Bloomberg — Marc Rowan está em uma missão para redefinir o crédito privado. O futuro da empresa que ele lidera, a Apollo Global Management, pode depender de seu sucesso — ou de seu fracasso.
O CEO de uma das maiores gestoras de ativos privados do mundo partiu recentemente para o ataque, munido de uma avalanche de slides.
Rowan está preocupado com o fato de que a Apollo e seu negócio de aposentadoria, a Athene, estejam sendo contaminados pelos problemas que estão se formando naquilo que empresas de dados e a mídia definem como o mercado de crédito privado.
O foco das preocupações com o crescimento acelerado e o aumento dos riscos de inadimplência — e dos alertas feitos por banqueiros, incluindo o CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon — tem recaído sobre os empréstimos privados mais arriscados, que frequentemente financiam aquisições alavancadas.
A Athene, em contraste, tem 97% de seu portfólio de dívida de US$ 360 bilhões aplicado em empréstimos e títulos mais seguros, com grau de investimento.
“Estamos nos estágios iniciais de uma enorme expansão no universo do crédito privado com grau de investimento, mas a mídia frequentemente caracteriza tudo isso como crédito alavancado”, disse Rowan.
“Nosso negócio é predominantemente de grau de investimento e terá o dobro do tamanho atual até o fim da década.”
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A diferença é relevante.
A Apollo surfou o boom dos mercados privados na última década para alcançar US$ 908 bilhões em ativos e se tornar uma financiadora cada vez mais significativa da economia dos Estados Unidos, ao lado de uma série de rivais e imitadores.
Bancos, investidores, reguladores e políticos estão — ou deveriam estar — observando atentamente os riscos e os benefícios emergentes do modelo que Rowan construiu.
Ele precisa transmitir sua mensagem sobre a versão de crédito privado da Athene a todos esses observadores e a uma mídia que ele já chamou de confusa e histérica, mas, acima de tudo, aos exércitos de detentores de anuidades de pessoas físicas, cujo grau de confiança sustenta seu negócio.
“Ele quer convencer as pessoas de que é seguro, não arriscado, e de que não vai causar a próxima crise financeira”, afirma Bill Cohan, autor e ex-banqueiro que conhece Rowan há cerca de 35 anos e tem um livro sobre a Apollo previsto para o ano de 2026. Manter a confiança dos detentores individuais de anuidades é crucial, disse Cohan.
Rowan nunca imaginou que acabaria comandando um credor tão importante quando ajudou a tirar a Athene do papel, em 2009, segundo pessoas que o conhecem.
Rowan foi cofundador da Apollo quase duas décadas antes disso, como uma empresa puramente de private equity, ao lado de Leon Black e Josh Harris.
Os três se conheceram como banqueiros especializados em operações financeiras no Drexel Burnham Lambert, mas ficaram sem trabalho quando a instituição quebrou, em 1990.
As origens da Athene
A ideia da Athene era comprar seguradoras de vida antigas que haviam deixado de emitir novas apólices e investir seus recursos para obter os melhores retornos possíveis dentro do risco que um segurador podia assumir, segundo os limites impostos por reguladores e agências de rating.
Esse plano evoluiu para algo maior em 2013, quando a Athene adquiriu a operação nos Estados Unidos da seguradora britânica Aviva, porque essa unidade ainda vendia novas anuidades.
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Rowan percebeu que a Athene poderia continuar vendendo mais produtos de aposentadoria e que a Apollo poderia começar a originar mais de seus próprios empréstimos para a Athene e também para outras seguradoras e fundos — gerando mais receitas e taxas para ambos os negócios.
Pouco depois do negócio com a Aviva, a Apollo comprou a MidCap Financial, uma financiadora comercial voltada para empresas menores.
Foi a primeira das plataformas de originação de crédito da Apollo: hoje são 16, financiando desde frotas de veículos e motores de aeronaves até infraestrutura e hipotecas.
