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Cripto

Como entender a queda das stablecoins que estão assombrando as criptos

Experimento de uma stablecoin suportada por algoritmo passa por teste decisivo em meio a queda de criptomoedas

Moeda criada pela Terraform Labs é uma stablecoin vinculada ao dólar
11 de Maio, 2022 | 04:24 pm
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Línea — Os investidores no mundo das criptomoedas estão de olho na queda do Bitcoin (BTC) e no mercado em geral, e outro no crash que as criptomoedas UST e Luna em particular estão enfrentando.

O Bitcoin foi negociado brevemente abaixo de US$ 30 mil na segunda-feira (9) e, embora tenha conseguido recuperar algumas de suas perdas na terça-feira (10), a tendência segue sendo de baixa enquanto os mercados tradicionais lutam para se recuperar dos temores de uma possível recessão nos Estados Unidos. O colapso do UST e do Luna é ainda maior.

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A moeda UST, criada pela Terraform Labs, é uma stablecoin vinculada ao dólar americano e que (em teoria) busca escapar da volatilidade das criptomoedas. As stablecoins são seguras devido ao suporte que lhes permite manter baixa variabilidade e que podem ser commodities, moedas fiduciárias (como o dólar) ou até mesmo outros criptoativos.

Essas moedas mantêm sua paridade porque, segundo a teoria, podem ser facilmente trocadas por dinheiro ou equivalentes de caixa de alta liquidez, explica a Bloomberg. Por exemplo, no caso do Tether, a empresa criadora afirma ter lastro em dólares americanos.

Mas isso não acontece com a Terra, que não tem caixa para apoiar o UST, mas usa um algoritmo envolvendo seu token “irmão” Luna para manter uma paridade de 1:1 com o dólar americano. Ou seja, a ideia é que 1 UST seja sempre igual a US$ 1.

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Quando o valor não coincide, são utilizados incentivos para que os usuários estabilizem o preço, por meio de um “jogo” entre oferta e demanda.

Há pouco mais de um mês, o Luna era uma das 10 maiores criptomoedas por capitalização de mercado e hoje está em 14º lugardfd

Por exemplo, quando a paridade fica abaixo de US$ 1, os investidores podem queimar (ou eliminar) UST em troca de novas unidades do Luna. Ao reduzir a oferta de SUT, seu preço sobe. O inverso também acarreta o mesmo, pois se o UST subir acima de US$ 1, os traders podem queimar Luna e receber UST em troca, o que aumentará sua oferta e reduzirá seu preço, aproximando-o da paridade novamente.

Incidente de queda

O problema é que desde o último fim de semana, essa estabilidade se perdeu e continuou pelo menos até terça-feira. Às 14h01 de Brasília, 1 UST equivalia a US$ 0,90, de acordo com a plataforma Coingecko, mas o crash se aumentou de tal forma que atingiu US$ 0,68.

O adeus à paridade entre o UST e o dólar tem sido objeto de debate entre os investidores de criptomoedas, a ponto de alguns falarem de um ataque coordenado para desestabilizar a criptomoeda. A dissociação começou após grandes saques de UST dos projetos descentralizados Curve Finance e Anchor, conforme relatado pela Bloomberg. Informações da Nansen, um rastreador de dados de blockchain, mostraram que mais de 121 milhões de tokens do UST foram retirados da exchange descentralizada Curve Finance no fim de semana.

Além disso, havia uma carteira que enviava cerca de US$ 84 milhões em UST para a rede Ethereum e depois sacava em USDC – outra stablecoin – por meio da Curve.

“Os homens vão literalmente atacar uma stablecoin sem sucesso em vez de fazer terapia”, escreveu Do Kwon, fundador da Terraform Labs, em um tweet que posteriormente apagou.

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Clara Medalie, analista da Kaiko Research, disse à Bloomberg Línea que os argumentos que sugerem que a dissociação do UST foi um ataque coordenado ainda são especulativos. “Nada foi verificado ainda, o que pode levar algum tempo e uma investigação cuidadosa do trading nas bolsas”, acrescentou.

