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As cidades que querem ser o próximo Vale do Silício na América Latina

O trabalho remoto impulsionou pólos de tecnologia e inovação fora das principais cidades da região, como São Paulo e Cidade do México

O hub de inovação no Recife, capital de Pernambuco, no Nordeste brasileiro. Arquivo Pessoal
09 de Março, 2022 | 08:28 am
Tempo de leitura: 18 minutos

País de dimensões continentais, por muito tempo a produção tecnológica no Brasil ficou restrita ao Estado de São Paulo. Agora, várias cidades disputam o rótulo de novo Vale do Silício. O próprio Vale do Silício, na Califórnia, agora divide o status de região da tecnologia com Miami. A pandemia também impulsionou novos hubs de tecnologia no Texas, onde, em Austin, a Tesla mantém sua sede.

No Brasil, as tentativas de replicar o Vale do Silício estão até no nome, desde o Vale do Pinhão, em Curitiba, até o San Pedro Valley, em Minas Gerais. Hubs fechados como o Cubo, do Itaú, em São Paulo, e a Base 27, no Espírito Santo, também fomentam o ecossistema de inovação brasileiro, junto de hubs abertos como o Porto Digital, no Recife, pólo de tecnologia no Nordeste do País.

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Segundo os executivos ouvidos pela Bloomberg Línea, a pandemia beneficiou esse movimento de descentralização dos hubs de inovação nas principais cidades da América Latina (São Paulo, Buenos Aires, Bogotá, Cidade do México) bem como a transformação digital das empresas, o trabalho remoto e a expansão do e-commerce. Há startups com sede em Córdoba, na Argentina, Medellín, na Colômbia, e outras cidades.

Mesmo assim, na Colômbia, a capital Bogotá ainda concentra a maior parte das startups (62%) e a maior parte dos investimentos (90%). Medellín foi promovida como uma cidade empreendedora, com a maior base de negócios, mas nem tanto para startups, embora seja sede de empresas como a Pibox.

Os pólos de tecnologia para além dos principais centros da América Latina. Arte por Bloomberg Líneadfd

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Os Vales do Silícios mexicanos: Guadalajara e Monterrey

O México se tornou um terreno fértil para o rápido crescimento de startups e a ascensão de empresas unicórnios e é agora o segundo maior mercado de startups da região, atrás do Brasil.

O empreendedorismo de inovação veio para atender aos desafios e necessidades específicas do país e oferecer soluções de mãos dadas com o ritmo tecnológico acelerado que fez proliferar o setor de fintech, em primeiro lugar, buscando aprimorar, automatizar e diversificar o uso de serviços financeiros.

Durante 2021, ano em que houve um boom de startups mexicanas, as empresas atraíram mais de US$ 5 bilhões em investimentos de capital privado, segundo dados da LAVCA, a Associação para Investimentos de Capital Privado na América Latina. Esse número representou um aumento de 128% em relação a 2020.

À medida que o capital de risco se expande, também crescem as startups que começaram a nascer fora da metrópole da Cidade do México, capital do país e onde se concentra a presença de grandes corporações.

Além da geografia do Templo Mayor, que já foi o grande Tenochtitlán, localizado no coração da cidade, existem duas cidades-chave que abrigam outro número significativo de startups: Guadalajara, no estado ocidental de Jalisco; e Monterrey, cidade fronteiriça localizada em Nuevo León.

O mapa global do centro de pesquisa StartupBlink diz que existem 232 startups na Cidade do México, contra 36 em Guadalajara e 46 em Monterrey.

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De acordo com o Finnovista Fintech Radar 2020, somente a Cidade do México concentrou 70% dos empreendimentos neste setor, Monterrey 11% e Guadalajara 7%.

Durante décadas, Guadalajara foi descrita como o “Vale do Silício Mexicano”, por se erguer como um importante centro de inovação no país, perseguindo a configuração de um grande cluster tecnológico de informação e digitalização.

A cidade de Guadalajara atrai talentos de diferentes partes do México, pessoas que vêm para desenvolver seus próprios empreendimentos ou para ingressar em empresas de tecnologia de alto nível como a IBM, que abriu caminho para aqueles que vieram depois, como a Oracle, a Intel, a HP, entre outros.

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Em Guadalajara, há mais de 30 centros de design e quatro centros de pesquisa tecnológica. Mais de 100.000 pessoas trabalham no setor de tecnologia da informação.

Em 2016, investimentos públicos e privados criaram o Ciudad Creativa Digital, um complexo de alta tecnologia, administrado pela Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas e Digitais de Jalisco, e que simboliza a liderança da cidade em inovação e alta tecnologia.

Além de grandes multinacionais, Guadalajara também abriga muitos empreendedores de tecnologia e startups. A cidade é o lugar ideal para localizar startups dos setores de fintech, social, lazer e e-commerce, segundo a StartupBlink. Entre as startups que vivem nesta cidade geek estão a Kueski, a Yotepresto, Mifiel, Indiefy, Linc, Contxto, EasyLex, Plesk, ReTweeti, digitt e WT.

O concorrente do norte é Monterrey, outra metrópole de forte crescimento que representa 10% do PIB do país, conhecida como a capital industrial do México e sede de grandes corporações como Cemex e Femsa. A gigante do software Wipro estabeleceu sua base latino-americana em Monterrey há 15 anos, e a Softtek e a Neoris também tem suas bases na cidade.

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A proximidade de Monterrey com os Estados Unidos cria um terreno com oportunidades para a troca de conhecimento, o que fortalece o espírito empreendedor. Hoje, grandes empresas de tecnologia como Amazon, Facebook, Microsoft, Apple e SAP têm uma base em Monterrey, de acordo com a Coderslink, uma plataforma profissional que conecta especialistas de tecnologia latino-americanos com equipes dos Estados Unidos.

A cidade também abriga o Monterrey Digital Hub, que abriu suas portas em 2018 como o primeiro campus de transformação digital do país que reúne empresas, empreendedores e principais atores digitais para criar uma comunidade para a transferência de aprendizado, experiências e transformação digital com um modelo de inovação corporativa aberta.

A iniciativa foi promovida por empresas como Alfa, Cemex, Deacero, Femsa, IBM, Neoris e instituições como a Universidade Autônoma de Nuevo León, o Tecnológico de Monterrey e a Universidade de Monterrey.

Em meio a essa aglutinação tecnológica, surge na cidade a ImpactHub, uma aceleradora com foco em impacto social para a América Latina, assim como a incubadora e aceleradora Startup México.

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“Monterrey é um lugar ideal para localizar startups de Educação, Fintech e Social & Lazer”, diz o Startupblink.

Startups como a Ruta Directa, Skydropx, pet n’GO, link ERP, Vinco, DIVERZA, Vitau, Blooders e Buho Contable tem suas bases em Monterrey.

Além disso, a cidade também abriga uma Startup Grind Community, uma organização global que nasceu no Vale do Silício em 2010 com o objetivo de conectar e capacitar o ecossistema empreendedor por meio de eventos com os principais players do ecossistema.

Curitiba

Lar de três dos 28 unicórnios no Brasil (EBANX, Madeira Madeira e Olist), Curitiba também tem seu pólo de inovação apoiado pela prefeitura, chamado de Vale do Pinhão.

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Tiago Dalvi, CEO do Olist, é um dos empreendedores que decidiu manter a estrutura da empresa em Curitiba mesmo depois de ter escalado os negócios. Ele disse que a ideia sempre foi manter o HQ na capital paranaense, porque “a estrutura é muito boa, tem alto nível educacional e excelentes faculdades”.

“Fomos provocados a mudar o HQ para São Paulo, mas entendemos que a rede que tínhamos em Curitiba nos ajudaria a recrutar os melhores talentos sem tanta competição nos três, quatro primeiros anos do negócio”, disse.

Dalvi afirma que o Brasil passa por uma transformação grande no setor de tecnologia e as empresas brasileiras com HQ no Brasil vão competir pelos melhores talentos em escala global, independentemente de qual cidade está localizada a sede.

“Ao mesmo tempo que vamos ver muitos novos pólos descentralizados como Curitiba, Florianópolis, BH, também veremos uma maior complexidade e competitividade para se construir negócios em escala global”, disse.

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Mas não são apenas as capitais que têm feito startups bem-sucedidas. A DB1, empresa de desenvolvimento de software com sede em Maringá, no Noroeste do Paraná, já visa a expansão para o mercado internacional, onde viu um crescimento de receita em 2021.

Rogério Gonçalves de Souza, diretor de Inovação do Grupo DB1, disse que a ideia sempre foi manter a sede em Maringá, já que os fundadores são da região. “Sempre tivemos a visão de mobilizar um desenvolvimento regional. Acreditamos que podemos construir algo muito grande a partir da nossa cidade”.

A empresa tem mais de 800 funcionários. Souza diz que Maringá tem um aspecto de um empresariado que nasce buscando o desenvolvimento da região.

“Maringá nasceu a partir de uma mentalidade cooperativista, de solidariedade, colaboração e união de forças para o bem comum, que vem dos fundadores da cidade. Não nos surpreendeu nossa cidade ser eleita a melhor cidade para se viver no país a partir dessa visão”.

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Souza atribui a chegada de investimentos, faculdades e aceleradoras à dedicação dos empreendedores. “Ficamos muito felizes em ser uma empresa de referência que gera oportunidades e viabiliza o crescimento profissional na nossa região”

O grupo através do DB1Labs realiza o lançamento de novos produtos criados internamente com o conceito de startups. A empresa criou a Koncili, Predize, Tinbot e a plataforma de vendas em marketplaces ANYMARKET.

“Existe ainda o envolvimento no ecossistema por meio de aceleradoras. É o caso da Evoa, primeira aceleradora do Brasil sem fins lucrativos, que possui uma coparticipação da DB1″, afirmou.

A Evoa, onde Souza atua como mentor, pretende acelerar startups em estágios iniciais. Desde 2017, o Evoa já acelerou 49 startups, que já ultrapassaram R$820 mil de faturamento mensal juntas.

O Sebrae local também ajuda com a capacitação e mentoria de startups que estão na fase de ideação. A DB1 participa ainda do grupo Maringá Capital, de investidores anjo.

“A DB1 também relaciona a permanência em Maringá com a busca por uma visão de se posicionar e ser referência como hub de inovação no Brasil”, disse Souza.

Recife

O Porto Digital de Recife, no Nordeste brasileiro, surgiu no final da década de 1990, mas foi implantado no final de 2000, como uma iniciativa da Universidade Federal de Pernambuco com o governo estadual e empresários. A ideia era montar um ambiente para que quem se formasse em tecnologia na universidade pudesse trabalhar.

O governo decidiu fazer do Porto Digital uma política pública com base no centro de Recife, como explica Pierre Lucena, presidente do Porto Digital. Em 2000, foi feita uma lei para que as empresas de tecnologia que se estabelecessem no bairro, área histórica de Recife, tivessem um desconto em impostos.

O governo de Pernambuco fez um aporte inicial de R$ 30 milhões para criar uma organização social, uma entidade não governamental sem fins lucrativos, que faria a gestão dessa política pública. E em 2000, o hub aberto passou a funcionar com duas empresas. Ao longo do tempo, o Porto Digital cresceu, e hoje tem mais de 350 organizações.

“É diferente de outros hubs de inovação, que normalmente são galpões, ou locais fechados. Aqui é o bairro todo”, diz Lucena.

O pólo tem parceria com as universidades, além de contar com uma faculdade própria de ciências da tecnologia. O Porto Digital também tem associações: duas incubadoras e quatro aceleradoras privadas de startups.

“Temos um monte de instrumentos para fazer com que as coisas aqui aconteçam. Recife é a cidade brasileira com a maior quantidade de tecnologia hoje. A gente tem uma máquina de alta qualidade que é a Universidade Federal de Pernambuco”, afirma.

Segundo Lucena, Recife tem 600 doutores em computação, 500 apenas da Universidade de Pernambuco. “Recife é a cidade brasileira hoje com a maior quantidade de tecnologia per capita no Brasil”, diz.

Aproximadamente 14 mil pessoas trabalham no parque, que apenas opera com empresas de software. “Hoje 100% dos smartphones do Brasil tem uma tecnologia daqui de Recife”. As empresas do Porto Digital têm clientes em todo o mundo, atendendo de Dubai a Londres.

Ainda assim, as empresas desejam ter bases em São Paulo, onde são feitos a maior parte dos negócios. Recife aposta em produto e no capital humano que falta em São Paulo.

Porto Alegre

Porto Alegre já é um pólo de tecnologia conhecido. A antiga estatal Ceitec (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada), que está na fila para ser liquidada pelo governo federal, produzia semicondutores na cidade desde 2008. Agora, a capital gaúcha quer ser referência também para as startups.

O South Summit, evento global de inovação, será realizado no Brasil pela primeira vez. Acontecerá em Porto Alegre, nos dias 4, 5 e 6 de maio, reunindo 300 palestrantes internacionais.

Segundo Thiago Ribeiro, diretor geral da edição brasileira do South Summit, a escolha pelo Rio Grande do Sul foi por conta do grande volume de startups per capita na capital gaúcha.

Para ele, grandes ecossistemas de inovação são formados por pilares como um governo com políticas públicas focadas, universidades com qualidade de pesquisa e mão de obra, parques tecnológicos, como o TecnoPuc, em Porto Alegre, além de startups, aceleradoras e unicórnios.

Salvador

A HRTech Intera nasceu em Salvador, capital da Bahia, mas, com a pandemia, a empresa desfez o escritório. Antes da Covid-19, a empresa de recrutamento atendia, em maioria, vagas presenciais para São Paulo, como Pedro Gil, da área de pessoas e cultura da Intera, explicou.

No pré-pandemia, Gil lembra que ao abrir uma vaga em Fortaleza ou em Salvador era muito mais difícil um profissional de São Paulo se mudar para a capital do Ceará ou da Bahia para trabalho presencial, então era mais fácil buscar talentos na região para aquela vaga.

“Pela lógica do mercado e como ele operava, a gente também direcionava as pessoas para São Paulo. Mas hoje, quando a gente vê a possibilidade de trabalho remoto, o time não se concentra em nenhum lugar e as tendências das empresas são essas, de expandir para todos os lugares”, afirmou.

Belo Horizonte

O Inter, um dos maiores bancos digitais do País, tem sua sede em Belo Horizonte. O unicórnio Hotmart também tem sede na capital de Minas Gerais, além de fazer parte do hub de San Pedro Valley, junto com a Sympla e a Méliuz.

Para Thiago Veloso, Head de Marketing da Crawly, startup de Belo Horizonte, os hubs de inovação descentralizados têm um papel muito significativo no crescimento do ecossistema. “Esses hubs fazem com que grandes empresas enxerguem startups como fornecedores de tecnologia e não como uma turma de meninos que estão ali construindo aplicativo”, disse.

Pólos descentralizados permitem que startups consigam ter acesso a empresas de todo o Brasil sem a necessidade de ter sede em alguma cidade específica, segundo Veloso. Ele explica que uma startup que tenta atingir uma grande empresa como cliente tem muito mais possibilidade de receber um “sim” se já tiver negócios com um hub de inovação.

“Isso tem acontecido bastante, principalmente com a gente”, disse.

Florianópolis

No Sul do País, Florianópolis tem um hub de startups e também é o local onde os nômades digitais escolhem trabalhar. Litorânea, a capital de Santa Catarina é a casa da RD Station, que foi comprada pela TOTVS por R$ 2 bilhões no ano passado.

