Como a inflação se tornou o maior adversário eleitoral de Bolsonaro

O maior aumento de preços em duas décadas faz a economia se tornar o principal fator de decisão do voto e deixa temas como corrupção em segundo plano

Consumidoras em feira na cidade do Rio de Janeiro: os preços de legumes subiram 70% nos últimos 12 meses no país
18 de Junho, 2022 | 08:05 AM

Bloomberg Línea — No fim de 2021, os estrategistas eleitorais do presidente Jair Bolsonaro viam a vantagem de Lula nas pesquisas como um fenômeno que poderia ser combatido com pragmatismo. O primeiro passo foi a criação do Auxílio Brasil de R$ 400 por família (mais do que o valor médio de R$ 191 do Bolsa Família, identificado com o PT). A outra aposta – vocalizada sobretudo pelo ministro Paulo Guedes – seria a recuperação da economia após um longo inverno de pandemia, que faria a aprovação do presidente crescer em diferentes estratos do eleitorado e ultrapassar o petista em intenções de voto já em maio ou junho.

As pesquisas do mês de abril pareciam dar razão aos experts do Centrão, como Ciro Nogueira (ministro da Casa Civil) e Arthur Lira (presidente da Câmara dos Deputados), com a queda da taxa de rejeição a Bolsonaro e o presidente atingindo a marca de 30 pontos percentuais – ou próximo disso – em diferentes levantamentos. Mas um lote de dados econômicos ruins começou a se acumular e a recuperação eleitoral do presidente empacou. O país já está há nove meses com a inflação acima dos dois dígitos, até ter atingido o pico até agora em abril 12,13% (no acumulado de 12 meses), o mais alto desde novembro de 2003.

Mesmo com o recuo em maio (para 11,73%), o IPCA continua em um nível que supera o restante da série histórica em quase duas décadas. Em muitos casos, os aumentos são superiores. Os preços de legumes e raízes aumentaram 69,90% em 12 meses; o de leites e derivados, 18,07%; o da conta de luz, 20,52%. O número de pessoas que passam fome no Brasil subiu para 33 milhões – patamar de 30 anos atrás – e, hoje, mais da metade da população do país (58,7%) está em insegurança alimentar (condição de quem enfrenta dificuldades para conseguir comer todos os dias).

O inflação mais alta em duas décadas, que a cúpula do governo e o próprio Banco Central avaliavam que começaria a ceder nesta época do ano, não dá sinais inequívocos de trégua. Isso se reflete na deterioração das expectativas de mercado. Economistas e analistas consultados regularmente pelo BC para o Boletim Focus agora esperam, segundo a mediana das projeções, uma inflação de 8,89% para o fim de 2022, acima dos 7,89% de 29 de abril; e de 4,39% para 2023 (contra 4,10% no final de abril). Em teoria, a meta de inflação perseguida pelo Banco Central é de 3,50% em 2022 e 3,25% em 2023.

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No mundo real, é uma realidade sentida por brasileiros de todos os estratos. Um dos exemplos mais eloquentes é que encher o tanque de um carro popular (com 55 litros) consome hoje um terço do salário mínimo em São Paulo - e isso antes do novo reajuste que começa a vigorar neste sábado (18). É a maior fatia da renda mensal consumida entre as maiores economias das Américas, segundo levantamento da Bloomberg. No México, encher o tanque exige gastar o equivalente a 24% do salário; na Argentina, 18%. E nos Estados Unidos, que enfrentam a maior inflação em 40 anos, a fatia é de 6%.

Quando Bolsonaro assumiu a Presidência da República, em 2019, uma cesta de 35 produtos básicos custava R$ 465 (o equivalente a 46,6% do salário mínimo de R$ 998 na época. Atualmente, a mesma cesta básica exige o desembolso de R$ 758 (ou 62,6% do salário mínimo corrente de R$ 1.212).

Cozinhar os alimentos da cesta também ficou mais caro: o botijão de gás, que custava R$ 69 em 2019, hoje está sendo vendido a R$ 150 em algumas capitais do país.

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“É A ECONOMIA, ESTÚPIDO”: O diretor-executivo da Eurasia para as Américas, Christopher Garman, costuma recuperar a antológica frase do marqueteiro da vitória de Bill Clinton sobre George Bush na eleição presidencial dos Estados Unidos em 1992 – “É a economia, estúpido!” – nas conversas com os clientes da consultoria de análise de risco para ilustrar como o humor do eleitor de hoje, 30 anos depois, está se movendo em diferentes países do mundo. A tirada do estrategista James Carville se tornou célebre porque explica a vitória do democrata sobre um então presidente que acabou derrotado na busca pela reeleição, mesmo tendo alcançado 90% de aprovação no ano anterior após a invasão do Iraque.

