Eleições 2022

Após reações, Lula diz que é contra aborto, mas que tema é de saúde pública

Fala sobre aborto foi criticada por aliados por ter entrado na pauta de costumes, em vez de concentrar na economia

"Aborto precisa ser transformado em questão de saúde pública para que mulheres pobres não morram por falta de atendimento, só isso."
07 de Abril, 2022 | 01:22 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg Línea — Com as reações às falas de Lula em grupos bolsonaristas sobre sua posição sobre o aborto e críticas de seus próprios aliados por entrar na pauta de costumes em vez da economia, que é a principal fonte de desgaste do atual governo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje que é contra o aborto, mas voltou a defender que a prática – ilegal no Brasil – seja tratada como um tema de saúde pública.

No país, o aborto só é permitido em caso de estupro, risco de morte para a mãe e, mais recentemente, quando se trata de gestação de fetos anencéfalos.

“Eu sou contra o aborto. Tenho cinco filhos, oito netos e uma bisneta. Sou contra o aborto. O que eu disse é que tem que transformar essa questão do aborto em uma questão de saúde pública”, afirmou, em entrevista à rádio Jangadeiro BandNews, de Fortaleza.

“Mesmo eu sendo contra o aborto, ele existe e existe de forma diferenciada. Uma pessoa que tem poder aquisitivo bom, essa pessoa procura uma clínica boa, vai até para o exterior, e vai se tratar. E a pessoa pobre? Como ela faz?”, prosseguiu.

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“Até citei o exemplo de uma mulher que conheci que tentou fazer um aborto perfurando o útero com uma agulha de tricô. Até citei esse caso. O que eu acho é que o aborto deve ser tratado como uma questão de saúde pública. O Estado tem de dar atenção a essas pessoas pobres que por ene razões abortam. Eu não quero saber por que elas abortam, mas o Estado tem de cuidar, não pode abandonar. Não sei qual o mau entendimento que as pessoas têm disso. É apenas uma questão de bom senso. Por mais que a lei proíba e a religião não goste, ele existe.

O ex-presidente também adotou um tom mais ameno para sua fala de quarta-feira (4), onde incentivou a militância de esquerda a procurar deputados e suas famílias em suas casas.

“Acho engraçado as pessoas tratarem uma sugestão que eu fazia quando era dirigente sindical como se fosse uma anormalidade. Eu fui presidente da República por oito anos. Muitas vezes cheguei no Palácio de madrugada e tinha gente esperando para reivindicar alguma coisa e eu parava para conversar”, disse ele, em entrevista à rádio Jangadeiro BandNews, de Fortaleza.

“Ao invés de gastar fortunas para ir a Brasília para fazer protesto que a gente dentro do Congresso Nacional nem vê, eu disse que todo deputado mora numa cidade, todo senador mora numa cidade, então não custa nada ir na porta da casa dele, de forma civilizada, debater o tema que vocês querem ver discutido. Ao invés do deputado agradecer, esse deputado que diz antes das eleições que gosta do povo”, afirmou.

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Deputados da base do governo Bolsonaro haviam reagido nas redes sociais afirmando que o ex-presidente ameaçava a “propriedade privada” e prometiam defender-se. A fala de Lula na segunda-feira (4) foi: “Se a gente mapeasse o endereço de cada deputado e fossem 50 pessoas na casa, não é para xingar não, é para conversar com ele, com a mulher dele, com o filho dele, incomodar a tranquilidade dele, surte muito mais efeito do que fazer a manifestação em Brasília”

Hoje Lula afirmou: “Antes da eleição, esse pessoal gosta até de ir no bar tomar uma cachacinha para dizer que gosta do povo. Por que depois da eleição o povo passa a ser estorvo? Então não custa nada, o cidadão vai lá bater palma, deputado sai lá de forma civilizada, pergunta o que eles querem. Eles vão dizer que não querem que aprove determinada lei, o deputado diz se vai votar ou não. Qual o mal nisso? Ou o deputado quer morar escondido?”

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Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.

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