As apostas da Microsoft em IA (antes do caso Sam Altman), segundo a CEO Brasil

Tania Cosentino diz à Bloomberg Línea que o desenvolvimento de software com IA já traz retornos de investimento e destaca potencial do Copilot para clientes comerciais

Feria de Tecnología Industrial Hannover Messe
24 de Novembro, 2023 | 05:05 AM

Bloomberg Línea — A contratação depois revertida de Sam Altman, da OpenAI, pela Microsoft atraiu os holofotes da indústria de IA (Inteligência Artificial) generativa na última semana. O empreendedor voltou no fim - ou até segunda ordem - ao comando da startup considerada a mais disruptiva desse mercado, mas, para a big tech, isso não alterou os planos de avançar e rentabilizar a tecnologia ainda neste ano.

“Colocamos o serviço da OpenAI dentro do Edge [o browser da Microsoft] em disponibilidade para todo o mercado brasileiro, permitindo trabalhar com soluções de baixa latência para atender o público e as empresas que estão instaladas aqui no Brasil”, disse Tânia Cosentino, presidente da Microsoft para o Brasil, em conversa com a Bloomberg Línea antes do caso que envolveu o CEO da OpenAI.

A executiva, que responde sobre as operações e a estratégia da big tech para o Brasil e não é porta-voz para os negócios globais, ressaltou que a Microsoft “já está vendo grandes retornos de investimento na área de desenvolvimento de software com IA”, sem abrir valores específicos. A conversa aconteceu no evento EBANX Payments Summit, em São Paulo, no dia 20 de setembro.

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E a Microsoft não está sozinha na disputa. Grandes empresas como Google (GOOG), Meta (META) e Amazon, para citar representantes das big techs, aceleraram o ritmo de lançamentos nos últimos meses.

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Para a Microsoft (MSFT), uma das principais apostas tem a ambição de mudar para sempre os computadores que rodam com o sistema operacional Windows 11.

A Microsoft anunciou no fim de outubro o que promete ser “uma nova era de IA (Inteligência Artificial)” na empresa, com o Microsoft Copilot, além de atualizações para o Windows 11, o Microsoft 365, o Bing, o Edge e o Surface focadas na expansão de recursos de IA.

A big tech, que é a maior investidora da OpenAI, startup que desenvolveu o ChatGPT, agora terá o Copilot - que foi desenvolvido pelo GitHub, plataforma para desenvolvedores comprada em 2018 - incorporando exclusivamente o contexto e a inteligência da web e os dados de trabalho do que o usuário está fazendo no computador para fornecer uma assistência de maior qualidade.

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O assistente de IA generativa, disponível no Windows 11 desde o fim de outubro, funciona como um aplicativo e pode “surgir” quando o usuário precisa. Com mais de 150 novos recursos, essa atualização é uma das mais ambiciosas até o momento, de acordo com a Microsoft, pois amplia o poder do Copilot e permite novas experiências alimentadas por IA para aplicativos como Paint, Fotos e Clipchamp.

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Cosentino destacou que a Microsoft tem investido com ênfase em infraestrutura local, como data centers, para expandir serviços e fornecer soluções de IA de baixa latência ao mercado brasileiro.

Segundo a executiva, a demanda por profissionais qualificados em TI é evidente tanto no Brasil quanto no mundo, o que torna a IA generativa uma ferramenta valiosa para aumentar a produtividade dos desenvolvedores, com ganhos calculados de mais de 50%.

“Por meio de comandos de voz, o sistema desenvolve o software para você ou faz testes no seu software, depura, e isso traz ganhos de produtividade superiores a 50% dentro da área dos desenvolvedores. Trata-se de um ganho imediato para as companhias”, disse a presidente da Microsoft no Brasil.

Desde o começo de novembro, o Microsoft 365 passou a disponibilizar o Copilot para clientes comerciais, com uma versão atualizada do M365 Chat e novos recursos em aplicativos como Outlook, Excel, Loop, OneNote, OneDrive e Word.