O grupo emitiu cerca de US$ 190 bilhões em novo crédito nos últimos 12 meses — o equivalente a quase 30% do crescimento dos empréstimos e arrendamentos de todos os bancos dos Estados Unidos, segundo dados do Federal Reserve.
A Athene se tornou uma das maiores empresas de aposentadoria dos Estados Unidos, com cerca de US$ 430 bilhões em ativos, enquanto a Apollo se transformou em uma grande gestora de investimentos em private equity, crédito, imóveis e infraestrutura, com mais de US$ 900 bilhões sob gestão, incluindo a Athene.
A Apollo também atua como um banco de investimento, estruturando e vendendo grande parte da dívida criada em suas plataformas para outros investidores; além disso, ajuda a financiar grandes aquisições, como a oferta hostil da Paramount Skydance pela Warner Bros. Discovery.
Rowan impulsionou grande parte desse crescimento, especialmente na Athene, e tornou-se CEO da Apollo em 2021, retornando após um período sabático quando Black deixou o cargo em meio a controvérsias envolvendo seus vínculos financeiros com Jeffrey Epstein.
Rowan é frequentemente chamado de visionário por pessoas que trabalharam com ele, e sua carreira lhe trouxe riquezas extraordinárias: seu patrimônio pessoal de US$ 11 bilhões é maior do que o do presidente Donald Trump e o do CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, somados, segundo o o Bloomberg Billionaires Index.
“Ele é uma das pessoas mais brilhantes de Wall Street”, disse Cohan. “Ele teve essa visão de tentar resolver o problema clássico do sistema bancário, que é financiar empréstimos de longo prazo com depósitos de curto prazo.”
O que Rowan construiu é uma espécie de banco — embora a Apollo rejeite esse rótulo. Diferentemente de um banco tradicional, ele não depende de depósitos de curto prazo e não oferece os serviços de pagamento que são essenciais para o funcionamento de uma economia.
Eu o vejo como uma espécie de “banco estreito” (narrow bank), um tipo de credor que esteve muito em voga entre acadêmicos e economistas após a crise financeira de 2008.
A ideia é que os investidores concordem em manter seu dinheiro aplicado por períodos mais longos, de modo a combinar melhor com o prazo de vencimento dos empréstimos concedidos por esse tipo de instituição.
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O modelo foi concebido para ser mais estável, porque seu financiamento não pode ser retirado rapidamente e, portanto, não deveria haver necessidade de exigir o pagamento antecipado dos empréstimos nem de vendê-los às pressas. Pânicos desse tipo estão no cerne de toda crise de crédito.
A Athene emite vários tipos de passivos de longo prazo que foram pensados para acompanhar a duração de seus empréstimos.
As anuidades individuais, por exemplo, prometem pagar um rendimento mínimo e, em geral, têm um período de 10 anos durante o qual os investidores não podem exigir a devolução de seu dinheiro sem pagar uma penalidade de resgate.
A Athene também utiliza um tipo de financiamento semelhante a títulos, chamado Funding Agreement Backed Notes, que têm, por exemplo, prazo de cinco anos, oferecem rendimento garantido e não podem ser resgatados antecipadamente pelo investidor.
No total, 37% de seus passivos não podem ser retirados antecipadamente de forma alguma, e outros 52% só podem ser resgatados mediante o pagamento de uma penalidade pelo titular da anuidade.
E, se a empresa continuar originando bons empréstimos, o dinheiro que ela ganha deve cobrir com folga o que paga sobre seus passivos. A Apollo chama isso de ganhos relacionados ao spread, algo semelhante à receita líquida de juros em um banco.
“O que fazemos de diferente em relação ao crédito bancário é que temos passivos de longo prazo e precisamos de ativos de longo prazo para combiná-los”, disse Rowan.
Questões relevantes
Uma das batalhas de Rowan nos próximos anos é convencer os reguladores de que um banco estreito não deveria ser regulado como um banco tradicional — e, em muitos aspectos, ele está certo, como acabo de descrever.
