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Bloomberg Opinion — A queda na relevância do Facebook entre os adolescentes é realmente uma ameaça à existência da empresa? Afinal, os usuários mais fieis do Facebook têm mais de 30 anos, e os adolescentes de hoje terão 30 anos amanhã; se não começarem a usar o Facebook na juventude, não há garantias de que o farão posteriormente.

Contudo, atualmente o Facebook tem um propósito diferente de uma década atrás, e os possíveis concorrentes, como Snapchat e TikTok não estão bem posicionados para ameaçar a dominância da rede social sobre usuários mais velhos. Para tanto, estes provavelmente terão de mudar drasticamente seus produtos para se parecerem mais com o Facebook, talvez desagradando sua base de jovens.

Os motivos pelos quais os adolescentes consideram o Facebook sem graça também explicam por que os usuários mais velhos o consideram essencial: a rede se tornou um hub essencial de notícias, políticas e grupos com interesses em comum. Estou na Comissão de Planejamento da minha cidade e, quando fizemos reuniões virtuais durante o início da pandemia, uma das maneiras de fazer isso foi transmitindo nossas sessões ao vivo no Facebook. Autoridades locais e departamentos do governo municipal publicam notícias e atualizações. Minha esposa faz parte de vários grupos locais de mães, nos quais ela compra e vende roupas para crianças e brinquedos. É um lugar onde as comunidades publicam avisos de eventos e outras reuniões sociais. Geralmente é apenas um grande aglomerado de coisas relevantes para pessoas mais velhas que seria difícil para outra empresa desmembrar.

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Imagine o TikTok tentando obter parte dessa participação de mercado do Facebook – como seria para um governo local publicar uma mensagem dizendo que entende a frustração dos cidadãos sobre a falta de coleta consistente de lixo, mas que está trabalhando para resolver o problema? Os governos locais considerariam o TikTok a plataforma certa para esse tipo de mensagem? Ser uma plataforma extravagante para adolescentes significa que você se torna uma plataforma menos adequada para outros usuários – é o contrário da situação que o Facebook enfrenta o Facebook para recrutar adolescentes por ter a reputação de ser o site preferido dos mais velhos.

Na conferência de apresentação de resultados da empresa esta semana, o fundador e CEO Mark Zuckerberg reconheceu a impopularidade do Facebook entre usuários mais jovens e prometeu que os executivos “priorizariam o público jovem em vez de otimizar a plataforma para o amplo público mais velho”. Esses usuários mais velhos estão tão conectados à plataforma que a empresa provavelmente não teria problemas ao proporcioná-los uma experiência que não se adequa a eles tão bem quanto o modelo atual. Resta saber se o Facebook pode superar todos os desafios que enfrenta com adolescentes e jovens adultos.

Mesmo que mantenha seus usuários mais velhos enquanto batalha para atrair os mais jovens, a empresa corre o risco de alienar alguns anunciantes. As empresas que vendem bens e serviços relacionados à moradia, seguros e produtos de saúde podem continuar patrocinando o Facebook, mas aquelas que buscam adolescentes e jovens continuarão preferindo as plataformas que já provaram ser populares entre esse público.

Uma possível analogia para o que está acontecendo nas redes sociais pode ser o mundo da televisão aberta: o Facebook dominou tudo, assim como a televisão a cabo, enquanto as várias novas plataformas conquistaram diferentes nichos demográficos. Talvez o Snapchat e o TikTok sejam como a MTV, e o Facebook seja como um canal de notícias. Pode não ser tão divertido ser um canal de notícias, mas é indiscutivelmente um negócio mais estável no longo prazo. Os mais velhos vão continuar por aqui e sempre estarão interessados em notícias e política. Já a cultura dos jovens sempre será frágil, haja vista a ascensão e a queda da MTV.

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A questão é se alguém pode ameaçar o status do Facebook como centro da vida cívica e comunitária on-line. As plataformas com foco em jovens vão ter dificuldades para conquistar os usuários mais velhos sem afastar os mais jovens e também podem ter problemas para obter o apoio de usuários institucionais, como governos locais que já estão vinculados ao Facebook. Um site como o Reddit, com uma base de usuários obstinados composta por pessoas com interesses de nicho, pode sofrer para conquistar usuários “regulares” que desejam uma experiência de mídia social mais generalizada e descontraída.

O Facebook pode nunca voltar a ser tudo para as pessoas, e é razoável pensar que a rede social perdeu para sempre a cultura jovem definidora de tendências para outras plataformas, mas o que ela mantém é poderoso e não será tão fácil transportar isso para outro lugar.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Conor Sen é colunista da Bloomberg Opinion e fundador da Peachtree Creek Investments Ele já contribuiu para a The Atlantic e para o Business Insider e reside em Atlanta.