado para o início de um ciclo sustentado de IPOs em 2026, em um ambiente que conta também com a perspectiva de mudanças regulatórias e de inovação tecnológica.

Essa perspectiva de mercado foi expressada à Bloomberg Línea por Chris Taylor, chefe de Listagens Globais e diretor de Desenvolvimento da NYSE.

Taylor, em entrevista para o podcast La Estrategia del Día no âmbito do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, afirmou que cinco empresas, incluindo uma da América Latina, estão programadas para abrir o capital nas próximas duas semanas, o que ele interpreta como um sinal de recuperação da atividade.

A empresa da região em questão é o Agibank, que entrou com o pedido de IPO neste começo de ano na NYSE.

Na entrevista, o executivo falou ainda sobre por que, em sua avaliação, listagens nos EUA são mais atraentes neste momento para empresas da região, incluindo as brasileiras, sobre inovações como a negociação de ações tokenizadas e sobre as perspectivas de integração com os mercados de previsão.

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Para Taylor, as ofertas neste começo de ano marcam o início de um ciclo mais amplo de emissões, em que que as condições atuais combinam a demanda dos investidores com níveis de valuations que facilitam a chegada de empresas aos mercados públicos.

“Torço para que seja um bom ano para o mercado de Ofertas Públicas Iniciais”, disse.

De acordo com Taylor, ofertas que estavam prontas para serem concluídas na bolsa em 2025 sofreram atrasos com a paralisação temporária da Securities and Exchange Commission (SEC, na sigla em inglês), o que afetou o cronograma.

“A paralisação do governo dos EUA realmente atrasou várias ofertas públicas iniciais que estavam prestes a chegar aos mercados públicos.”

Chris Taylor também falou sobre as mudanças regulatórias nos Estados Unidos e os desafios enfrentados pela América Latina.

A estratégia da Bolsa de Nova York para 2026 combina a recuperação do mercado de IPO com uma aposta na inovação regulatória, tecnológica e de dados.

Em Davos, Taylor deixou claro que o crescimento do número de ofertas públicas iniciais exigirá condições de liquidez estáveis, ajustes normativos que incentivem a participação de emissores menores e um ecossistema capaz de antecipar as transformações em curso.

Redução de custos para empresas listadas

Taylor disse que mudanças regulatórias em discussão nos Estados Unidos podem incentivar mais empresas privadas a dar o salto para o mercado público.

O executivo destacou que a nova administração da SEC, sob o governo Trump, tem trabalhado para reduzir cargas regulatórias que historicamente desestimulam a abertura de capital de empresas jovens ou de menor porte.

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Uma dessas mudanças seria a transição de relatórios trimestrais obrigatórios para semestrais para empresas públicas, uma medida que, segundo ele antecipou, poderia reduzir os custos de conformidade e atrair mais emissores.

O tema voltou ao debate no ano passado, defendido publicamente pelo presidente Donald Trump, e tem muitos defensores, como o investidor Warren Buffett e o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon.

“Se você é uma empresa privada que está pensando em abrir o capital e analisa as regulamentações que terá que cumprir, talvez pense duas vezes antes de atingir um determinado tamanho”, disse ele ao explicar o impacto potencial de tais ajustes.

Para o executivo, o apetite por IPOs nos Estados Unidos ainda representa uma oportunidade para investidores globais, particularmente diante da diminuição do número de empresas públicas no país nas últimas décadas.

Apesar das perturbações políticas e regulatórias que marcaram 2025, como a volatilidade causadas pelos anúncios tarifários do governo americano, o mercado de IPO nos Estados Unidos apresentou uma recuperação sólida.

Houve aumento de 27% no número de transações e de 38% nos valores captados em relação a 2024, de acordo com dados da EY.

Essa recuperação, impulsionada por setores como tecnologia (inteligência artificial), finanças, seguros e saúde, reforça a visão de Taylor sobre um ambiente cada vez mais favorável para novas emissões.

Inovação e tokenização

Tanto a EY quanto a NYSE concordam que, se as condições atuais se mantiverem, 2026 poderá marcar o início de um ciclo sustentado de aberturas de capital, com um pipeline robusto de empresas prontas para aproveitar as oportunidades.

Nesse contexto, Taylor também abordou o anúncio mais recente da NYSE, centrado em uma nova plataforma baseada em tecnologia blockchain que permitiria negociar ativos 24 horas por dia, incluindo ETFs e ações tokenizadas.

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“É mais uma resposta dos participantes do mercado e os primeiros passos para a tokenização. Queremos garantir que um token proveniente da Bolsa de Nova York tenha a mesma participação no capital social e os mesmos direitos que uma ação.”

A tokenização consiste em representar digitalmente valores como ações ou ETF em uma rede blockchain, um banco de dados compartilhado e descentralizado que também sustenta o funcionamento de ativos como criptomoedas.

Diferentemente dos mercados atuais, em que as operações são liquidadas no dia seguinte, essa infraestrutura permitiria transações em tempo real e acesso contínuo, mesmo fora do horário normal de funcionamento da bolsa.

