Internacional

Fake news sobre Rússia viraliza no Facebook e no Telegram

Nas redes, foram vídeos de um videogame se passando por ‘notícias urgentes’ e usuários incentivando fuga de militares da Ucrânia

Já no Facebook, vídeos de videogame eram descritos como ataques ao vivo na Ucrânia
Por Cecilia D'Anastasio e Jeff Stone
24 de Fevereiro, 2022 | 11:44 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg — As fake news sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia inundaram as conversas nas redes sociais, variando entre conspirações pró-Kremlin pelo Telegram e vídeos descritos como ataques ao vivo viralizando na plataforma de jogos do Facebook (FB), o Facebook Gaming.

Os principais vídeos no Facebook Gaming foram descritos como imagens de ataques ao vivo na Ucrânia pela Rússia, alguns tinham até banners vermelhos típicos das notícias urgentes. No entanto, os clipes eram na verdade gameplays do videogame com tema militar “Arma 3″. Enquanto isso, mais de 100 canais no aplicativo de mensagens Telegram – totalizando centenas de milhares de seguidores – foram inundados por publicações promovendo pontos de discussão do presidente russo Vladimir Putin enquanto suas tropas invadiam a Ucrânia.

Os vídeos do Facebook, assistidos por mais de 110 mil espectadores simultâneos e compartilhados mais de 25 mil vezes, foram retirados do ar depois que a Bloomberg News pediu que a proprietária do Facebook, a Meta Platforms (FBOK34), comentasse.

A Meta há muito luta para moderar notícias enganosas ou falsas, incluindo histórias sobre eleições e covid-19. Especialistas dizem que é mais desafiador moderar vídeos que textos – principalmente vídeos ao vivo, pois é difícil para a inteligência artificial analisar enquanto são reproduzidos.

PUBLICIDADE

“Em resposta ao conflito militar que se desenrola na Ucrânia, estabelecemos um Centro de Operações Especiais para responder em tempo real”, disse Nathaniel Gleicher, chefe de política de segurança da Meta, em seu perfil no Twitter, acrescentando que o centro terá falantes nativo em sua equipe.

Em resposta ao conflito militar que se desenrola na Ucrânia, estabelecemos um Centro de Operações Especiais para responder em tempo real. Equipe será composta por especialistas (incluindo falantes nativos) para que possamos monitorar de perto a situação e agir o mais rápido possível.

Lançado em 2018, o Facebook Gaming é a resposta da Meta ao Twitch, o popular serviço de transmissão ao vivo de jogos da Amazon.com (AMZN). Na quinta-feira, o serviço recebeu mais de 90 vídeos do “Arma 3″ com títulos que faziam referência à crise na Ucrânia – alguns dos quais ficaram no ar por até oito horas.

No início do dia, os cinco vídeos mais vistos do Facebook Gaming traziam uma versão do videogame de um ataque militar na Ucrânia. Alguns dos títulos dos vídeos, muitos dos quais estavam em árabe, diziam: “Caças da Rússia na Ucrânia” e “Cenas ao vivo do bombardeio russo à Ucrânia”.

PUBLICIDADE

A transmissão ao vivo com mais visualizações era na verdade um vídeo pré-gravado de um avião bombardeando uma costa no jogo “Arma 3″. 52 mil espectadores ao vivo assistiram ao vídeo. Na sala de bate-papo, o dono do canal, de apelido Naruto, pediu repetidamente aos espectadores que se inscrevessem.

Com um vídeo do “Arma 3″ em árabe com template de “últimas notícias”, o criador comentou que a transmissão ao vivo era “das fronteiras da Ucrânia” e foi documentada por um repórter.

“A Meta tem experiência suficiente para prever essas coisas, principalmente em cenários de crise como este”, disse Evelyn Douek, do Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard.

Outros sites de conteúdo gerado por usuários tiveram problemas semelhantes.

Embora o Telegram tenha surgido como uma importante fonte de notícias em tempo real sobre a invasão russa, incluindo relatos de funcionários do governo ucraniano, o aplicativo também recebeu críticas por desinformação. As publicações enviadas à Bloomberg News na quinta-feira relataram falsamente que a CIA passou anos treinando grupos pró-nazismo em práticas de terrorismo na Ucrânia.

Conversas em outro canal, com quase 400 mil inscritos, afirmou sem prova alguma que a polícia nacional ucraniana havia fornecido inteligência às forças militares russas. Usuários anônimos e bots suspeitos também promoveram notícias fabricadas incentivando militares ucranianos a fugir do país. O serviço tem centenas de milhões de usuários diários.

PUBLICIDADE

Uma mensagem incentivava os usuários a não se oporem a possíveis movimentos de tropas russas no leste da Ucrânia, dizendo: “você tem tempo para salvar sua vida e fugir”, de acordo com uma tradução para o inglês. Mensagens de texto enviadas por desconhecidos também buscaram ampliar a conscientização sobre protestos inautênticos, oferecendo dinheiro para pessoas dispostas a incendiar carros e quebrar janelas.

“Se você abrir os comentários, verá muito conteúdo horripilante, como cadáveres, tortura e algumas atrocidades”, disse Liubov Tsybulska, fundador do Centro de Comunicações Estratégicas e Segurança da Informação da Ucrânia. “O Telegram simplesmente não regula isso, e é algo muito perigoso”.

Em comunicado, a empresa disse que observou um aumento nas mensagens da Ucrânia e da Rússia à medida que o conflito escalava.

“Estamos vendo um aumento nas mensagens oficiais de ambos os lados do conflito, já que representantes e mídia da Rússia e a Ucrânia recorrem ao Telegram para manter seus cidadãos informados”, disse o porta-voz do Telegram, Remi Vaughn. “Estamos avaliando maneiras de garantir que nossa plataforma não seja usada como ferramenta militar e continue sendo um espaço neutro”.

PUBLICIDADE

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

PUBLICIDADE