Bruno Ghisi, fundador e CTO da RD Station diz que Florianópolis sempre foi a primeira opção para a startup. “Foi em Florianópolis que nos conhecemos, nos formamos e começamos nossa trajetória profissional e como empreendedores. Sempre acreditamos muito na qualidade da mão de obra na região, devido às universidades de Florianópolis e do entorno”, disse.

Ghisi diz que a cidade sempre atraiu muita gente pois consegue misturar natureza, segurança e infraestrutura, por isso acabou se tornando um dos principais celeiros tech do país. “Além disso, estamos a uma hora de voo até São Paulo, facilitando bastante quando é necessário realizar esse deslocamento”, complementou.

A Universidade Federal de Santa Catarina é forte no curso de Ciências da Computação, que é focado em B2B SaaS. Segundo Ghisi, Florianópolis também é uma cidade muito atrativa para se viver, e muitas pessoas do mercado de tecnologia passaram a enxergar a possibilidade de morar na ilha sem necessariamente trabalhar para uma empresa local.

“Este movimento foi positivo, pois uma maior concentração de pessoas com experiência em companhias de tecnologia que passaram por diferentes escalas faz com que o desenvolvimento do ecossistema seja acelerado”, disse.

Em julho de 2018, a RD abriu um escritório em São Paulo. Mas, com a digitalização impulsionada pela pandemia e a consolidação do trabalho remoto, a empresa decidiu deixar seu espaço físico na cidade. “Não existia mais a necessidade de manter o espaço em São Paulo. Hoje temos colaboradores vivendo por todo o Brasil e fora dele”.

Até a última década, os negócios em Florianópolis eram muito voltados ao turismo. A primeira incubadora do Brasil foi a Celta, criada em 1986 pela Fundação CERTI, com o objetivo de aproveitar os talentos da UFSC, conforme contou Ghisi.

“O reconhecimento dos cursos de Engenharia na UFSC como um dos melhores do país trouxe pessoas do Brasil todo para a ilha, que saíam com excelente formação, queriam continuar na cidade, mas não havia muitas opções de empresas para trabalhar”.

Empreender foi a solução para quem queria trabalhar com tecnologia na cidade e as soluções B2B se mostraram ser a aposta mais adequada, segundo Ghisi, já que não havia um mercado consumidor local muito forte. “Mas existiam várias iniciativas ligadas à pesquisa e inovação, em particular as capitaneadas pela Fundação CERTI”.

Segundo Ghisi, enquanto empresas eram criadas e outras chegavam à ilha para se posicionar a nível nacional como líderes, a percepção de que empresas fora do eixo Rio-São Paulo seriam concorrentes “menores” caiu por terra.

As empresas, que já não eram locais, passaram a se tornar atraentes para profissionais de grandes centros, multinacionais e investidores, como conta o CTO. “A migração de talentos de outras cidades e até de outros países para Florianópolis contribuiu para o desenvolvimento do conhecimento local e para a visão internacional na estratégia dos negócios”.

Essas empresas passaram a realizar eventos, como é o caso do RD Summit, referência para quem trabalha com marketing no País e que reúne, anualmente, mais de 12 mil pessoas na cidade. “Isso também fez com que Florianópolis fosse cada vez mais vista como importante pólo tecnológico. A junção de tudo isso chamou a atenção de fundos internacionais que investiram e seguem investindo nas empresas locais, anteriormente fora do radar dos grandes grupos”.

Agora, uma nova onda de startups SaaS se espalham por todo o estado de Santa Catarina, em cidades como Joinville, Brusque, Blumenau, Lages e Chapecó. Ghisi ressalta que em 2020 o setor de tecnologia catarinense teve o 6° maior faturamento do país, representando 6,1% do PIB do estado. “Entre todas as capitais do país, Florianópolis tem a maior densidade de empresas por mil habitantes”.

