Por que as ações das varejistas voltaram a subir? CEO da Via explica os motivos

Roberto Fulcherberguer diz em entrevista à Bloomberg Línea que queda do juro, se confirmada como projeta o mercado, vai representar aumento de lucratividade ‘na veia’

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São Paulo — Provável fim do ciclo de alta dos juros. Deflação em julho. Início do pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600 em agosto. Copa do Mundo do Catar em novembro e dezembro. Black Friday e Natal. Depois de uma longa temporada de resultados decepcionantes, o varejo brasileiro conta com expectativas cada vez mais otimistas para os meses finais de 2022.

Não que não haja incertezas que ensejem uma dose de cautela, como a disputa presidencial em outubro e a desaceleração do crescimento da economia mundial, diante da alta dos juros e dos impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Mas gigantes do setor no Brasil começam a dar sinais de uma iminente reviravolta na percepção dos investidores sobre a capacidade de gerar mais receitas, dividendos e de honrar compromissos.

“Com a taxa Selic começando a cair e o mercado ficando um pouco mais aquecido, haverá aumento direto de lucratividade na veia”, disse o CEO da Via (VIIA3), Roberto Fulcherberguer, em entrevista à Bloomberg Línea.

As ações da dona das redes Casas Bahia, Ponto e Extra.com.br dispararam 13,98% no pregão da B3 nesta sexta-feira (12), com a reação de investidores indo às compras após a divulgação do balanço do segundo trimestre na noite da véspera. O ganho acumulado desde 4 de julho é de 74%, mas, por outro lado, o papel ainda está perto de 40% abaixo do nível do fim de 2021.

Concorrente da Via, o Magazine Luiza (MGLU3) também teve alta expressiva, de 17,76%, depois de reportar números igualmente bem avaliados pelo mercado. As ações acumulam ganho de 68% desde o dia 4 de julho, embora a queda neste ano ainda esteja na casa de 50%.

“O mercado está mais otimista com o fim do ciclo de alta da taxa de juros. É uma expectativa para nós que faz grande diferença, embora nos últimos três anos preparamos a companhia, em termos de estrutura de despesas e de eficiência, tanto para os cenários de alta como de baixa da Selic”, afirmou o CEO.

Como todos os varejistas, a companhia se prepara para um momento inédito no calendário do setor: a sazonalidade a favor com três grandes eventos na mesma época: Copa do Mundo, Black Friday e Natal. Isso porque neste ano o maior torneio de seleções do futebol mundial será excepcionalmente realizado no fim do ano, em vez dos meses de junho e julho, como de costume.

“Não vejo risco de desabastecimento. Estamos programados com a indústria para a demanda nessas datas. Estamos equilibrando os estoques. E vamos lançar em breve nossa campanha de marketing para a Copa do Mundo”, contou Fulcherberguer.

Desemprego menor

Antes do esperado quarto trimestre positivo, a Via e seus pares trabalham para faturar com a nova rodada dos programas de transferência de renda, como o Auxílio Brasil, que começou a ser pago na última terça-feira (9) pela Caixa Econômica Federal. Em janeiro, o valor mínimo do Auxílio Brasil deve voltar a R$ 400, a menos que uma nova proposta de emenda à Constituição seja aprovada.

“Na primeira onda do auxílio, durante o início da pandemia, o dinheiro migrou muito para despesas com alimentação e quitação de dívida, e uma parte menor, para o varejo em geral. Ainda vamos entender o que vai acontecer neste novo ciclo. O fato é que o auxílio está vindo em um momento muito próximo de sazonalidades importantes e deve migrar parte dele para consumo conosco”, disse.

Outro fator citado pelo CEO da Via é a tendência de recuperação gradual do mercado de trabalho. “A redução da inflação e dos custos ajuda o nosso negócio e o nosso consumidor. Também o nível de emprego do país melhorou, com o índice de desemprego caindo, embora a renda também tenha recuado”, observou o executivo.

A taxa de desemprego do Brasil encerrou o primeiro semestre em 9,3%, a menor desde dezembro de 2015, segundo divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no fim de julho.

Inadimplência

A Selic saiu de 2% ao ano em março do ano passado para os atuais 13,75%. Em sua última decisão, no começo de agosto, o Banco Central sinalizou ao mercado que a sequência de aumentos na taxa básica de juros do país, a fim de conter as pressões inflacionárias, pode ter chegado ao fim.

Essa avaliação ganhou força nesta semana com novos dados, como a deflação medida pelo IPCA em julho e a nova redução promovida pela Petrobras (PETR3, PETR4) nos preços do diesel, a segunda em duas semanas.

