Internacional

Tensão escala após Putin afirmar que guerra na Ucrânia vai continuar

Além de ameaçar países que cogitaram proibir o tráfego aéreo sobre a Ucrânia, Rússia diz que só recuará após suas demandas serem atendidas

Governo russo esclareceu que seu objetivo é desmilitarizar a Ucrânia e destituir o governo atual
Por Marc Champion
07 de Março, 2022 | 01:22 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg — À medida que a invasão da Ucrânia pela Rússia se aproxima da marca de duas semanas, a situação parece escalar para ambos os lados, com implicações possivelmente catastróficas para civis ucranianos e maiores desafios para a defesa do país, que até agora se mostrou notavelmente bem-sucedida.

O presidente Vladimir Putin disse novamente que a guerra continuará até que a Ucrânia aceite suas demandas e interrompa a resistência, diminuindo as esperanças de negociação. Putin diz que a Ucrânia deve se “desmilitarizar” e deixou claro que seu objetivo é destituir o atual governo.

Em uma ligação com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, Putin também reafirmou que a “operação militar especial” que ele lançou na Ucrânia em 24 de fevereiro está saindo como planejado, segundo comunicado do Kremlin.

Outra tentativa fracassada no domingo de criar um corredor humanitário para cerca de 200 mil civis presos na cidade de Mariupol apenas ressaltou o desastre que está se desenrolando na Ucrânia. Em ambos os casos, a Ucrânia acusou as forças russas de violar uma trégua. As Nações Unidas disseram que mais de 1,5 milhão de pessoas fugiram do país desde o início das hostilidades.

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A Rússia disse na segunda-feira (7) que havia um novo acordo para um cessar-fogo temporário para permitir um corredor humanitário em várias cidades. O governo rapidamente contestou essa alegação.

O primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, conversou com Putin em Moscou no sábado (6), depois foi até Berlim para se reunir com o chanceler alemão Olaf Scholz. Bennett conversou novamente com Putin no domingo em meio a uma enxurrada de telefonemas de líderes para Putin e para o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy, em um esforço para diminuir o conflito que promete exigir altos custos para a Europa e a economia global, bem como para a Ucrânia e a Rússia.

O presidente francês Emmanuel Macron também conversou com o líder russo no domingo para discutir a segurança das usinas nucleares da Ucrânia.

Embora a Rússia tenha enviado quase todas as forças terrestres para o ataque à Ucrânia, o país foi prejudicado por seu planejamento e logística deficientes. Ainda assim, o país deve utilizar parte de suas capacidades de artilharia, guerra eletrônica, drones e aeronaves de combate.

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Durante uma pausa estratégica, as forças russas não fizeram novas grandes ofensivas durante grande parte do fim de semana, ao passo que os militares ucranianos lançaram contra-ataques perto da cidade de Kharkiv e de Mariupol, de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington.

Em seu relatório diário, a Rússia afirmou que provavelmente vai retomar grandes ataques russos a Kiev e Kharkiv, bem como Mykolayiv e possivelmente Odessa. O serviço de emergência estatal da Ucrânia disse na segunda-feira que áreas residenciais de Mykolayiv foram bombardeadas durante a noite, causando incêndios.

No domingo, o Ministério da Defesa da Ucrânia informou que oito mísseis atingiram Vinnytsia, cerca de 250 km a sudoeste da capital. Os moradores também fugiram de Irpin, um subúrbio de Kiev, quando este foi atacado por terra.

Depois de uma semana em que Putin elevou o estado de alerta de suas forças nucleares e suas tropas mostraram disposição para arriscar vazar radiação ao tomar usinas nucleares, o conflito só parece escalar para ambos os lados.

A Rússia tem usado cada vez mais armamento indiscriminado em suas tentativas de tomar Kharkiv e Mariupol, no que alguns analistas militares consideram um provável alerta para outras cidades não resistirem. O uso generalizado de artilharia e foguetes por parte um exército que possui o arsenal mais temível do mundo faria com que as baixas civis aumentassem. Também há provas do uso de bombas de fragmentação, proibidas pela maioria dos países em ambientes civis. Moscou afirma que visa apenas ativos militares.

