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Estilo de vida

Lisboa, a Miami europeia dos brasileiros

Brasileiros endinheirados buscam o país europeu pela facilidade do idioma, concessão de visto e por benefícios fiscais

Tempo de leitura: 5 minutos

Barcelona, Espanha — Portugal está se convertendo no “plano B” de muitos brasileiros desencantados pela situação socioeconômica de seu país de origem. Investimentos milionários têm sido direcionados ao país lusitano, com destaque para o ramo imobiliário. E as instituições financeiras, atentas a este movimento, têm criado estruturas de negócio para conquistar este público mais endinheirado.

Os brasileiros constituem a maior comunidade estrangeira residente em Portugal, representando 27,8% do total em 2020 – a maior marca desde 2012, de acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. A diferença no perfil migratório dos últimos anos está no poder aquisitivo.

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A concessão de vistos de residência e os benefícios fiscais têm atraído brasileiros com capacidade, por exemplo, investir pelo menos 350 mil euros em fundos de capital de risco, 500 mil euros em imóveis ou de transferir ao país no mínimo 1 milhão de euros. As regras mudam a partir de janeiro e tanto o investimento em fundos como a transferência de capital sobem para, respectivamente, 500 mil euros e 1,5 milhão de euros. O valor para a compra de imóveis permanecerá o mesmo, mas já não valerão as compras de residências no litoral, Lisboa ou Porto, uma tentativa de conter a especulação imobiliária.

O sonho da casa própria... em Portugal

Em Portugal, o investimento no mercado imobiliário é a estrela – e isso inclui, além de terrenos e edifícios, fundos com lastro em imóveis. Segundo João Santos Pinto, sócio da CVSP Advogados, seus clientes têm um perfil mais conservador e procuram casas de alto padrão, de valor superior a 1 milhão de euros. Os brasileiros representam 30% de sua base de clientes, que cresceu nada menos que 50% este ano.

O advogado Luiz Augusto Teixeira de Freitas, da TFRA, afirma que desde 2012 já tramitou cerca de 400 processos de Golden Visa, ou visto de empreendedor, que oferece a residência a investidores estrangeiros em Portugal. Mas boa parte destes pedidos se concentra nos últimos dois anos, motivada pela situação de incerteza e insegurança no Brasil. “Estamos fechando um trâmite novo de Golden Visa por semana, embora a maioria das pessoas que recebem o visto não tem intenção de se mudar agora. É mais um seguro de vida, um plano B”, diz.

Além de o investimento em Portugal representar uma porta de entrada à Europa, fundos de venture capital e private equity no continente estão descontados em relação aos dos Estados Unidos, comenta João Cesar Tourinho, sócio da Gow Capital, empresa que presta assessoria a fundos que dão direito ao visto de residência. “Além disso, para quem quer montar um negócio, Portugal tem uma mão de obra de ótima qualidade, um baixo custo de vida e empreendedores das mais diversas nacionalidades”, comenta.

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“Está havendo uma espécie de contra colonização, em que o capital do Brasil vem sendo direcionado a Portugal pela centralidade e segurança do país”, afirma José Manuel Diogo, CEO da Informacion Capital, que presta assessoria tributária, de investimentos e até se encarrega de serviços como mudança e de matrículas escolares. “Somos como uma governanta que cuida do cofre e dá conselhos sobre como usar o dinheiro”, resume. A empresa administra em torno de 140 milhões de euros de terceiros, com mais de 20 clientes. Cerca de 70% desta carteira vem de brasileiros e de outros investidores da América Latina.

Todos querem um pedaço do bolo

A onda de investimentos de brasileiros em Portugal abriu um grande filão para as instituições financeiras, que estão criando estruturas de atendimento dedicadas a este perfil de cliente.