O aperto monetário levou varejistas como a Via e o Magazine Luiza a apostarem suas fichas nas vendas parceladas, o que tende a aumentar o risco de calote no setor.

“Para o problema da alta dos juros, ofertamos o crediário como remédio. Dividimos o valor da compra em parcelas que cabem no bolso do nosso consumidor. Em três anos, nossa carteira de financiamento subiu de R$ 3,5 bilhões para R$ 5,6 bilhões. Estamos com uma carteira saudável, com a inadimplência controlada. Isso se deve a 60 anos de experiência do grupo na concessão de crédito e aos algoritmos do nosso sistema”, disse o CEO.

Relatório da equipe de analistas da XP sobre o balanço da Via destacou esse ponto. “É interessante notar que as taxas de inadimplência permaneceram praticamente estáveis na comparação anual (em 4,7%), mas cresceram 1,1 ponto percentual em relação ao trimestre anterior”, citou o documento.

Expansão

A Via evitou revisar o guidance (projeções) para seu plano de expansão, que continua com a previsão de abertura de 70 a 80 lojas em 2022. Nesta sexta-feira (12), a companhia inaugurou cinco lojas em Manaus, marcando sua chegada ao estado do Amazonas, onde terá ainda um centro de distribuição.

“Não trabalhamos com um cenário de otimismo extremo. Estamos atentos aos movimentos da economia. Se o mercado se deteriorar, vamos contar com nossos ganhos de produtividade para equacionar os resultados. Se o mercado melhorar, o risco é a companhia dar ainda mais lucro além do que o previsto”, comentou.

No segundo trimestre, a varejista registrou um lucro líquido de R$ 16 milhões. Foi o oitavo trimestre consecutivo no azul. A XP esperava um prejuízo de R$ 131 milhões.

“O lucro líquido foi beneficiado por menores despesas financeiras e um impacto tributário positivo, enquanto o fluxo de caixa nos surpreendeu positivamente, impulsionado principalmente por ganhos de capital de giro, especialmente do lado da oferta, algo que pode ser explicado por negociações mais duras”, apontaram analistas da XP em relatório.

Endividamento

A Via registrou a marca de 28 milhões de clientes no fim do segundo trimestre, o que representou um aumento de 4,4% em 12 meses, com o GMV (volume total de mercadorias vendidas) de R$ 11 bilhões. A companhia anunciou também que atingiu o breakeven da operação de marketplace, com receita de R$ 177 milhões, com 143 mil sellers (lojistas do marketplace) e 53 milhões de itens na plataforma.

“Em relação à rentabilidade, a margem bruta melhorou 0,5 ponto percentual por causa do aumento das taxas de comissão e receita de serviços, enquanto a margem Ebitda foi o principal destaque, sustentado por ganhos de produtividade e otimização de despesas com marketing”, analisou a XP.

O segundo trimestre foi encerrado com o caixa de R$ 4,3 bilhões, incluindo recebíveis de cartões e outros créditos, enquanto a dívida ficou em R$ 3,8 bilhões, com 65% dos vencimentos no longo prazo, ante 26% no mesmo trimestre do ano anterior.

A Via tem também reduzido a dívida bruta e alongado prazos. No começo deste mês, concluiu a colocação de R$ 400 milhões em CRI (certificados de recebíveis imobiliários).

“No segundo trimestre, fizemos uma redução bastante importante no endividamento, perto de R$ 1 bilhão”, citou o CEO.

Visão do mercado

Já relatório do BTG Pactual destacou que os resultados da Via “mostraram uma bem-vinda tendência positiva na operação de lojas físicas e nas melhorias de margem”, mas que a companhia precisa otimizar mais sua estrutura de capital. “Permanecemos cautelosos com o e-commerce brasileiro”, ressalvou a equipe do BTG.

Dois caminhos apontados pelo banco de investimentos para melhorar a estrutura de capital da Via passam pela monetização de créditos tributários, do GMV e pela recuperação sustentável no tráfego de lojas e do desempenho do seu marketplace.

O CEO da companhia disse que a companhia começou a capturar sinergias com logística após a aquisição da logtech CNT, com ganhos de receita com a oferta de serviços de fulfillment (operação que vai do armazenamento ao envio para a transportadora e cliente) para seus parceiros.

As entregas do marketplace realizadas pela plataforma de soluções logísticas da Via, o Envvias, saltaram de 5% para 30% em um ano. A companhia antecipou que, em julho, esse percentual já chegou a 37%. “O fulfillment já tem uma participação que começa a ser relevante mesmo com o pouco tempo desde o lançamento”, comentou Fulcherberguer.

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