O Bing Chat Enterprise também receberá atualizações, o que inclui suporte para pesquisa visual multimodal e a disponibilidade do Criador de Imagens no aplicativo móvel Microsoft Edge - tudo com apoio de IA generativa.

Potencial para soluções corporativas

“O mundo de tecnologia está permeando qualquer empresa. A TI deixa de ser somente uma área de suporte para manter a operação ‘rodando’ e passa a ser uma área estratégica para o desenvolvimento do negócio, para solução de novos produtos, para a interação com novos clientes e para ganhos de produtividade e redução de custos de forma geral”, disse Cosentino.

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A executiva disse ainda que a Microsoft está testando diversos bots e percebe não só uma precisão maior nas respostas às perguntas dos usuários como um tempo muito menor.

“Isso significa transformar a experiência do usuário em relação a uma área de suporte. Você melhora a experiência, a satisfação desse usuário, a lealdade com a marca e, ao mesmo tempo, reduz todo o custo de interação das suas equipes”, disse a executiva.

Entre os clientes Copilot no Brasil para desenvolvimento estão empresas como o Sem Parar e órgãos públicos como a AGU (Advocacia-Geral da União) e o TCU (Tribunal de Contas da União).

“São empresas com grande volume de documentos e processos. Torna-se possível equalizar tais documentos, criar, classificá-los e buscar respostas para diferentes processos, tudo com uso da IA generativa”, disse Cosentino. “Esses são casos já em andamento que temos no Brasil e no mundo, aplicação com retorno do investimento já garantido”, argumentou a executiva.

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A visão do mercado

Leonardo Otero, sócio-fundador da Arbor Capital, especializada em teses de tecnologia, disse que o lançamento do Copilot da Microsoft no Windows 11 transformará completamente a forma como os usuários interagem com computadores. Ele previu que a combinação do Copilot e do Office365 resultará em um aumento significativo de produtividade e afirmou que, em breve, nenhum profissional competitivo poderá prescindir de um assistente de IA generativa.

Otero disse acreditar que o preço desse pacote será substancial, mas com a maior parte do valor representando lucro, uma vez que os custos variáveis são baixos.

E destacou que o Copilot será especialmente útil para usuários que dependem muito do e-mail, com contexto à caixa de entrada, resumo de textos extensos e geração de respostas que poderão se passar como autênticas. Os ganhos de produtividade têm um impacto positivo não apenas para os indivíduos mas para a economia como um todo, em sua avaliação.

Esse avanço na IA generativa é tão significativo que, segundo Otero, a Microsoft pode até mesmo encontrar uma oportunidade para competir no mercado de celulares com a Apple.

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Mas há diferenytes players que buscam esses ganhos em estágio avançado.

A Meta criou um modelo de IA chamado SeamlessM4T, que pode traduzir e transcrever quase 100 idiomas em texto e fala e tem a capacidade de converter áudios em texto.

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Além disso, a OpenAI anunciou também no fim de outubro que o ChatGPT agora pode responder em voz alta, e a Getty Images lançou uma nova ferramenta de criação de imagens baseada em IA generativa.

O Spotify (SPOT) anunciou, por sua vez, que um grupo piloto de podcasters agora pode traduzir automaticamente seus episódios de podcast para idiomas alternativos mantendo sua própria voz. O recurso usa IA para traduzir podcasts para espanhol, francês e alemão.

O Google também anunciou recursos para sua IA generativa, o Bard, que interage com outros aplicativos e serviços do Google, com respostas personalizadas para cada usuário.

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Entre as novidades está a possibilidade de fazer upload de imagens com o Google Lens, receber imagens como resposta e modificar os textos recebidos pelo Bard, deixando-os mais simples ou mais complexos, curtos, longos ou casuais ou profissionais, conforme disse o presidente do Google no Brasil, Fábio Coelho, em publicação em seu LinkedIn.

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Isabela  Fleischmann

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups