Aplicativo de troca de mensagens é um elefante branco para a gigante de mídia social
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Bloomberg Opinion — Mark Zuckerberg provavelmente desejava estar de férias em vez de anunciar o resultado do segundo trimestre da Meta (META). Os analistas reduziram as estimativas para a gigante de mídia social, e os comentários de Zuckerberg aos funcionários sugerem que os números não seriam bons. Ele terá que enfrentar uma dura realidade sobre a falta de objetividade do WhatsApp, seu maior investimento até o momento.

Os desafios são muitos no conglomerado de Zuckerberg. O Instagram está na corrida para copiar o TikTok, com sucesso misto. Os jovens não querem usar o Facebook, cujo crescimento geral desacelerou, e a Apple (AAPL) está evitando que os anunciantes no aplicativo do Facebook visem as pessoas.

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E temos o WhatsApp. O aplicativo que nunca alavancou nos Estados Unidos é o serviço de mensagens mais popular em quase todo o resto do mundo. Aproximadamente 2 bilhões de pessoas usam ativamente o WhatsApp, mas no universo de Zuckerberg ele tem sido mais uma manobra defensiva e sem lucros que uma galinha dos ovos de ouro como o Instagram.

O contraste é muito acentuado: Zuckerberg comprou o Instagram por US$ 1 bilhão em 2012, e o aplicativo contribuiu com US$ 20 bilhões para a receita do Facebook somente em 2019. A compra do WhatsApp ocorreu em 2014, por US$ 19 bilhões, mas o aplicativo contribuiu com centavos em comparação.

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É surpreendente que oito anos após Zuckerberg ter feito a aquisição, ele ainda não tenha transformado o WhatsApp em um negócio remotamente viável.

Fundado em 2009, o WhatsApp inicialmente lucrou com uma assinatura anual de 99 centavos porque seus fundadores desprezavam anúncios. Após a venda, ambos acabaram pedindo demissão porque a Meta estava tentando rentabilizar o aplicativo com publicidade. Mas em 2020, a Meta desistiu da ideia e disse que tentaria cobrar para que negócios pudessem interagir com clientes pelo aplicativo. Naquele ano, cerca de 175 milhões de pessoas trocavam mensagens com uma empresa no WhatsApp todos os dias – um começo promissor, mas ainda assim apenas cerca de 8% de sua base total de usuários.

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Por um tempo, parecia que o WhatsApp poderia realmente se tornar central para o futuro do Facebook como empresa. Em março de 2021, Zuckerberg anunciou sua “visão focada na privacidade para as redes sociais” e previu um futuro no qual a comunicação mudaria para serviços privados como o WhatsApp.

Mas sete meses depois, a visão de Zuckerberg havia mudado. Ele anunciou que o futuro da internet estava no mundo imersivo do metaverso, representando o “próximo capítulo” da recém-nomeada Meta. Além de um anúncio sobre o lançamento de um novo serviço de bate-papo com clientes no WhatsApp em maio, Zuckerberg pouco disse sobre serviço de mensagens desde então.

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O lugar do WhatsApp dentro da hierarquia da Meta muda constantemente. Agora, com Zuckerberg resoluto a focar na realidade virtual, o valor real do aplicativo provavelmente virá de algo mais ignóbil do que ganhar dinheiro como um negócio viável. Ele provavelmente será o sacrifício que Zuckerberg fará para enfrentar os órgãos reguladores de defesa da concorrência.

Isso explicaria a falta de motivação de Zuckerberg para tornar o WhatsApp uma empresa em funcionamento. O problema nunca foi a dificuldade de ganhar dinheiro com o envio de mensagens. Afinal, o WeChat, da Tencent – um concorrente de envio de mensagens na China – gerou mais de US$ 500 milhões somente em junho de 2022, segundo estimativa da empresa de inteligência de mercado Sensor Tower, em grande parte proveniente de pagamentos, publicidade e atuando como uma porta de entrada para jogos.

O problema era que a principal motivação de Zuckerberg para comprar o WhatsApp, em primeiro lugar, era utilizá-lo uma ameaça competitiva, de acordo com provas de órgãos reguladores de defesa da concorrência, como a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC, na sigla em inglês). Os executivos do Facebook até se preocuparam com a forma como o WhatsApp poderia ameaçar os negócios do Facebook depois da aquisição pela empresa, segundo relatório de notícias da Bloomberg na semana passada. Isso dificilmente parece uma empresa controladora com grandes visões para sua subsidiária.

Agora, para lidar com a tentativa da FTC de forçar a empresa a alienar tanto o WhatsApp quanto o Instagram como parte de um processo contra a empresa, os advogados da Meta podem pressionar por um acordo que inclua a alienação de apenas um deles. Se tiverem sucesso, provavelmente conseguimos adivinhar qual empresa Zuckerberg preferiria se desfazer.

Como uma venda do WhatsApp poderia funcionar na prática? Sem receita substancial, um IPO estaria fora de questão. A Meta poderia vender a empresa a um consórcio de private equity, ou a uma empresa como a Microsoft (MSFT), que já demonstrou interesse em comprar um negócio de mensagens no passado e (curiosamente) conseguiu fazer uma série de grandes aquisições nos últimos anos sem evocar escrutínio por parte das autoridades de defesa da concorrência. Se o eventual IPO da Arm Holdings, do Softbank, tiver sucesso, e se Masayoshi Son decidir mudar seu próprio foco da inteligência artificial e da Internet das Coisas para o mundo das mensagens, ele poderia ser um possível comprador.

Mas encerrar esse capítulo sobre o WhatsApp trará à tona uma verdade inquietante para os investidores da Meta: a empresa parece não conseguir ganhar dinheiro com nada além da tradicional publicidade online.

A publicidade digital representa aproximadamente 98% da receita da Meta. A Meta, assim como o Google (GOOGL), está viciada nesse negócio. Enquanto a Microsoft e a Amazon (AMZN) conseguiram diversificar para a área de computação em nuvem e jogos, a Meta não conseguiu fazer o mesmo com criptomoedas, comércio eletrônico e, é claro, mensagens.

Talvez o metaverso seja diferente, e Zuckerberg encontrará uma forma de direcionar seu próspero negócio publicitário para a realidade virtual. Mas a humilhante mudança no valor do WhatsApp do negócio potencial para a oferta regulatória mais provável da Meta ressalta o quanto essa visão está em terreno instável.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Parmy Olson é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre tecnologia. Já escreveu para o Wall Street Journal e a Forbes e é autora de “We Are Anonymous.”

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