Como a McKinsey e o mercado de consultoria de US$ 860 bi entraram em rara crise

Depois de anos de rápida expansão e uma série de casos de conflito de interesse, indústria bilionária de consultoria corta orçamentos e milhares de empregos

McKinsey
Por Ambereen Choudhury, Amy Bainbridge e Irina Anghel
25 de Novembro, 2023 | 07:30 AM

Bloomberg — Foi uma festa de glamour quando os sócios sêniores da McKinsey desembarcaram em Seul no mês passado para a festa da prestigiada empresa.

O prefeito Oh Se-hoon deu as boas-vindas aos convidados na capital sul-coreana em um breve vídeo. Andy Jassy, CEO da Amazon (AMZN), apareceu sorridente, e o astro pop sul-coreano Psy, famoso pelo hit viral “Gangnam Style”, se apresentou ao vivo. Dominic Barton, presidente da Rio Tinto e ex-managing partner global da McKinsey, e Jay Chang, CEO da Hyundai, também estavam presentes.

“Eu amo que nós somos uma fábrica de CEOs”, entusiasmou-se Bob Sternfels, managing partner global, em um discurso aos sócios sêniores em Seul na mesma semana. Ele então citou Jamie Dimon, CEO do JPMorgan (JPM): “A McKinsey é a empresa que resolve os problemas mais difíceis do mundo”.

No entanto, longe das celebrações, anos de rápida expansão e uma série de custosos escândalos fizeram a indústria de consultoria estimada em US$ 860 bilhões cortar orçamentos e milhares de empregos.

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A McKinsey espera que seus cortes protejam a remuneração dos sócios, como noticiou anteriormente a Bloomberg News, e alguns funcionários de cargos mais baixos de empresas no mundo todo estão ficando descontentes.

A indústria pagou centenas de milhões de dólares em multas e acordos, e as reinvidicações por um aumento da supervisão estão crescendo. Riscos de reputação e incertezas econômicas globais estão levando algumas empresas e departamentos governamentais a repensarem sua dependência do setor.

E novos escândalos continuam surgindo.

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Revelações recentes de que a filial australiana da PwC vazou planos fiscais confidenciais do governo para clientes, incluindo o Google (GOOGL), alimentam preocupações antigas sobre conflitos de interesse. Neste mês, a Ernst & Young (EY) disse que fará mudanças em seus negócios nos Estados Unidos depois que reguladores encontraram repetidas falhas em suas auditorias.

“Há muitos problemas acontecendo hoje”, disse Sternfels, da McKinsey, sobre o ambiente econômico, em comentários aos sócios sêniores. As observações, obtidas pela Bloomberg News, foram disponibilizadas para todos os funcionários da empresa após o evento.

“Isso significa que os executivos estão se questionando”, disse Sternfels. “E, quando olho ao redor, vejo os melhores conselheiros do mundo.”

O evento da firma à portas fechadas no Dongdaemun Design Plaza foi secreto, disseram pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram anonimato pois os detalhes são privados.

A viagem dos sócios sêniores à Coreia do Sul causou ressentimento entre alguns funcionários em um momento em que os clientes de consultorias estão reduzindo os gastos, disseram algumas das fontes.

“Nossos sócios sêniores se encontram pessoalmente a cada 18 meses para discutir a estratégia da empresa”, disse DJ Carella, porta-voz da McKinsey.

“Assim como aconselhamos nossos clientes, acreditamos fortemente que essas reuniões presenciais de nossa liderança sênior são essenciais para definir nossa estratégia, desempenho e cultura.”

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Sternfels espera liderar a empresa por um segundo mandato quando o processo de seleção começar no início de 2024, de acordo com uma pessoa a par da situação, que preferiu não ser identificada discutindo assuntos privados.

O alto escalão de executivos externos que participaram do evento da empresa ou se recusou a comentar ou não respondeu a pedidos. O governo da cidade de Seul recusou-se a comentar.

Escândalos e demissões

Na última década, oferecer consultoria para todos, desde o Pentágono dos Estados Unidos até o Ping An Insurance (Group) da China, provou ser um trabalho altamente lucrativo e pouco regulamentado.

Liderada por McKinsey, Boston Consulting e Bain, a indústria de consultoria prosperou: a receita deve crescer 8% neste ano para quase US$ 94 bilhões apenas nos EUA, de acordo com as estimativas da empresa de pesquisa Source Global Research. A receita anual da McKinsey deve crescer na faixa de um dígito alto para cerca de US$ 16 bilhões em 2023.

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As quatro maiores empresas de auditoria – PwC, EY, Deloitte e KPMG –, conhecidas como “Big Four”, também lucraram com o trabalho de consultoria.

Os serviços de consultoria da PwC registraram receitas de US$ 22,6 bilhões no ano encerrado em 30 de junho, enquanto os trabalhos relacionados à área tributária renderam cerca da metade desse valor.

A pandemia impulsionou a demanda, já que as empresas correram em busca de orientação sobre questões como trabalho remoto e interrupção da cadeia de suprimentos.

Como resultado, a contratação explodiu. A equipe da McKinsey aumentou para 45.000 funcionários, ante 28.000 há cinco anos.

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As empresas dominantes “certamente contrataram em excesso em 2021 e no início de 2022, impulsionadas por uma demanda excepcionalmente alta por serviços de consultoria”, disse Fiona Czerniawska, CEO da Source Global Research.

A McKinsey, que não abre muitos aspectos de sua operação, tem cerca de 750 sócios sêniores, um número que também aumentou nos últimos anos, disseram pessoas familiarizadas. A companhia possui 3.000 sócios no total.

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Mas, à medida que o impulso da covid-19 diminuiu, as demissões na indústria se intensificaram. PwC e EY estão entre as grandes empresas que estão coletivamente eliminando milhares de funcionários.

Até a McKinsey embarcou em uma rara rodada de demissões no início deste ano, com planos de cortar cerca de 1.400 cargos, principalmente entre funcionários de back office e middle-office.

“Continuamos recrutando de maneira robusta e as taxas de rotatividade estão perto de mínimas históricas”, disse Carella, da McKinsey, acrescentando que a empresa recebeu mais de um milhão de candidaturas de emprego neste ano.

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Alguns funcionários da McKinsey veem os cortes como uma maneira de proteger a remuneração das fileiras de elite, de acordo com atuais e ex-colaboradores que falaram com a Bloomberg News.

A empresa não divulga os níveis de remuneração, mas um seleto grupo de sócios sêniores de empresas de consultoria como a McKinsey pode receber cerca de US$ 6 milhões por ano, estimaram algumas pessoas. Na extremidade inferior da faixa, a remuneração é de cerca de US$ 1 milhão a US$ 1,5 milhão, disse uma pessoa a par da situação.

Algumas outras empresas do ramo, contudo, devem reduzir os salários de seus funcionários. No Reino Unido, alguns sócios da PwC verão sua remuneração cair abaixo de 1 milhão de libras (US$ 1,27 milhão) neste ano, após uma queda no lucro.

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Enquanto isso, sócios da EY no Reino Unido viram sua parcela de lucros cair pela primeira vez em três anos. Os executivos embolsaram uma média de 761.000 de libras no ano passado, em comparação com 803.000 de libras no ano anterior. A empresa também reduziu seu aumento salarial e fundo de bônus em pouco menos de um terço, para 155 milhões de libras.

‘Mentalidade do Velho Oeste’

O setor de consultoria e auditoria tem sido criticado há muito tempo. Reclamações sobre inflação de contas e taxas exorbitantes cobradas por funcionários juniores remontam a décadas. Mas uma sucessão de falhas éticas mudou o tom da discussão.

Agora, ativistas estão pedindo mais regulamentação e transparência, e alguns sugerem que empresas que oferecem serviços de auditoria e contabilidade junto com consultoria deveriam ser desmembradas totalmente.

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Uma investigação criminal está em andamento sobre o vazamento pela PwC Austrália de planos fiscais confidenciais do governo. A empresa de contabilidade, que se comprometeu a reforçar a governança corporativa e a gestão de riscos, recusou-se a ser entrevistada para esta reportagem e encaminhou à Bloomberg News declarações já feitas em seu site.

“Tornou-se um caso de teste global”, disse Allan Fels, ex-presidente da Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores, em uma entrevista. “Precisa haver um conjunto de requisitos de divulgação para resolver conflitos de interesse e outras questões éticas.”

Os legisladores australianos anunciaram planos para fortalecer o poder dos reguladores e aumentar as multas para consultores e empresas que “promovem esquemas de exploração fiscal” para mais de 780 milhões de dólares australianos (US$ 511,2 milhões), de 7,8 milhões de dólares australianos.

“A PwC abriu a porta para o vestiário dos grandes”, disse a senadora australiana Deborah O’Neill, que desempenhou um papel fundamental em uma investigação parlamentar sobre o comportamento da companhia. “O que temos aqui é uma revelação colorida de práticas tão flagrantes que extrapolam as linhas da contenção usual.”

Enquanto isso, os negócios da EY na Alemanha foram atingidos com uma proibição de dois anos para aceitar grandes novos mandatos de auditoria, após ter deixado passar as fraudes na Wirecard.

E reguladores nos EUA descobriram falhas em quase metade das auditorias da EY em 2022 examinadas em uma série de verificações pontuais — uma considerável deterioração em relação ao ano anterior. Em comunicado por e-mail, a empresa disse que leva esses resultados a sério e está trabalhando para “aumentar a qualidade da auditoria”.

A McKinsey pagou cerca de US$ 640 milhões para resolver processos em andamento relacionados ao aconselhamento à Purdue Pharma sobre as vendas de opioides — trabalho realizado enquanto consultava simultaneamente o FDA (Food and Drug Administration) dos EUA.