Maior fluxo é para a Polôniadfd

No fim de semana, Putin alertou que qualquer tentativa de impedir o tráfego aéreo sobre a Ucrânia – como Zelenskiy pediu aos Estados Unidos e à Europa – seria vista como uma adesão ao conflito. Ele descreveu as sanções ocidentais como “semelhantes a uma declaração de guerra”, acrescentando “mas graças a Deus não chegou a esse ponto”.

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A Otan descartou a medida repetidamente, apesar dos apelos ucranianos, dizendo que o risco seria colocar as aeronaves da aliança em confronto direto com aviões russos e, assim, desencadear uma guerra mais ampla na Europa.

Ainda assim, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que o país está analisando se a Polônia poderia fornecer à Ucrânia mais aeronaves de combate.

Uma autoridade polonesa com conhecimento direto do assunto disse que isso só aconteceria se os EUA enviasse os caças para Varsóvia, acrescentando que o governo também estava cauteloso com qualquer ação que pudesse levá-lo a um conflito direto com Moscou. Enviar caças fabricados nos EUA para outros países é um processo que pode levar anos. Isso exigiria que os aviões fossem adaptados para a Polônia e seus pilotos treinados para pilotá-los.

Blinken também disse que os EUA estão discutindo com aliados maneiras de impor um embargo à compra de petróleo russo – importante componente das receitas orçamentárias russas – sem afetar os mercados globais de petróleo.

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Para a Rússia, sua campanha enfrentará riscos cada vez maiores se a resistência ucraniana continuar. A “exaustão” logística e operacional deve ocorrer dentro de três semanas, exigindo um grande reabastecimento das unidades russas, disse Michael Kofman, especialista em forças armadas russas no think tank de segurança de Washington CNA, em publicação no Twitter.

Em um webinar do West Point Modern War Institute, Kofman também disse que a operação russa inicial foi “caótica”. Em vez de seguir a doutrina e o treinamento, os comandantes russos dividiram suas forças em pequenos grupos para entrar em vilas e cidades que deveriam cair sem resistência.

Como resultado, as tropas tinham pouca artilharia, nenhuma cobertura aérea e ultrapassaram a capacidade das cadeias logísticas de se reabastecerem. Juntar tudo isso novamente para maximizar o poder militar russo levará tempo, de acordo com Kofman.

Ainda assim, ele advertiu contra considerar a campanha russa como um fracasso. “Está claro que esta guerra ficará muito mais feia e que o pior ainda está por vir”, disse Kofman.

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Blinken disse a repórteres na Lituânia na segunda-feira que a Rússia tem uma “força muito desproporcional em comparação com o que a Ucrânia tem, o país tem a capacidade de continuar esmagando os militares ucranianos”.

A Rússia deslocou 90% de suas forças terrestres disponíveis, de acordo com os EUA, mas tomou apenas uma pequena parte do território ucraniano.

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“Isso sugere que não há muita capacidade disponível para as partes ocidentais do país, que é onde as forças ucranianas, comandadas de Lviv, poderiam se reagrupar com suprimentos vindos da Polônia, Eslováquia e possivelmente da Hungria se Kiev caísse”, escreveu Lawrence Freedman, professor emérito de estudos de guerra no King’s College London, em uma publicação no domingo.

Outra dificuldade é o surgimento de vídeos de protestos nas poucas cidades que as tropas russas capturaram até agora, como Kherson e Konotop, que sugerem que manter o território exigirá recursos que a Rússia pode ter dificuldade em encontrar, de acordo com Freedman.

Considerando as falhas logísticas e operacionais iniciais que os militares russos agora estão enfrentando, além do gasto de cerca de US$ 1 bilhão por dia na guerra e com uma economia sob ataque de sanções sem precedentes, “o Kremlin deveria estar preocupado”, escreveu Freedman.

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--Com a colaboração de Piotr Skolimowski, Kateryna Choursina e Peter Martin.

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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