PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Brasil

‘Bolsonaro faz jogo de cena e não vai mudar política de preços’, diz ex-conselheiro

Mauro Rodrigues da Cunha, ex-conselheiro da Petrobras, diz que demissão de Silva e Luna não altera rumo da estatal

"muda tudo para não mudar nada na Petrobras"
30 de Março, 2022 | 01:29 pm
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Línea — O economista Mauro Rodrigues da Cunha ocupou uma cadeira no conselho de administração da Petrobras (PETR3 e PETR4) entre 2013 e 2015, período em que a estatal viveu um dos períodos mais conturbados de sua história durante a presidência de Dilma Rousseff e a gestão de Graça Foster à frente da companhia.

Gravações das reuniões do conselho de administração foram parar no Senado, durante a CPI da Petrobras em 2015, e mostram um período de embates entre os representantes dos minoritários – além de Rodrigues da Cunha, o também economista José Rodrigues Monforte, eleito para o conselho em 2014 – e os conselheiros alinhados ao governo em torno da política de preços da companhia no governo Dilma.

Em 2014, antes da eleição presidencial, os minoritários reclamavam pelo que entendiam ser um controle artificial de preços da estatal para ajudar o governo a segurar a inflação e, por tabela, não atrapalhar a reeleição de Dilma. Do lado do controlador, o então ministro Guido Mantega (Fazenda) presidia o conselho da Petrobras. (Este repórter ouviu dezenas de horas de gravações das reuniões do conselho, entregues ao Senado, em 2015)

Em novembro de 2014, após Dilma ter sido reeleita por margem apertada sobre Aécio Neves (PSDB), a Lava Jato deflagrou uma operação que levou à prisão donos de grandes empreiteiras que prestavam serviços à Petrobras, o grau de animosidade entre governo e minoritários no conselho chegou ao seu paroxismo. Silvio Sinedino, representante dos funcionários no conselho, era um dos que pressionava pelo afastamento de indicados do MDB que estavam sob suspeita.

PUBLICIDADE

Quase sete anos depois de deixar o conselho, Rodrigues da Cunha conversou com a Bloomberg Línea sobre a nova troca de presidente da Petrobras – a segunda em menos de 12 meses – determinada pelo presidente Jair Bolsonaro, insatisfeito com os reajustes de preços concedidos sobre a gestão do general Silva e Luna.

O futuro presidente, o economista Adriano Pires, é visto pelo mercado como alguém não inclinado a alterar a política de preços da companhia. O indicação de Pires será submetida à assembleia do dia 13.

Mauro Rodrigues da Cunha vê o movimento de Bolsonaro mais como um “jogo de cena” para se justificar perante ao seu eleitorado – para dizer que agiu para conter a alta dos combustíveis – do que uma interferência política capaz de interferir no modelo de precificar os combustíveis no mercado doméstico conforme o preço internacional do petróleo.

Formado pela PUC do Rio e detentor de um MBA pela Universidade de Chicago (berço intelectual do liberalismo econômico americano), Mauro Rodrigues da Cunha atualmente é conselheiro independente nos conselhos da Vale (VALE3), da Klabin (KLBN4) e da BR Malls (BRML3).

PUBLICIDADE

A seguir os principais pontos da entrevista.

Bloomberg Línea: O presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro por causa dos recentes reajustes de preço. É a segunda vez que isso acontece desde o ano passado. Como essa interferência política afeta a Petrobras?

Mauro Rodrigues da Cunha: O conselho de administração se tornou um anteparo [contra a interferência política] em decorrência até da própria lei. É importante olhar para a composição do conselho como um todo. Acho que a situação do conselho hoje é bem diferente da que havia no governo Dilma, quando o Mantega presidia o conselho. Se o governo quiser usar a Petrobras politicamente, vai conseguir, mas precisa primeiro arranjar alguém para fazer o trabalho sujo dentro do conselho. O conselho hoje é um anteparo. Estão mudando o presidente da Petrobras para não mexer na política. Muda tudo para não mudar nada.

BL: Mas por que trocar o presidente então?

MRC: O presidente está jogando para a torcida. Faz esse movimento de trocar o presidente da companhia, mas não está mexendo no conselho para alterar a política de preços, que é a que tem que acontecer mesmo. Já vimos isso antes, no final é um jogo de cena.

BL: Qual o efeito dessa mudança na presidência para a empresa em si?

PUBLICIDADE

MRC: É claro que causa pequenas defasagens no preço, mas há um entendimento que a política de preços da Petrobras é a que tem de acontecer mesmo. Há um entendimento da equipe econômica do ministro Paulo Guedes que uma interferência política na política de preços Petrobras pode ter consequências muito ruins não só para a empresa mas para o ambiente de negócios no país.

BL: A lei das estatais é suficiente para blindar a governança da Petrobras?

MRC: Esqueça a lei das estatais para isso. A lei é importante, claro, mas a empresa vive um processo histórico que começou no governo Temer e vem seguindo nesse governo. O estatuto social da empresa, que foi reformado no governo Temer, traz regras importantes de governança. Mas, se amanhã, o controlador quiser mudá-lo, consegue. É difícil mudar o estatuto social, chamaria atenção de muita gente, mas não é impossível.

Quando estava no conselho, eu dizia que única coisa que pode tirar o risco de ingerência política na Petrobras é a empresa não ser mais dominante no refino. Nisso até a Graça [Foster] concordava comigo.

PUBLICIDADE

BL: Por quê?

MRC: Se houver mais empresas participando do refino no país, cai a pressão sobre a Petrobras para que ela seja responsável pelo preço do combustível na bomba porque há concorrência. No governo FHC, houve um entendimento que o setor privado deveria entrar no refino. O processo deveria ter andado, mas depois houve um recuo e a Petrobras voltou a interferir no preço. O resultado foi que empresas que investiram em refino aqui quebraram.

BL: O sr. foi representante dos minoritários no período em que Dilma Rousseff era presidente da República e a Graça Foster presidia a Petrobras. Olhando para o movimento do presidente Bolsonaro agora e a Petrobras no governo do PT, há alguma semelhança em termos de interferência?

MC: A Petrobras é uma empresa imensa, sempre vai haver muita pressão e muito interesse envolvido. Mas quando cheguei eu era o único conselheiro que votava no conselho entendendo que a Petrobras não deveria fazer política de governo. Teve um ano em que votei contra o balanço da empresa [relativo ao ano de 2013] e havia 40 pessoas na sala com olhares de poucos amigos. Depois chegou também o [economista José Guimarães] Monforte e éramos dois. Hoje a composição do conselho é inteiramente diferente. Tem mais gente do bem.

PUBLICIDADE

BL: O ex-presidente Lula, que é o líder nas pesquisas eleitorais, tem criticado a política de paridade dos preços do petróleo e defende que a Petrobras volte com força para o refino. O que isso significa para a Petrobras, caso ele vença a eleição?

MC: Vejo que há risco político, é claro, você mesmo acabou de descrevê-lo. Os ganhos de governança na Petrobras foram em bases muito frágeis nos últimos anos e eles podem ser revertidos, se o controlador quiser mudar. Mas isso também teria consequências ruins para toda a economia, não só para a empresa.

PUBLICIDADE

Leia também:

Persio Arida, economista de governos tucanos, reuniu-se com Mercadante, do PT

Entenda a aposta de Eduardo Leite contra Doria para liderar 3ª via

Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.