A filial sul-africana da McKinsey foi envolvida em um escândalo de corrupção governamental, e a empresa enfrentou críticas severas por ser lenta demais para cortar laços com a Rússia após a invasão da Ucrânia.

O porta-voz Carella disse que a McKinsey foi reconhecida como uma das primeiras empresas do setor a sair da Rússia.

Bob Sternfels, da McKinsey & Companydfd

Alguns desses escândalos reacenderam o debate sobre um modelo de negócios que depende de sócios que adquirem expertise ao trabalhar com um cliente e aplicam essas descobertas no próximo. Outros destacam como a supervisão é limitada em uma indústria que emprega 6 milhões de pessoas em todo o mundo.

“Na maior parte, com a consultoria, não há certificações nem licenças — é meio que uma mentalidade do Velho Oeste”, disse Tom Rodenhauser, sócio da Kennedy Research Reports, que rastreia empresas de consultoria. “A única vez que eles se metem em encrenca é quando são pegos.”

A auditoria é regulamentada na maioria dos principais mercados. Nos EUA, as “Big Four” não podem fornecer serviços de auditoria e consultoria para o mesmo cliente, e as empresas devem atender aos padrões de auditoria.

Mas a maioria das consultorias não é listada em bolsa e não possui licenças bancárias ou de gestão de recursos. A supervisão da consultoria é em grande parte fornecida por organizações terceiras, não por agências governamentais.

O modelo de sociedade também pode dificultar a tomada de decisões sobre clientes arriscados ou a imposição de controles, afirmam funcionários atuais e antigos das empresas.

Em abril, a EY teve que abandonar uma proposta de separação - spin off - de seus serviços de auditoria e consultoria após não conseguir a aprovação de mais de 13.000 sócios em votações ao redor do mundo.

Consequências no mundo real

No mês em que o retiro da McKinsey ocorreu em Seul, a Associação de Consultorias do Reino Unido realizou uma de suas maiores premiações do setor, com categorias como Melhor Uso de Liderança de Pensamento e Consultor Líder de Equipe do Ano.

Mais de 1.100 convidados com roupa de gala se reuniram no JW Marriott Grosvenor House London, um hotel histórico com vista para o Hyde Park. O evento - descrito por seu apresentador como os Jogos Olímpicos das consultorias - foi um upgrade em relação à cerimônia anterior, de acordo com um dos participantes.

“Às vezes há um pouco de mistério sobre o que é a consultoria e o que ela entrega”, disse Tamzen Isacsson, CEO da MCA, em entrevista. Os prêmios são uma “magnífica e transparente plataforma” para mostrar o trabalho do setor, acrescentou.

Mesmo diante de fortes ventos políticos e econômicos, os serviços de consultoria continuam populares entre as instituições que buscam cortar custos e reformular suas operações.

“Os clientes depositam muita confiança nas empresas para fazerem a coisa certa”, disse Rodenhauser, da Kennedy Research. “Na maioria das vezes, funciona.”

E ainda há alguns pontos positivos para a indústria, como o projeto da cidade Neom, na Arábia Saudita, de US$ 500 bilhões. Mas a China - um mercado-chave destinado ao crescimento da indústria - decepcionou, devido a uma repressão direcionada que se uniu aos problemas econômicos do país.

O aumento da inteligência artificial também está desviando alguns orçamentos para consultorias especializadas, embora unidades focadas em IA, como a QuantumBlack, da McKinsey, também estejam crescendo rapidamente.

Há ainda a preocupação de que a IA em breve poderá fazer “o que legiões de consultores juniores fizeram anteriormente”, disse Nick Lovegrove, professor da McDonough School of Business da Universidade de Georgetown e ex-sócio sênior da McKinsey.

A PwC já implementa um sistema alimentado pela OpenAI que visa oferecer conselhos gerados por IA.

Além de tudo isso, violações éticas podem ter consequências no mundo real.

O braço de consultoria da PwC para o governo australiano - parte de um negócio local que gera receitas de 3 bilhões de dólares australianos por ano — foi vendido em julho por apenas 1 dólar australiano. O governo australiano também reduziu seus gastos com consultorias.

Algumas das empresas de serviços profissionais estão tentando melhorar sua imagem. Em uma carta aberta em setembro, o CEO da PwC Australia, Kevin Burrowes, disse estar “profundamente arrependido” por comportamentos que passaram despercebidos por “muitos anos”.

O presidente da EY no Reino Unido sugeriu em outubro que a legislação governamental ajudaria a reformar a indústria de auditoria. E a McKinsey gastou quase US$ 700 milhões para fortalecer suas funções de risco, legal e conformidade nos últimos cinco anos. A empresa também reforça seu departamento de ética.

“Posso dizer honestamente que não tive nenhum dia entediante no trabalho”, disse Sternfels, da McKinsey, a seus colegas em Seul. “Houve dias longos e difíceis, mas nenhum entediante.”

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