Bloomberg Línea — O JPMorgan espera mais um ano de crescimento no mercado de M&As (fusões e aquisições) na América Latina, após um avanço de 34% no valor das transações na região em 2025 para US$ 130 bilhões, nas projeções do banco.
Em entrevista à Bloomberg Línea, Rafael Munoz, head de M&As para a América Latina do gigante de Wall Street, disse avaliar que o México e a Argentina devem ganhar destaque neste ano, enquanto o Brasil seguirá no radar de investidores, por ser a maior economia da região, mesmo diante das incertezas com as eleições.
Para Munoz, os valuations na América Latina continuam atraentes apesar dos ganhos nos mercados de ações no passado e “existem ativos muito valiosos que não estavam disponíveis antes”, o que tende a atrair investidores.
“A América Latina, como um todo, continua oferecendo um potencial de crescimento muito relevante se você estiver disposto a navegar por algum nível de incerteza, que hoje é global, e não apenas regional”, disse Munoz, que tem como base a cidade de Nova York e lidera o time de M&A para a região.
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Isso ocorre mesmo em um momento de incerteza mais elevada após as ações militares dos Estados Unidos à Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro.
“Por enquanto, nosso cenário-base permanece inalterado. Isso reforça a ideia de que essa é a nova realidade no mundo. Eventos inesperados vão continuar acontecendo, e isso faz parte da ‘arte’ do M&A hoje”, afirmou.
A expectativa de crescimento em 2026 na América Latina está alinhada à visão do JP Morgan para o mercado global como um todo em 2026.
Em seu relatório anual de perspectivas para M&A, divulgado nesta quinta-feira (8) e ao qual a Bloomberg Línea teve acesso, o banco espera que a atividade de fusões e aquisições continue aquecida depois de atingir em 2025 o segundo melhor resultado em duas décadas, movimentando US$ 5,1 trilhões.
Entre as razões que tendem a impulsionar os negócios estão os fundamentos considerados sólidos, uma mudança na busca por maior escala e um foco estratégico dos players de mercado, além da saída de investidores estratégicos de alguns ativos mais antigos.
É uma combinação que, segundo o banco, tem impulsionado os chamados “mega-deals” – negócios de altíssimo valor que cresceram em número e relevância no mercado de M&A no ano passado.
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No caso da América Latina, a tendência é que os mercados continuem com M&As estratégicos, com a busca de grandes empresas para ganhar escala e diversificar suas operações geograficamente, de acordo com o head do JPMorgan para M&As na região.
São negócios que, segundo ele, se forem bem estruturados, costumam ser bem recompensados por investidores no mercado. “Nossos clientes e empresas estão olhando além do curtíssimo prazo, além dos próximos dois ou três meses, e pensando em seus acionistas e no futuro de suas companhias”, disse.
Munoz disse que os valuations atraentes de empresas na América Latina representam oportunidades para investidores estrangeiros.
“Não vemos muitos catalisadores que levem a uma reprecificação exponencial da América Latina, mesmo diante de toda essa incerteza e dos ciclos políticos”, disse.
Uma tendência observada em 2025 e que deve continuar neste ano são as transações “cross border”, ou seja, entre compradores e vendedores de países de origem distintos.
Segundo Munoz, tem sido notável o interesse de companhias latino-americanos em se expandir para os Estados Unidos por meio de aquisições, mesmo diante dos preços elevados no mercado americano.
Embora ele ressalte que são poucas empresas que têm essa capacidade – em geral, líderes em seus setores –, a busca pelo mercado americano oferece vantagens, como uma proteção contra a volatilidade e a estabilidade de obter resultados em dólar.
O executivo apontou ainda que a América Latina tem observado uma tendência relativamente nova, com o aumento de investidores ativistas que buscam construir posições acionárias relevantes em empresas e influenciar suas decisões.
“É algo sobre o qual conselhos e acionistas precisarão se educar mais”, disse.
“Já vimos alguns casos públicos, e essa conversa tem se tornado cada vez mais frequente. Quando esse movimento começa, tende a ganhar velocidade rapidamente. Nosso foco é antecipar essa tendência e preparar nossos clientes para esse cenário.”
Brasil, México e Argentina no radar
Em relação ao Brasil especificamente, o executivo disse que não espera nem uma corrida nem uma postura defensiva no mercado de M&A por causa do cenário eleitoral.
A atividade de fusões e aquisições tende a continuar em linha com o que foi observado em 2025. “Nosso cenário-base é de continuidade: não será um ano excepcional, mas também não será negativo”, afirmou.
Os setores de infraestrutura, como rodovias, aeroportos, além de energia, óleo e gás, indústria e consumo, são os que devem continuar atraindo negócios de M&A no país, assim como ocorreu no ano passado, segundo ele.
“Continuamos acreditando no Brasil e em tudo o que o país tem a oferecer. Não é possível ter uma estratégia para a América Latina sem pensar no Brasil”, disse.
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O México, no entanto, é um mercado que pode surpreender, na avaliação do executivo, especialmente no momento em que o país se prepara para as negociações do acordo de livre comércio com os Estados Unidos neste ano, o USMCA ou T-MEC, que substituiu o Nafta em 2016.
“Há um otimismo geral de que uma renovação e eventual ampliação do acordo comercial será benéfica para ambos os países. Os investidores já estão tentando antecipar isso e começamos a ver alguns sinais nesse sentido”, disse Munoz.
Além do México, a Argentina é outro país da região que o JP Morgan está otimista. De acordo com Munoz, o resultado favorável ao governo de Javier Milei nas eleições legislativas de 2025 e a recuperação econômica têm feito os investidores se sentirem “cada vez mais confortáveis para fazer apostas maiores”.
Em um primeiro momento, o executivo espera que as fusões e aquisições sejam puxadas por compradores e vendedores domésticos, mas ele disse que o interesse de estrangeiros também têm aumentado.
“Acreditamos que os investidores estrangeiros devem voltar à Argentina. E não apenas nos setores mais fáceis de investir, como petróleo e gás ou setores exportadores dolarizados, mas também na economia real”, afirmou.
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