“É tudo sobre economia nas eleições de agora. A inflação é o calcanhar de Aquiles de todos os países agora e isso tem um peso muito forte no comportamento dos eleitores em diferentes países. A vitória do Macron na França foi uma exceção porque lá a Guerra da Ucrânia teve um peso muito forte”, diz Garman.

No modelo de análise da Eurasia, considerada a consultoria de risco mais prestigiosa do mundo, Lula tem hoje 70% de chance de vencer a eleição de outubro. Isso se dá, segundo o analista, porque as preocupações do eleitor brasileiro hoje são substancialmente distintas das que levaram o então deputado Jair Bolsonaro à vitória em 2018. A economia, a perda do poder de compra e o desemprego são o principal drive para a escolha de um candidato. Temas como corrupção – que tiveram forte peso quatro anos atrás sob impacto direto das descobertas da Operação Lava Jato – foram rebaixados no ideário e hoje menos de 10% dos eleitores diz decidir o voto por esse fator.

Garman diz que esse cenário beneficia Lula, um político tradicionalmente forte no quesito economia porque seu governo (2003-2010) foi marcado por crescimento econômico, expansão da renda e ascensão da classe C, que representa a maior parte da população, durante um ciclo positivo de commodities. Ou seja, Lula tem um recall positivo nesse campo para grande parte do eleitorado.

“Bolsonaro precisa atacar a inflação ou pelo menos se colocar como o candidato que está tentando reduzir a inflação – esse é o sentido de tantas medidas adotadas ultimamente [como a tentativa de reduzir o preço dos combustíveis via redução de impostos, nem que seja na Justiça]. Além disso, ele também precisa atacar o Lula com uma campanha negativa para ter chance real”, pondera Garman.

“É provável que a diferença entre Lula e Bolsonaro nas pesquisas caia se essas medidas funcionarem, mas, olhando o tamanho do buraco da economia, não sei se ele vai ter tempo suficiente para reverter essa situação antes da eleição.”

Na visão do diretor-executivo da Eurasia para as Américas, Lula tem seguido à risca o manual de candidato de oposição para uma situação de alta incerteza econômica; isto é, tem sido eficiente em “jogar a culpa por todas as dores sociais e econômicas da população em Bolsonaro”.

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“É O SOCIAL, ESTÚPIDO”: A ampliação das pressões inflacionárias, de bens como carros e custos como alimentos, turva o cenário eleitoral. Para o consultor em pesquisas eleitorais Alessandro Janoni, a situação econômica reflete a percepção de bem-estar social, que forma a decisão do voto.

Segundo o especialista, que é ex-diretor do Datafolha (um dos principais institutos de pesquisa do país), uma parte do quadro delineado pelas pesquisas começou a se formar ainda durante a pandemia, que atingiu de maneiras distintas estratos da chamada população economicamente ativa (brasileiros com idade para trabalhar). Os mais pobres e sem vínculo formal de trabalho foram os mais atingidos e o número de pessoas ganhando até dois salários mínimos teve uma explosão no segundo trimestre de 2020, chegando a representar 60% da população – contra 45% no governo Temer e 40% no final do governo Dilma.

“O auxílio emergencial de R$ 600 [pago a partir de meados de 2020] provocou uma mudança temporária na base de apoio do presidente. Uma parte das pessoas com ensino superior se afastou por causa de declarações negacionistas e foi substituída por beneficiários do auxílio. Hoje, essa equação mudou de novo porque o atual Auxílio Brasil paga menos e a uma parcela bem menor da população”, explica Janoni.

Hoje, o contingente dos brasileiros que ganham até dois salários mínimos equivale a 52% da população e uma parte deles não se enquadra nos critérios para que possa se beneficiar do programa.

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“Houve queda da renda nos últimos anos e há cada vez mais gente ganhando menos. E nesse contingente a inflação corrói mais o poder de compra. É o estrato em que o Lula tem a maior vantagem sobre o Bolsonaro”, diz Janoni, explicando por que, mesmo pagando mais que o Bolsa Família, o Auxílio Brasil (com 18 milhões de beneficiários) não conseguiu galvanizar uma base de apoio sólida ao presidente.