No entanto, isso não significa que a Athene e outras empresas imitadoras não representem riscos à estabilidade — e, quanto mais relevantes elas se tornarem na concessão de crédito a pessoas físicas e jurídicas, maior deve ser o interesse dos órgãos de supervisão financeira na forma como a Athene e seus pares são administrados.
A primeira questão é se reguladores, investidores e clientes compreendem o lado dos ativos do negócio.
A Athene é grande, complexa e cresce rapidamente. A maior parte de seus ativos é privada, mas a empresa divulga enormes volumes de informações a respeito deles: seus relatórios estatutários trimestrais ao regulador de seguros do estado de Iowa, por exemplo, somam milhares de páginas de tabelas contendo todos os seus títulos, empréstimos, hipotecas e instrumentos mais exóticos.
Esses anexos incluem a participação da Athene em diversos fundos da Apollo, as estruturas de warehouse que ela opera e ativos estruturados, como sua securitização Fox Hedge de prazo ultralongo, sobre a qual a Bloomberg News e eu escrevemos no início deste ano. Ter os nomes dessas estruturas em um relatório não ajuda necessariamente ninguém a compreender do que se trata.
Embora seja verdade que os grandes bancos divulguem muito menos detalhes sobre o que mantêm em seus balanços, como os funcionários da Apollo costumam argumentar, essas instituições também estão sujeitas a uma supervisão muito mais intrusiva, enquanto o seguro de depósitos contorna o problema da falta de informação dos clientes comuns.
Executivos e fiscais do setor bancário não estão convencidos de que muitos reguladores de seguros tenham sofisticação técnica ou recursos suficientes para supervisionar carteiras de crédito cada vez mais diversas em uma empresa como a Athene.
Em resposta, representantes do setor de seguros afirmam que crises centradas em bancos são comuns há séculos, e que o setor bancário deveria se preocupar primeiro consigo mesmo. Isso pode ser verdade, mas os Estados Unidos ainda registram muito mais falências de seguradoras do que qualquer outro país do mundo.
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O segundo ponto fraco que o Fed e outros bancos centrais precisam compreender plenamente é o risco de que indivíduos entrem em pânico e resgatem suas anuidades apesar dos custos envolvidos — basta que temam algo pior.
Uma corrida contra uma grande seguradora de vida é extremamente rara, mas pode acontecer.
Na década de 1930, os Estados Unidos tiveram vários “feriados de seguros”, ao lado dos mais conhecidos feriados bancários, enquanto o país tentava evitar o colapso financeiro. Na Itália, uma seguradora controlada por private equity quebrou em 2023 após uma onda de resgates.
A Athene enfrenta esse risco com um histórico detalhado e projeções de resgates em seus livros. Esses fluxos podem aumentar ou diminuir em função, por exemplo, das taxas de juros, mas a experiência da Athene com saídas de recursos permaneceu dentro de uma faixa estreita, de 7% a 15% dos ativos líquidos por ano. Isso é tranquilizador.
O problema, como sempre, é que as pessoas são propensas a ações irracionais e autodestrutivas durante uma grande crise.
Rowan quer que o mundo passe a enxergar o “crédito privado” como um universo de dívida de alta qualidade, seja ela criada por bancos ou por fundos, com apenas uma pequena fatia de empréstimos arriscados para aquisições alavancadas ao seu lado.
Ele precisa que essa mensagem seja ouvida para que a Athene não seja colocada no mesmo saco sempre que alguma empresa excessivamente endividada, financiada de forma privada, quebre — e para que os detentores de anuidades da empresa estejam mais bem informados sobre os riscos que enfrentam caso outros fundos de crédito privado entrem em colapso na próxima desaceleração econômica.
Neste ano que começa e nos seguintes, Rowan continuará martelando sobre esses pontos.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Paul J. Davies é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre bancos e finanças. Já trabalhou para o Wall Street Journal e o Financial Times.
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