Saúde

China detona chefe da OMS por críticas à política de covid zero do país

OMS tem criticado a estratégia do país, defendendo uma abordagem que equilibre o controle de surtos com os impactos sociais e econômico

Trabajadores con equipo de protección personal (EPP) en el exterior de un centro comercial durante un cierre debido a Covid-19 en Shanghái, China, el lunes 25 de abril de 2022.
Por Bloomberg News
11 de Maio, 2022 | 11:52 am
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg — A China denunciou as críticas do chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS) à sua estratégia de tolerância zero à covid no país, que vem defendendo uma política deixa a China cada vez mais isolada no cenário mundial e sob pressão de seus próprios cidadãos, confinados em suas casas.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, elogiou os méritos da abordagem covid zero da China nesta quarta-feira (11), em resposta às críticas do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. No dia anterior, Tedros disse que a estratégia não era mais sustentável, dizendo que uma “mudança seria muito importante”.

“Esperamos que ele tenha visões objetivas e razoáveis do protocolo e da política epidêmica da China e tente entender melhor os fatos e se abstenha de fazer comentários irresponsáveis”, disse Zhao a repórteres durante um encontro regular em Pequim.

A disputa é notável porque a OMS, e Tedros em particular, forneceu uma fonte de apoio ao presidente Xi Jinping desde que o coronavírus foi descoberto pela primeira vez na cidade chinesa de Wuhan. O elogio inicial de Tedros à resposta da China levou o então presidente dos EUA, Donald Trump, a acusar a OMS de ceder a Pequim. Ele também ameaçou retirar os EUA do organismo mundial de saúde.

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Tedros estava entre os líderes mundiais que participaram dos Jogos de Inverno de Pequim no início deste ano, mesmo enquanto os EUA e outros países ocidentais travaram boicotes diplomáticos por questões de direitos humanos. A decisão da OMS de pular a letra “xi” no alfabeto grego ao nomear a variante ômicron também alimentou alegações de que a autoridade estava tentando proteger o presidente chinês.

As observações estimularam um novo debate sobre a estratégia de covid zero nas redes sociais - fortemente censuradas da China - onde vídeos dos comentários de Tedros foram compartilhados e rapidamente excluídos. O órgão político supremo da China, o Comitê Permanente do Politburo, prometeu na semana passada “combater resolutamente qualquer tentativa de distorcer, questionar ou negar” sua política, em um possível sinal de divisões internas sobre o assunto.

O ex-editor-chefe do Global Times, Hu Xijin, rejeitou as críticas de Tedros em postagens nas mídias sociais nesta quarta-feira (11), dizendo que “não importa” o que o órgão da ONU diz. “O Ocidente acha que essa doença se foi, mas ela se foi? Se os outros não sabem, a OMS é quem deveria saber melhor?” disse Hu.

Ainda assim, Hu, um comentarista influente, sugeriu um debate sobre como a covid deve ser tratada. “Atualmente há alguns desentendimentos na China. Esta é a razão pela qual os comentários da OMS causaram agitação”, escreveu ele, acrescentando que “precisamos superar essas divergências e formar um novo consenso”.

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Na semana passada, o próprio Hu lançou dúvidas sobre a estratégia da China em um artigo inicialmente postado em sua conta oficial do WeChat. Ele disse que a capital chinesa está enfrentando uma batalha decisiva contra a ômicron e a política de covid zero só vale a pena enquanto seu custo for gerenciável. A postagem foi excluída na sequência.

Em maio de 2020, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, defendeu Tedros das críticas de Trump dizendo que a OMS, sob sua liderança, “fez um bom trabalho”, e que os países que “ignoraram ou rejeitaram seus conselhos estão pagando um preço alto”.

No mês passado, Zhao, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, disse que a estratégia covid zero da China era “consistente com suas realidades nacionais e os princípios orientados pela OMS”.

A OMS critica há muito os bloqueios, defendendo uma abordagem mais moderada que equilibre o controle de surtos com seus impactos sociais e econômicos. As observações de Tedros foram perceptíveis porque questionaram especificamente a política associada a Xi.

Alguns nas mídias sociais chinesas disseram sarcasticamente que Tedros havia passado de “secretário do partido” – em um aceno ao seu apoio inicial à linha do Partido Comunista – a “traidor”. Uma piada em circulação ofereceu uma brincadeira com o nome da OMS dizendo: “Quem diz à China que é hora de se afastar de sua estratégia covid zero?!” A resposta implícita era “ninguém”.

Nesta quarta, Zhao ofereceu uma longa defesa da abordagem da China ao vírus, contrastando-a com o número de mortes em lugares como os EUA. Ele citou um estudo da Universidade de Fudan que descobriu que o país corre o risco de um “tsunami” de infecções por coronavírus, resultando em 1,6 milhão de mortes se o governo abandonar a atual política de restrições.

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“Gostaria de dizer explicitamente que não importa o quão difícil seja, o povo e o governo chinês tem toda a confiança em vencer a batalha crítica e difícil contra a covid-19”, disse Zhao. “E temos base e capacidade para tal”, completou.

– Esta notícia foi traduzida por Melina Flynn, Content Producer da Bloomberg Línea.

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