Conforme a última pesquisa do Datafolha, publicada no fim de maio, Lula vence Bolsonaro por 56% a 20% entre os eleitores com renda até dois salários mínimos. No quadro do primeiro turno com a população em geral, o petista apareceu com 48% contra 27% do presidente, segundo o instituto.

“A frase ‘é a economia, estúpido!’ é muito boa, mas aqui não explica tudo. Aqui seria mais adequado dizer ‘é o social, estúpido!’”, afirma Janoni.

MARGEM DE MANOBRA ESTREITA: A inflação atual não é um problema particular do brasileiro. Nos Estados Unidos, a inflação de maio atingiu 8,6% na taxa anualizada, a mais alta desde 1981, quando o país ainda enfrentava a rebarba do segundo choque do petróleo (1979). No Reino Unido, a taxa no acumulado de 12 meses chegou a 9% em abril, enquanto na zona do euro, o índice de preços é o maior da história, em 8,1%. Há pressões inflacionárias mesmo em países onde os preços ao consumidor estavam sob controle há décadas. No Japão, tradicionalmente às voltas com deflação, a inflação chegou a inéditos 2,1%.

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“Há alguns fatores que explicam a inflação de hoje, como a alta global dos preços dos combustíveis, com estoques que ficaram muito baixos e uma produção que ainda não voltou aos patamares anteriores. O conflito na Ucrânia só agrava essa situação”, analisa Otto Nogami, professor do Insper, uma das principais escolas de negócios em São Paulo.

“Outro fator estrutural é o desarranjo das cadeias produtivas globais com a pandemia e, por último, um represamento da demanda durante a pandemia.”

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A inflação global e a maneira como o Fed vai reagir a isso também ajudam a tornar mais incerta a perspectiva dos ativos no Brasil, de acordo com o professor. A maioria dos investidores espera que o Fed promova aumentos de 0,75 ponto percentual nos juros nas reuniões de julho e setembro, repetindo assim a decisão da última quarta-feira, que levou a taxa para o intervalo entre 1,50% e 1,75%. A última vez que o Fed apresentou um aperto tão grande da taxa foi em 1994, sob o comando de Alan Greenspan.

Com a perspectiva global de arrocho via juros, os mercados se contorceram. O S&P 500, o principal índice de ações de Wall Street, caiu 8,5% desde que os últimos dados de inflação americana foram divulgados, há uma semana. Em alguns ativos de risco mais alto, a venda geral foi ainda mais acentuada. O preço do Bitcoin desabou cerca de 33%. Aqui, o Ibovespa perdeu quase 7% e o dólar escalou 5%.

À medida que os Estados Unidos e a Europa subirem mais os juros nos próximos meses, diz Nogami, parte do capital alocado no Brasil tende a voltar aos mercados desenvolvidos em busca de ativos com riscos mais baixos e retornos mais atrativos em moeda forte. Por aqui o resultado será deterioração adicional dos preços dos ativos e desvalorização da moeda.

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A espiral ascendente nos preços tem sido o suficiente para provocar uma postura ainda mais rigorosa do Banco Central, que subiu os juros de 12,75% para 13,25% ao ano na última quarta (15) e deixou sinalizado uma nova alta na reunião do começo de agosto, surpreendendo uma parte do mercado. A expectativa dos economistas no Focus era a de uma Selic de 13,25% no fim do ano (mesma mediana de um mês atrás) e de 9,75% para em 2023 (antes era de 9,25%). A questão é que isso pode não ser o suficiente.

“Além da questão global, nós temos um pedaço da inflação que é só nosso. Grande parte da indústria brasileira depende de importação e, com perspectiva de alta do dólar, haverá repasse aos consumidores de componentes que ficarão mais caros”, prevê o economista do Insper.

Nogami é cético quanto às chances de sucesso de contenção da inflação por meio da intervenção do governo Bolsonaro para reduzir, a toque de caixa, impostos estaduais e federais dos combustíveis. “Qualquer intervenção do governo na formação de preços de um setor cria distorções. Já vimos isso no governo Dilma, quando a Petrobras quase quebrou porque segurou os preços da gasolina e do diesel artificialmente para tentar controlar a inflação ou quando quebrou grande parte do setor elétrico reduzindo o preço da energia na marra com uma medida provisória”, relembra o professor.

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Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.