Iomani Engelmann é presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), gestora de iniciativas como a incubadora MIDITEC. A incubadora de empresas de base tecnológica, que tem apoio do Sebrae/SC, nasceu em 1998 e ajudou a desenvolver empresas como a RD, a Pixeon, Knewin e Arvus (hoje Hexagon). Mais de 130 startups já passaram pela MIDITEC. Segundo estimativa da ACATE, essas empresas faturaram R$ 1,5 bilhão e geraram 3 mil empregos em 2020.

Engelmann lembra que em 2015 foi inaugurado o Centro de inovação ACATE Primavera (CIA Primavera), em Florianópolis, onde fica a sede da associação, além de dezenas de empresas de tecnologia associadas, como o LinkLab - espaço de inovação aberta da entidade -, uma aceleradora, um espaço de coworking, um fundo de investimento, locais para eventos e uma infraestrutura de bares, restaurantes e empreendimentos de suporte para quem trabalha no local.

Em 2018, a prefeitura de Florianópolis e a ACATE criaram a Rede de Inovação Florianópolis, que engloba centros de inovação na capital catarinense para estimular a cultura de inovação e o empreendedorismo.

A ACATE também inaugurou, em parceria com o DEATEC (Polo Tecnológico do Oeste Catarinense), dois centros de inovação em Chapecó e está presente em todo o estado de Santa Catarina por meio de 10 pólos.

“A ACATE, que hoje reúne 1,5 mil empresas associadas, têm lançado iniciativas que englobam toda a jornada do empreendedor, desde criação de uma startup até empresas mais sólidas no mercado. Além disso, atuamos para termos um estado de inovação, não apenas regiões isoladas. Assim, Santa Catarina seguirá como exemplo para o país e muitas regiões no mundo como um ecossistema completo e inovador”, disse Engelmann.

SP ainda é onde está o dinheiro

O maior problema dos hubs descentralizados, segundo Ribeiro, é o acesso a capital. Embora startups tenham acesso aos fundos, o cheque grande é menos direcionado às cidades fora do eixo Rio-São Paulo, de acordo com o diretor.

“A gente acaba sendo vítima do nosso mercado interno ser bastante grande. Quando uma startup nasce em Israel, se ela não olhar para fora, ela não tem mercado. Mas quando a gente nasce no Brasil, isso é um pouco diferente, deixa a gente um pouco fechado”, disse.

A corretora Warren fez seu primeiro MVP (minimum viable product) nos Estados Unidos, mas decidiu começar a empresa pelo Brasil, em Porto Alegre, justamente para estar próximo dos universitários da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O CTO da Warren, André Gusmão, diz que para tecnologia não é importante ter uma sede no eixo Rio-São Paulo. Mas para a parte comercial, sim. Por isso, a startup tem um escritório em São Paulo, mas mantém a sede em Porto Alegre.

Agora, a startup está expandindo para Blumenau, no interior de Santa Catarina, onde criou um pólo de formação de desenvolvedores. O próximo passo será um centro tecnológico no Nordeste, disse Gusmão, que não revelou o estado ou a cidade.

“Vamos começar em março um programa de formação de desenvolvedores. A nossa ideia é chegar a 250 pessoas trabalhando em tecnologia na região de Blumenau”, disse.

Não é a primeira vez que a startup gaúcha procura desenvolvedores em terras catarinenses. A Warren já fez isso em Joinville e pretende agora avançar para o Nordeste do País para alcançar mais clientes.

“A gente entende que para conseguirmos entregar uma plataforma que entenda a dor do cliente, a gente precisa de um time mais diverso, e tem que estar em outra região, não podemos estar baseados só em uma região do País”.

(Colaboração de Daniel Salazar Castellanos)

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Isabela  Fleischmann

Isabela Fleischmann BR

Jornalista brasileira especializada na cobertura de tecnologia, inovação e startups

Imelda Vera

Imelda Vera

Comunicóloga y periodista mexicana con perspectiva de género. Fue Coeditora Web y Editora de portada en El Financiero. Conductora del serial sobre género 'La Tía Violeta'. Antes, cruzó las puertas de La Jornada. Autora del artículo: Periodismo digital como paradigma del consumo noticioso en México (X Congreso Ulepicc, Quito).

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