Bloomberg — A crise de abastecimento da economia global acelera a inflação em um ritmo tão rápido que bancos centrais podem ser obrigados a responder, embora resolver esse desequilíbrio esteja além do poder das autoridades monetárias.
O dilema está em identificar o quanto da inflação está sendo impulsionado pela recuperação da demanda com o fim das restrições da pandemia e quanto por crises de oferta causadas por portos congestionados e escassez de matérias-primas e trabalhadores.
Juros mais altos agora poderiam esfriar a demanda que resgatou os países da recessão do ano passado, mas aliviarão pouco os gargalos de oferta. Se a escassez diminuir com a normalização do comércio, os juros podem terminar muito altos e estrangular a recuperação.
Mas, se os bancos centrais evitarem aumentar as taxas e a crise de oferta persistir, isso poderá consolidar expectativas de inflação mais alta, levando consumidores e empresas a empurrarem salários e preços para cima. Nesse cenário, bancos centrais podem posteriormente serem forçados a pisar no freio com ainda mais força.
“Tentar descobrir a diferença entre os fatores da demanda e da oferta agora é incrivelmente difícil”, afirmou Stephen King, consultor econômico sênior do HSBC, em entrevista à Bloomberg Television. “A maioria dos bancos centrais provavelmente admitiria pelo menos nos bastidores que a inflação está muito mais alta do que esperavam inicialmente. Podemos ver por que alguns deles estão roendo as unhas e cada vez mais nervosos.”
‘Tem que agir’
Globalmente, os preços ao consumidor subiram mais de 4% nos últimos 12 meses, com a inflação que exclui alimentos e energia no nível mais alto na última década, de acordo com o JPMorgan Chase.
No Reino Unido, onde a inflação pode atingir o dobro da meta do Banco da Inglaterra este ano, o presidente do BOE, Andrew Bailey, alertou no domingo que o banco central “terá que agir”, embora tenha repetidamente destacado os limites do que bancos centrais podem fazer.
O Federal Reserve não deve entrar nesse clube tão cedo, mas pode dar sinal verde no próximo mês para reduzir seu programa de compras de ativos de US$ 120 bilhões por mês. Embora o presidente do Fed, Jerome Powell, queira desvincular esse passo de qualquer aumento das taxas, outras autoridades pressionam pelo fim antecipado das compras de títulos, de modo que o banco central dos EUA tenha margem de manobra para subir os juros, se necessário, no segundo semestre de 2022.
Transitória
No geral, o Fed tem mantido sua visão de que fatores transitórios são em grande parte os culpados pela inflação elevada. Mas, na reunião de setembro, membros do Fed viram os riscos decididamente inclinados para cima. Investidores agora precificam aumentos dos juros de 0,25 ponto percentual no próximo ano.
Greg Peters, chefe de multissetorial e estratégia da PGIM Fixed Income, questiona o quanto o Fed poderia fazer para controlar a inflação decorrente do abalo das cadeias de suprimento provocado pela pandemia.
“Não estou convencido de que o Fed tenha qualquer controle sobre essas questões”, disse em entrevista em 15 de outubro à Bloomberg Television.
O Banco Central Europeu parece determinado a continuar a apoiar a recuperação, influenciado em parte por seu próprio histórico de reação exagerada aos sinais de inflação: o BCE aumentou os juros em 2008 e 2011 antes de ter que reverter a estratégia conforme a economia se desacelerava. A presidente do BCE, Christine Lagarde, disse no sábado que o atual avanço da inflação não deve durar.
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