A iniciativa, segundo explicou o executivo da NYSE, não busca competir diretamente com plataformas de ativos digitais, mas, sim, responder a uma demanda existente entre investidores institucionais. “Tudo no mundo é competitivo, mas isso é mais uma resposta ao que o mercado quer dos valores tokenizados.”

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Taylor indicou que o projeto está em fase inicial, mas que já conta com os parceiros e a tecnologia necessários para avançar. Ele citou como aliados o Citi e BNY Mellon, que colaborarão nos processos de liquidação, e detalhou que será utilizada a infraestrutura própria da NYSE.

Listagem de empresas brasileiras

A relação da América Latina com a Bolsa de Nova York continua ativa, mas não isenta de desafios. Taylor destacou que cerca de cem empresas da região estão atualmente listadas na NYSE, com uma presença crescente de novos emissores.

O Brasil, como maior economia da região, continua a desempenhar papel central e, apesar da queda na liquidez da bolsa local (B3), mantêm um volume considerado elevado de negociação em Nova York e desperta o interesse dos investidores institucionais.

O executivo citou a Agibank, fintech brasileira fundada e controlada por Marciano Testa e que conta com a Vinci Compassa e a Lumina Capital como investidores relevantes, como parte do grupo de empresas latino-americanas que devem abrir o ano com sua respectiva oferta pública inicial na Bolsa de Nova York.

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Ele também mencionou emissores históricos como Petrobras, Vale e América Móvil e novos participantes como Nubank e VTEX, no que descreveu como uma comunidade dinâmica que busca acesso a capital fora de seus mercados domésticos.

“Temos muito respeito pela B3. Eles têm uma grande bolsa de valores. A maioria das nossas empresas brasileiras está listada na B3 e na Bolsa de Nova York. Mas os mercados de valores do Brasil estão passando por dificuldades neste momento do ponto de vista da liquidez”, disse Taylor ao explicar por que muitas empresas do país continuam a optar por se listar também em Nova York.

“O volume de negociação no Brasil caiu significativamente”, acrescentou, referindo-se a uma tendência que desviou os fluxos de capital para instrumentos de renda fixa diante de taxas de juros em patamares elevados há quatro anos.

Parte do atrativo de listagem nos Estados Unidos, segundo Taylor, continua sendo o diferencial de avaliação.

“As avaliações nos EUA tendem a ser mais altas do que em outros mercados”, disse ele, referindo-se à preferência de algumas empresas de tecnologia ou em alto crescimento por estrearem diretamente no mercado americano.

Ceticismo com integração de bolsas em LatAm

Taylor expressou ceticismo sobre as propostas de consolidação na região, em um momento em que há iniciativas de integração de mercados, como as que buscam implementar as bolsas do Chile, da Colômbia e do Peru.

As três bolsas de valores pretendem se unir sob uma holding regional para aumentar a liquidez, a profundidade das negociações e a competitividade frente a mercados maiores, como o do México ou o do Brasil, com projeções de capitalização combinada que poderiam se aproximar de US$ 450 bilhões.

O executivo questionou se esse tipo de integração pode resolver os problemas fundamentais enfrentados por investidores institucionais.

“Na verdade, tudo se resume ao fato de os investidores globais se sentirem confortáveis em participar de determinados mercados em termos de eficiência das operações, liquidez do mercado, eficiência das operações e margens entre a oferta e a demanda”, afirmou Taylor, que ressaltou que esse tipo de confiança institucional não é gerado apenas com uma fusão operacional.

“Quando você precisa sair de uma posição, precisa poder fazê-lo rapidamente e sem preocupações com liquidez.”

Para o executivo, um mercado muito líquido como o dos Estados Unidos permite que os investidores institucionais reduzam o risco de suas carteiras.

“Não sei se um mercado confederado na América Latina ou na Europa conseguirá essa liquidez. A verdade é que sou um pouco cético a esse respeito.”

Mercados de previsão

Taylor também abordou a posição da NYSE em relação aos mercados de previsão e os diferenciou explicitamente do que é tradicionalmente conhecido como apostas (bets): enfatizou que se trata de mecanismos de mercado com informações derivadas da participação de agentes em eventos futuros.

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A NYSE, por meio de sua relação com a Intercontinental Exchange (ICE), assumiu posições estratégicas nesse segmento, com investimentos em plataformas como a Polymarket, que permitem observar tendências e dados que podem ser úteis para investidores institucionais sobre eventos futuros.

“Acreditamos que existe um mercado para os dados gerados por meio desses mercados de previsão.” O executivo afirmou que a NYSE se prepara para responder à demanda de consumo dessas informações.

Sobre os desafios regulatórios, Taylor disse que ainda não existe um quadro claro nos Estados Unidos e que a NYSE poderia desempenhar um papel na definição de como eles serão regulamentados à medida que os quadros legais evoluírem.

“O quadro regulatório é um trabalho em andamento e atualmente opera fora dos EUA”, afirmou.

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