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Mercados

A pergunta de US$ 140 bi: a Rússia pode vender sua enorme pilha de ouro?

Apesar da Rússia ter expandido suas reservas de ouro quase seis vezes desde meados dos anos 2000, as atuais sanções dificultam sua comercialização

Lingote
Por Eddie Spence
16 de Março, 2022 | 07:25 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg — A Rússia passou anos acumulando um estoque gigante de ouro, um ativo ao qual os bancos centrais podem recorrer durante uma crise. Mas qualquer tentativa de vendê-lo agora será um desafio exatamente no momento em que é mais necessário.

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O Banco da Rússia expandiu suas reservas de ouro quase seis vezes desde meados dos anos 2000, criando o quinto maior estoque do mundo, avaliado em cerca de US$ 140 bilhões. É o tipo de ativo que poderia vender para sustentar o rublo, que despencou à medida que as economias globais isolam a Rússia após a invasão da Ucrânia.

Fazer isso será difícil. As sanções proíbem as instituições dos Estados Unidos, do Reino Unido e da União Europeia de fazer negócios com o banco central da Rússia. Comerciantes e bancos têm receio de comprar barras de ouro do país indiretamente ou usar outras moedas por medo de danos à reputação ou incorrer em penalidades. E os senadores em Washington querem sanções secundárias a qualquer pessoa que compre ou venda ouro russo.

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“É por isso que eles compraram seu ouro, foi para uma situação como esta”, disse Fergal O’Connor, professor da Cork University Business School. “Mas se ninguém está disposto a negociá-lo, não serve.”

Moscou pode precisar olhar para o leste, para bancos centrais em países como Índia ou China para vender ouro ou garantir empréstimos com ele, explicou o sócio-gerente do CPM Group, Jeff Christian, que acompanha metais preciosos desde a década de 1970.

“Eles poderiam comprá-lo com desconto no mercado”, disse Christian em entrevista de Nova York. A Rússia também pode vender através da Bolsa de Ouro de Xangai, que tem bancos comerciais como membros, embora as vendas provavelmente sejam em pequenos volumes, disse ele.

Ainda assim, um movimento de um grupo bipartidário de senadores dos EUA, para dificultar ainda mais as transações de ouro, pode impedir bancos em lugares como China e Índia de comprar barras de ouro da Rússia ou fazer empréstimos garantidos pelo ouro russo – e Pequim quer evitar ser impactada pelas sanções dos EUA por causa da guerra. Isso está reduzindo ainda mais as opções da Rússia.

O Banco da Rússia não respondeu a um pedido de comentário.

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Tentativas passadas de recorrer ao ouro

Em outro exemplo de como o Ocidente está mirando o comércio de ouro da Rússia, a London Bullion Market Association e o CME Group retiraram as refinarias do país de suas listas credenciadas, o que equivale a uma proibição de entrada de novas barras de ouro vindas da Russia nos principais mercados de Londres e dos EUA.

Não é a primeira vez que a LBMA restringe o acesso dos países ao mercado antes. Depois de suspender a refinaria estatal do Quirguistão no ano passado, o país teve que perguntar à Suíça se uma de suas refinarias poderia processar ouro do Quirguistão para seu banco central, para que pudesse ser aceito no mercado global, contaram fontes familiarizadas com o assunto, que pediram para não serem identificadas.

Pelo menos uma refinaria suíça se recusou a fazê-lo por receio de ser penalizada pela LBMA, disse uma das fontes. O banco central do Quirguistão não comentou especificamente o assunto.

Outros países também recorreram ao ouro, ou pelo menos tentaram, ao enfrentar sanções. O ditador Muammar Kadafi vendeu uma parte das reservas da Líbia para pagar as tropas durante uma revolta, de acordo com o ex-presidente do banco central, Farhat Bengdara. E uma acusação dos EUA contra o Halkbank da Turquia, em 2019, descreveu como os fundos iranianos foram convertidos em ouro, exportados para Dubai e depois vendidos em dinheiro.

A Venezuela teve dificuldade em acessar seu ouro armazenado nos cofres do Banco da Inglaterra quando o Reino Unido reconheceu o líder da oposição Juan Guaidó como presidente. O BOE é um local popular para os bancos centrais manterem seus metais preciosos devido à sua localização no mercado de Londres.

O ex-presidente Hugo Chávez já havia repatriado grande parte do ouro da Venezuela. O ouro do Banco da Rússia é armazenado internamente, de acordo com seu relatório anual de 2020.

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Se a Rússia ficar desesperada, poderá vender barras de ouro no mercado interno para comprar rublos, disse o Citigroup. Se vendida a um preço fixo, isso equivaleria a um padrão-ouro interno.

“Se as coisas piorarem, pode-se basicamente voltar a ter um âncora em uma pilha de ouro”, disse o estrategista do Credit Suisse (CS), Zoltan Pozsar, no podcast Odd Lots da Bloomberg. “É preciso uma âncora em situações como essa.”

– Com a colaboração de Greg Ritchie, Yvonne Yue Li, Tracy Alloway, Joe Weisenthal, Nariman Gizitdinov e Áine Quinn.

– Esta notícia foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.

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