Quando percebeu que o fluxo de brasileiros investindo e se domiciliando em Portugal estava grande, o Itaú BBA decidiu reestabelecer sua licença para operar no país. O Brexit também contribuiu para a transferência do banco da Inglaterra a terras lusitanas, que agora tem cerca de 100 empregados, contra 60 pessoas no começo do ano passado. “Ativamos a licença para prestar serviços de aconselhamento financeiro, com foco no não-residente ou quem ainda está chegando. Hoje, a parte internacional do private banking já representa mais de 25% do segmento de grandes fortunas do banco”, conta o diretor comercial Itaú Private Bank em Lisboa, Luiz Estrada.

O Bradesco também não quer ficar de fora e diz que não só percebeu o interesse, como tem incentivado os clientes “ultrahigh” – famílias com patrimônio superior a R$ 80 milhões - a diversificarem seus investimentos na Europa, com destaque para Portugal pelos seus benefícios fiscais. Os clientes com interesse em Portugal são atendidos hoje via agência de Luxemburgo, cujas contas de private banking cresceram 25% em dois anos. No mesmo intervalo, os recursos administrados subiram cerca de 30% e o número de empregados triplicou. Segundo Augusto Ramalho Miranda, diretor do Bradesco Private Banking, “apesar de ser um mercado crescente e com grande potencial, Portugal é ainda pequeno e os estrangeiros acabam deixando boa parte do dinheiro em outros países europeus”.

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A XP investimentos, que atua na Suíça através da Sartus Capital, tem dado suporte a investidores internacionais com interesse em Portugal. O BTG também botou um pé no país lusitano para aproveitar essa onda, assim como o Santander, que criou um centro de atendimento para clientes estrangeiros e para portugueses não residentes em Portugal.

A gestora SPX Capital está convicta que Portugal é um bom ativo. Depois de adquirir por 95,4 milhões de euros o complexo turístico-residencial The Keys, a empresa comprou dois lotes na Quinta do Lago, no Algarve para promover um empreendimento imobiliário. A empreitada no Algarve será financiada com recursos levantados por um fundo imobiliário.

Fazendo o gosto dos clientes

As construtoras em Portugal já estão se adaptando ao gosto do brasileiro. Suítes em todos os quartos, condomínios com vários serviços, churrasqueira e até uma singularidade que tanto choca os europeus: a combinação dois elevadores + quartinho de empregada. Tudo para contentar o freguês brasileiro.

Outra particularidade dos clientes brasileiros, segundo Joaquim Lico, fundador da Vogue Homes, é a procura por residências de grandes dimensões. “A metragem média dos apartamentos procurados é entre 250 e 300 metros quadrados, o que é grande para Portugal, mas para o Brasil é pequeno”, explica. Um apartamento desta natureza custa, aproximadamente, 1,7 milhão de euros.

Entre 15% e 20% dos clientes da Vogue Homes, que só trabalha com imóveis de alto padrão, é composta por brasileiros – o que representa um incremento de aproximadamente 20 milhões de euros frente à posição de dois anos atrás, quando este público representava apenas 4% da carteira da empresa. “Recentemente, vendemos um edifício de dez andares todo para brasileiros.”

A empresa está construindo um eco resort no Litoral Alentejano, região bem natural e resguardada onde celebridades como George Clooney têm imóveis. A incorporadora construirá 230 casas em um espaço de 170 hectares. Nenhuma casa será igual à outra e terão valor de 500 mil euros (110m2) a 2,5 milhões de euros (450m2). Ao que tudo indica, os clientes brasileiros de alto padrão já devem estar fazendo fila.

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Michelly Teixeira

Michelly Teixeira

Jornalista com mais de 20 anos como editora e repórter. Em seus 11 anos de Espanha, trabalhou na Radio Nacional de España (RNE) e colaborou com a agência de REDD Intelligence. Passou por importantes veículos do Brasil (Valor, Agência Estado e Gazeta Mercantil). Tem um MBA em Finanças e é posgraduada em Marketing pela ESIC Business School.