Como a aposta da Huawei e da Xiaomi em carros elétricos pode ajudar a Apple

Apple planeja lançar carro elétrico em cinco anos e é provável que aprenda mais com suas concorrentes de smartphones do que com as montadoras

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Bloomberg Opinion — Duas das maiores fabricantes de smartphones da China se juntaram à BYD e à Tesla (TSLA) no cada vez mais concorrido mercado chinês de veículos elétricos. Seu sucesso ou fracasso pode servir de guia para a Apple (AAPL), quando ela decidir entrar na corrida.

A Huawei recebeu pedidos de 80.000 unidades de seu primeiro SUV Aito M7 nos primeiros 50 dias após seu lançamento em setembro, com o lançamento do cupê de luxo Avatr 12 e do sedã Luxeed S7 na sequência aumentando o impulso. Este é um início sólido, mas ainda fica atrás dos mais de 300.000 veículos elétricos que a BYD vendeu em outubro, 90% deles na China, colocando a empresa lado a lado com a Tesla.

A Xiaomi desenvolveu um sistema operacional para carros e disse esta semana que espera fazer sua estreia em veículos elétricos no primeiro semestre do ano que vem, depois de obter recentemente a aprovação preliminar das autoridades chinesas para a inspeção técnica.

As duas marcas de celulares são muito diferentes de suas rivais montadoras de veículos elétricos. Ambas oferecem uma ampla gama de produtos, de roteadores WiFi a produtos de linha branca, e terceirizam grande parte da fabricação para empresas como a Foxconn Technology Group.

Elas também são grandes na criação de plataformas e ecossistemas – um catálogo de software para conectar dispositivos de forma transparente a fim de compartilhar arquivos e interagir uns com os outros. A BYD e a Tesla, em geral, oferecem carros autônomos, e não muito mais, e fazem a maior parte da produção internamente.

Portanto, em vez de aprender com as montadoras, é mais provável que a Apple aprenda com suas concorrentes chinesas da área de smartphones. A noção de um iCar não é totalmente fantasiosa – em 2021, a Hyundai confirmou de forma imprudente os rumores de que estava trabalhando com a fabricante do iPhone em um veículo, antes de voltar atrás na declaração. A Apple espera levar pelo menos meia década para lançar um veículo elétrico autônomo, segundo informou a Bloomberg News.

A Huawei já afirmou que quer ser menos uma montadora e agir mais como uma desenvolvedora e fornecedora de tecnologias automotivas especializadas, como sistemas operacionais, software e recursos de direção assistida. Para isso, está trabalhando com pelo menos cinco montadoras chinesas.

A abordagem da Xiaomi pode ser um pouco diferente. Muitos dos produtos que levam seu nome são, na verdade, desenvolvidos e montados por outras empresas, com a empresa sediada em Shenzhen adicionando seu logotipo e garantindo que esses dispositivos possam interagir com outros membros da família Xiaomi. Devemos esperar que seus carros, inicialmente construídos pela BAIC Motor sigam a mesma estratégia.

Ao avaliar as novas ofertas, os consumidores e parceiros vão se perguntar o que exatamente essas empresas trazem de novo. A BYD e a Tesla têm anos de experiência no desenvolvimento e na produção de veículos, enquanto a Huawei e a Xiaomi vendem modelos reeditados de montadoras tradicionais.

A resposta está no fato de os motoristas verem ou não os carros como um produto antigo que requer uma longa história e um patrimônio profundo em segurança e integridade estrutural. Enquanto a sueca Volvo construiu um nome produzindo comerciais de TV com bonecos de teste de colisão, os consumidores modernos estão muito mais interessados em uma tela grande no painel, carregamento de telefone sem fio e conectividade. Segurança já é algo esperado graças a regulamentações rigorosas.

Na era dos veículos elétricos, o alcance e a confiabilidade são fatores muito mais importantes. Os veículos elétricos são tecnicamente mais parecidos com um enorme laptop sobre rodas do que com uma pequena estação de energia movida a combustível. É por isso que a Huawei e a Xiaomi podem se sentir confiantes de que têm uma chance.

Mas seu sucesso não é garantido. As montadoras, desde a Tesla até a Toyota, estão extremamente focadas no desenvolvimento de software e conectividade, cientes de que a eletrônica automotiva é um ponto de venda importante, enquanto Elon Musk falou sobre o recurso Smart Summons de seus veículos, que os leva até o usuário. No entanto, os prazos não cumpridos – incluindo a implementação da direção totalmente autônoma e a troca de baterias – prejudicam a reputação da Tesla.

Essas são armadilhas que a Huawei e a Xiaomi precisarão evitar, especialmente porque o destino de seus veículos elétricos está em grande parte nas mãos de fabricantes de automóveis terceirizados. Se elas conseguirem, a Apple certamente se sentirá encorajada a tentar. E se falharem, a experiência da Apple no gerenciamento de cadeias de suprimentos e nas relações com fabricantes contratados dará ao CEO Tim Cook a confiança necessária para acreditar que ele pode fazer muito melhor.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Tim Culpan é colunista da Bloomberg Opinion e cobre tecnologia na Ásia. Anteriormente cobriu tecnologia para a Bloomberg News.

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