Derretimento do USTdfd

No entanto, para John Kramer, diretor de operações do criador do mercado de criptomoedas GSR, o que aconteceu no fim de semana “parecia e se desenrolava como uma tentativa de manipular o UST”, disse ele à Bloomberg.

Marcus Sotiriou, analista da corretora digital Global Block, escreveu que a paridade foi perdida no sábado “após um ataque supostamente coordenado à stablecoin”.

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“Do Kwon, o fundador do Terraform Labs que criou o UST, desde então assegurou às pessoas que qualquer reclamação contra a segurança do Terra é ‘fud’ (medo, incerteza e dúvida, na sigla em inglês) e que o protocolo é realmente sólido para resistir a esses tipos de ataques”, escreveu Sotiriou em um comentário por e-mail.

Na terça-feira, a Binance, a maior exchange de criptomoedas por volume de mercado, suspendeu temporariamente os saques de UST e Luna devido ao “alto volume de transações de saque pendentes”.

Ligação com Bitcoin

Este ano, o UST também esteve lastreado no Bitcoin. Em março, o Terraform Lab anunciou sua intenção de comprar mais de US$ 10 bilhões em Bitcoin para esse fim.

Após o crash do fim de semana, a Luna Foundation Guard (LFG), criada para defender a paridade do UST, decidiu emitir o equivalente a US$ 1,5 bilhão em empréstimos denominados em UST e Bitcoin para ajudar a apoiar a moeda digital.

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A Fundação tem uma reserva “para fornecer uma camada adicional de suporte e garantir que o UST mantenha sua paridade”. De acordo com informações oficiais, a Fundação mantinha reservas em Avax, Luna, UST, USDC, USDT e Bitcoin.

Kwon observou em seu Twitter que o LFG não está tentando “sair” de sua posição de Bitcoin. No entanto, a ideia por trás disso é permitir que os detentores de UST troquem seus tokens por Bitcoins, ou seja, cumprir um papel semelhante ao desempenhado por Luna.

“A decisão de usar Bitcoin como reserva criou um risco sistêmico para todo o ecossistema de criptomoedas. As reservas são uma parte importante de qualquer stablecoin, portanto, será necessário repensar como construir uma stablecoin bem-sucedida sem criar risco sistêmico para todo o mundo das criptomoedas. Definitivamente, pode haver pressão de venda no bitcoin se a LFG decidir usar as reservas como um mecanismo de estabilização”, acrescentou Medalie, da Kaiko Research.

De acordo com os números da Fundação, suas reservas diminuíram a ponto de a empresa colocar todos os seus ativos de Bitcoin à venda.

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“Isso deixou muitos entusiastas de criptomoedas debatendo as repercussões. Alguns analistas argumentaram que pode não haver financiamento suficiente no projeto Terra para suportar adequadamente o valor da stablecoin algorítmica e manter sua paridade com o dólar”, disse a análise de Vauld.

Mas, independentemente de haver ou não um ataque coordenado, a queda também levanta as críticas que foram feitas a essa stablecoin. Ryan Clements, professor da Universidade de Calgary, escreveu que as stablecoins apoiadas por algoritmos são “intrinsecamente frágeis”, porque existem em um estado de “vulnerabilidade perpétua”.

Segundo o professor, esses tipos de criptoativos são fundamentalmente falhos, pois dependem de três fatores difíceis de encontrar: um nível de demanda por suporte para estabilidade operacional; players independentes com incentivos de mercado para realizar arbitragem de estabilização de preços e informações confiáveis sobre preços em todos os momentos.

Há pouco mais de um mês, o Luna era uma das 10 maiores criptomoedas por capitalização de mercado e hoje está em 14º lugar. O colapso foi tanto que, nas últimas 24 horas, o token sofreu uma queda de mais de 40% em seu o preço e a capitalização de mercado caíram para US$ 11 bilhões.

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--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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Carlos Rodríguez Salcedo (BR)

Carlos Rodríguez Salcedo (BR)

Jornalista colombiano, especializado em economia. Fui jornalista e editor do jornal La República, com experiência em questões macroeconômicas, comerciais e financeiras. Eu também trabalhei para a agência de notícias Colprensa.

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