Agro

Clima no Brasil começa influenciar preços internacionais dos grãos

Produção de milho no RS e de soja no Paraná está sendo castigada pela falta de chuvas

seca ameaça lavouras e já é esperada uma colheita melhor
06 de Janeiro, 2022 | 07:45 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Línea — O clima no Brasil já começa a influenciar os preços da soja e do milho no mercado internacional. Na bolsa de Chicago, o contrato do milho com vencimento em março de 2022 já acumula uma alta de praticamente 3,5% em 30 dias. Hoje, o papel subiu mais 0,17% e terminou o dia valendo US$ 6,03 por bushel. No caso da soja, o contrato março caiu hoje 1,7%, influenciado principalmente pelo mercado financeiro. Nos últimos 30 dias, no entanto, a valorização em Chicago já supera os 10%.

Os últimos dados das condições das lavouras de soja no Paraná mostram uma piora significativa. O relatório do Departamento de Economia Rural (Deral) mais recente indica que apenas 30% das áreas cultivadas encontram-se em boas condições. Há apenas uma semana, esse percentual era de 57%. No caso do milho a situação não é diferente. As áreas do cereal em boas condições passaram de 63% para 35% em apenas sete dias.

Os próprios dados do Deral mostram que a estiagem fez com que 2,5 milhões de toneladas de soja desaparecessem das lavouras do Paraná em apenas 30 dias e a estimativa de produção é que sejam colhidas 18,45 milhões de toneladas, 6,7% a menos que o ano passado.

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Contudo, as perdas podem ser ainda maiores. O próprio secretário de Agricultura do Paraná, Norberto Anacleto Ortigara, divulgou um vídeo há alguns dias reforçando que o Estado passa pela pior crise hídrica do último século. “Tínhamos a expectativa de recuperar o prejuízo do ano passado com uma safra 2021/22 cheia, mas o quadro climático fez a gente perder grande parte do esforço de produção. Por isso, estamos divulgando uma quebra de 37,8% na produção esperada de soja”, diz o secretário no vídeo.

Com isso, das mais de 21 milhões de toneladas de soja que o Paraná deveria colher neste ano, a expectativa é que a produção fique perto de 13 milhões de toneladas. A quebra representa um prejuízo superior a R$ 14 bilhões.

No Rio Grande do Sul, já é indicado pela Emater que haverá quebras significativas de produtividades nas lavouras de milho principalmente na região Oeste e Noroeste do estado, mas ainda não foram atualizadas as estimativas de produção. Nas regiões em que a colheita já foi iniciada (milho mais precoce) há produtores que colhem o cereal com finalidade de silagem para produção animal já que os níveis de produtividade observados têm sido baixos.

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A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) deve atualizar suas estimativas apenas na próxima semana. Enquanto isso, empresas privadas já estão informando suas novas perspectivas aos clientes, buscando se antecipar ao movimento e aproveitar as oportunidades do mercado.

Hoje, a filial brasileira da americana AgResource reduziu a estimativa para produção brasileira de soja 10 milhões de toneladas, para 131,04 milhões de toneladas. O volume é 7,08% ao previsto pela consultoria em novembro. “Ao contrário do que temos ouvido no mercado, achamos difícil que os ganhos de produção no Norte do Brasil sejam capazes de compensar a quebra no Sul do país. Estamos preocupados com a oferta latino-americana porque temos também a Argentina e o Paraguai com problemas climáticos. Aqui no Brasil, nosso receio é que esta seca se estender para a segunda safra do milho”, diz o diretor da AgResource Brasil, Raphael Mandarino.

Em seu relatório, o Itaú BBA diz que o período seco que tem acometido a região Sul já tem seus efeitos sentidos fortemente nas condições das lavouras de milho da região, que é responsável por cerca de 45% da produção nacional. O resultado é que os prêmios dos preços locais deverão voltar a aumentar sobre as paridades com a cotação internacional, o que deve seguir exercendo pressões sobre as agroindústrias que utilizam tal produto como insumos em seus processos de produção.

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“A consequência dessa situação é que a acomodação dos preços que era esperada para acontecer ainda no primeiro semestre deverá ficar para o segundo. O alívio de preços para as indústrias de ração que era esperado para acontecer mais cedo este ano, não ocorrerá”, afirma César Castro, especialista em agronegócio do Itaú BBA.

Para o executivo, a indústria de aves tende a reduzir sua produção para tentar preservar as margens, uma vez que as cotações do frango no mercado doméstico e internacional seguem em queda. No caso dos suínos, reduzir a oferta já não é tão simples por conta do ciclo de produção mais longo e ajustes são mais difíceis. A saída para o setor seria aumentar as exportações, que encerraram 2021 com embarques de 1,13 milhão de toneladas, volume 11% superior a 2020.

Alexandre Inacio

Alexandre Inacio

Jornalista brasileiro, com mais de 20 anos de carreira, editor da Bloomberg Línea. Com passagens pela Gazeta Mercantil, Broadcast (Agência Estado) e Valor Econômico, também atuou como chefe de comunicação de multinacionais, órgãos públicos e como consultor de inteligência de mercado de commodities.

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