Agro

Carne brasileira sofre ataque nos Estados Unidos

Lobistas americanos alegam falta de transparência, levantam dúvidas sobre segurança sanitária do produto do Brasil e querem que governo Biden suspenda as importações

Tom Vilsack, secretário de Agricultura dos Estados Unidos, recebeu pedido de grupo de produtores para suspender importações de carne do Brasil
18 de Novembro, 2021 | 04:04 pm
Tempo de leitura: 2 minutos

Bloomberg Línea — Depois de os frigoríficos brasileiros terem ficado impedidos de exportar carne bovina para a China, até então maior destino dos embarques nacionais, as indústrias correm o risco perderem acesso a mais um importante mercado. O governo dos Estados Unidos, que se tornou o segundo maior mercado para a carne brasileira após o embargo chinês, está sendo pressionado por produtores locais para suspender as importações do Brasil.

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A National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), uma das mais importantes associações de produtores dos Estados Unidos, enviou um pedido formal ao secretário de agricultura americano, Tom Vilsack, para que as importações de carne bovina do Brasil sejam imediatamente suspensas. Em uma dura carta ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a entidade pede que as restrições sejam impostas até que seja realizada uma completa análise de risco e revisado o processo que o Ministério da Agricultura brasileiro adota para detectar doenças e outras ameaças aos consumidores.

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Uma restrição da carne brasileira ao mercado americano seria mais um duro golpe após a suspensão das vendas para a China. Isso porque, em outubro, os Estados Unidos importaram 8,84 mil toneladas de carne brasileira, volume duas vezes maior que o adquirido no mesmo período do ano passado. Desde janeiro deste ano, os embarques para o mercado americano seguem uma trajetória ascendente mês a mês, de tal forma que os Estados Unidos se tornaram o segundo maior destino do produto nacional após as restrições chinesas.

É hora de manter a carne fresca brasileira fora deste país até que o USDA possa confirmar que o Brasil atende aos mesmos padrões de consumo e segurança alimentar que aplicamos a todos os nossos parceiros comerciais”, disse o vice-presidente de Assuntos Governamentais da NCBA, Ethan Lane. O executivo lembra que há tempos a entidade vem chamando a atenção do USDA sobre a preocupação com a demora do governo brasileiro em relatar casos atípicos de BSE (vaca louca).

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Seu histórico ruim e falta de transparência levantam sérias dúvidas sobre a capacidade do Brasil de produzir gado e carne bovina em um nível de segurança equivalente ao dos produtores americanos. Se eles não puderem cumprir essa barreira, seu produto não terá lugar aqui”, disse Lane.

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Na carta enviada ao governo americano, a NCBA lembra que relatórios da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), indicam que o Brasil demorou mais de oito semanas para relatar os dois casos de ‘vaca louca’ deste ano. A exigência da OIE é que os países membros notifiquem em 24 horas qualquer evento de doença animal que possa ser de preocupação internacional para emergências de saúde pública.

Carne americana na China

Além de entrar em uma disputa para evitar a entrada da carne brasileira nos Estados Unidos, os produtores e a indústria americana estão se aproveitando da ausência do Brasil no mercado chinês. Segundo a Bloomberg News, os frigoríficos americanos venderam volumes recordes de carne bovina à China na semana passada, já que a proibição das importações brasileiras pelo país asiático alterou o fluxo típico. Os embarques dos Estados Unidos têm aumentado desde que a China suspendeu as compras no início de setembro devido à detecção de dois casos da doença da vaca louca. Antes da proibição, o Brasil era o principal fornecedor de carne bovina da China.

(Atualizado em 3/1/2022 com link para notícia sobre política comercial dos EUA)

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Alexandre Inacio

Alexandre Inacio

Jornalista brasileiro, com mais de 20 anos de carreira, editor da Bloomberg Línea. Com passagens pela Gazeta Mercantil, Broadcast (Agência Estado) e Valor Econômico, também atuou como chefe de comunicação de multinacionais, órgãos públicos e como consultor de inteligência de mercado de commodities.

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