Opinión - Bloomberg

Sob ‘Doutrina Donroe’, EUA consolidam império com força sobre 40% do petróleo global

Acesso às reservas da Venezuela representará o controle sobre parte relevante do mercado global de energia e reduzirá a dependência de países produtores como Arábia Saudita, Irã e Rússia, além de poder sobre os preços do petróleo

A influência dos Estados Unidos sobre a riqueza petrolífera no Hemisfério Ocidental é uma mudança importante na geopolítica
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — Vamos fazer as contas. Comece com a produção de petróleo dos Estados Unidos e acrescente o Canadá. Em seguida, inclua a Venezuela e o resto da América Latina – do México à Argentina e todos os outros países, entre eles, Brasil, Guiana, Colômbia.

Gostando ou não, todos eles vivem sob a “Doutrina Donroe” (trocadilho com “Doutrina Monroe” e o nome de Donald Trump) — uma esfera de influência cada vez mais beligerante de Washington sobre as Américas. Juntos, eles respondem por quase 40% da produção mundial de petróleo.

Portanto, é uma questão de linguagem para descrever o que o governo dos EUA fará com todos esses barris. Ele pode tentar exercer controle direto, como na Venezuela, ou supervisionar, influenciar e simplesmente aproveitar os benefícios do que é produzido. Seja qual for a palavra, o presidente Donald Trump agora tem seu próprio império do petróleo.

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E estou falando de barris reais que já estão fluindo para o mercado, não de reservas subterrâneas que levariam tempo e dinheiro para serem desenvolvidas. Os países sob a “Doutrina Donroe” detêm cerca de 20% das reservas mundiais de petróleo, com a maior parte desse percentual na Venezuela e no Canadá.

Com esses recursos, Trump dispõe de uma alavanca econômica e geopolítica que nenhum presidente dos EUA teve desde Franklin D. Roosevelt na década de 1940. Em casa e nas proximidades, seu país pode explorar um vasto mar de petróleo.

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As implicações de obter acesso irrestrito às reservas da Venezuela, as maiores do mundo, ficaram imediatamente evidentes para qualquer pessoa no setor de energia e commodities, especialmente para os adversários americanos.

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Oleg Deripaska, um oligarca russo sancionado pelos EUA, resumiu bem a situação no sábado (3): Washington teria os meios para manter o preço do petróleo próximo a US$ 50 por barril — o que lhe daria uma vantagem no futuro contra qualquer um que ameaçasse elevar o preço restringindo o fornecimento.

O enviado do Kremlin, Kirill Dmitriev, disse que tomar o poder na Venezuela oferecia “enorme influência” sobre o mercado global de energia.

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Ter o controle efetivo da riqueza petrolífera do Hemisfério Ocidental é uma virada no jogo geopolítico. Durante décadas, o aventurismo militar dos EUA foi restringido pelo impacto de qualquer guerra sobre os custos da energia.

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Hoje, a Casa Branca tem primazia sobre aliados e adversários produtores de petróleo — seja a Arábia Saudita ou o Irã, a Nigéria ou a Rússia.

Os últimos 18 meses já mostraram o que essas novas riquezas de hidrocarbonetos significam para a política externa dos EUA.

O governo Trump tomou medidas antes impensáveis: desde bombardear instalações nucleares iranianas até ajudar a Ucrânia a atacar refinarias de petróleo russas.

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Capturar Nicolás Maduro em seu esconderijo nos arredores de Caracas foi o exemplo mais chocante até agora do que acontece quando o petróleo não restringe mais o Pentágono.

E aproveitar o petróleo da Venezuela dá aos EUA outra vantagem: a capacidade de recusar ofertas de acesso às riquezas petrolíferas.

Durante meses, o Kremlin usou suas próprias reservas como isca nas negociações com a Casa Branca. Agora, Trump pode dizer a Vladimir Putin que não precisa dos campos siberianos. Ele tem mais do que o suficiente.

Não dê todo o crédito a Trump, nem mesmo a maior parte dele. Ele está no poder no momento certo. O petróleo americano estaria em alta mesmo sem ele, graças às riquezas do xisto dos EUA, ao petróleo pesado do Canadá e às descobertas de reservas em lugares como Brasil e Guiana. Os ex-presidentes Joe Biden e Barack Obama também se beneficiaram.

O que Trump fez foi colocar todo esse petróleo sob a proteção de Washington. Mais de 200 anos depois que o presidente americano James Monroe declarou a América Latina uma esfera de influência da Casa Branca, criando a Doutrina Monroe, Trump está atualizando-a para o século XXI, daí o rótulo meio brincalhão de “Donroe”. Desta vez, grande parte disso tem a ver com recursos naturais.

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Para a nova política externa dos EUA, todas as nações ricas em petróleo da América Latina são importantes, mas o prêmio da Venezuela é enorme.

Isso não se deve à sua produção atual: com cerca de 1 milhão de barris por dia, ela bombeia significativamente menos do que o Brasil. É por causa do que ela já produziu — mais de 3,7 milhões de barris por dia em seu pico em 1970 — e poderia bombear novamente.

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A geologia está lá. Tudo o que é necessário para desbloquear a riqueza petrolífera do país é capital, tempo e esforço. Em determinado momento da década de 1990, Caracas tinha um plano para aumentar a produção primeiro para 5 milhões de barris por dia e depois para 6,5 milhões.

A chegada de Hugo Chávez, seguida por Maduro, pôs fim a isso. A Venezuela pode voltar a atingir esses níveis? Claro. Será que eles serão alcançados em breve? Definitivamente não. Será que isso pode ser alcançado nos próximos cinco anos? Também improvável.

Mas o mundo não precisa do petróleo venezuelano extra hoje, nem no próximo ano, nem mesmo em 2027 e 2028. Ele seria necessário no início da década de 2030. E, até lá, se Trump estiver certo ao afirmar que Caracas entrará no jogo, a produção de petróleo venezuelana poderá ser muito maior.

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De muitas maneiras, a ordem pós-Maduro que Trump parece estar buscando — permitir que a ex-número dois do regime, Delcy Rodríguez, assuma o poder por enquanto em uma ditadura branda, ou dictablanda — funciona bem para as empresas petrolíferas americanas.

Ela já estabilizou a economia de seu país aplicando algumas medidas ortodoxas de mercado. Por enquanto, ignore seus protestos contra o ataque americano. Grande parte disso é para o público interno.

Claramente, Trump tem grandes expectativas em relação a ela.

“Vamos fazer com que nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos — as maiores do mundo — entrem, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura gravemente danificada — a infraestrutura petrolífera — e comecem a gerar receita para o país”, disse Trump em uma entrevista coletiva de imprensa no sábado.

Horas antes, em uma entrevista à Fox News, ele disse que os EUA iriam se envolver “muito fortemente” na indústria petrolífera venezuelana.

Ao longo dos anos, aprendemos a tratar as declarações de Trump com cautela. Mas, em seu segundo mandato, ele fez muito do que ameaçou fazer. Se ele diz que os EUA vão se envolver no petróleo venezuelano, acredite nele. Talvez o empreendimento não seja tão grandioso ou lucrativo quanto ele declara. Isso não significa que não vai acontecer.

O petróleo do país agora faz parte de um império petrolífero que se estende do Alasca à Patagônia — tudo sob a tutela de Washington.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Javier Blas é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre energia e commodities. Anteriormente, ele foi editor de commodities do Financial Times e é coautor de “The World for Sale: Money, Power, and the Traders Who Barter the Earth’s Resources”.

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