Hora de voltar? Neurocientista fala sobre principais dificuldades do escritório híbrido

Com o fim das restrições da pandemia, colaboradores e líderes estudam alternativas para o mundo corporativo pós-home office

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São Paulo — Se precisasse trabalhar presencialmente do escritório, Ana Fontes*, 24 anos, provavelmente não teria aceito o emprego no setor de RH da multinacional em que começou a trabalhar no início deste ano. Residente de Recife (PE), ela teria que levantar às 5h e viajar por quase duas horas até a planta da companhia, no interior do estado, para depois retornar e parar em um ponto de ônibus longe de casa.

Por conta da pandemia de Covid-19 e das restrições de distanciamento social, ela entrou diretamente em um sistema híbrido, em que parte da equipe pode ir ao escritório alguns dias da semana, se necessário, enquanto o restante trabalha de casa. E, por enquanto, ela conta, não há sinais de que o regime deve retornar totalmente ao trabalho presencial.

  • Segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 23 milhões de pessoas trabalharam remotamente na América Latina no segundo semestre de 2020
  • Embora em queda desde então, os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que, entre os assalariados brasileiros, o pico de trabalho remoto foi de 16% entre abril e junho do ano passado
  • Empresas de tecnologia como a Qintess seguem oferecendo vagas para trabalhos remotos, enquanto outras, como o QuintoAndar, anunciaram que ficarão sob um regime misto
  • Enquanto isso, um relatório sobre imigração na América Latina da Fragomen mostra os países da América Latina que implementaram um visto especial ou programa para nômades digitais

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POR QUE ISSO É IMPORTANTE? “Quando a pandemia começou, ninguém sabia como se portar no home office, e isso acabou se traduzindo em ansiedade e frustração para muitas pessoas”, diz Thaís Gameiro, neurocientista e sócia-fundadora da Nêmesis, empresa de consultoria corporativa na área de Neurociência Organizacional.

Segundo ela, as maiores reclamações vindas dos colaboradores no último um ano e meio foram relacionadas a reuniões infinitas, à mistura entre rotina pessoal e trabalho e à falta de um espaço isolado do restante da casa para a concentração nas atividades corporativas e de estudo.

Agora, no entanto, passado o susto inicial, a apreensão é outra: a volta ao escritório e como essa nova mudança de rotina irá se refletir no desempenho e interesse dos profissionais na hora de buscar um emprego.

Modelo híbrido

Uma nota técnica da OIT divulgada em meados de julho apontou que entre 20% e 30% das pessoas assalariadas na América Latina trabalharam de casa durante as medidas de isolamento social implementadas pelos governos da região. Antes da pandemia, esse número era inferior a 3%.

No Brasil, segundo o IBGE, a porcentagem foi menor, mas ainda atingiu 8,8 milhões de brasileiros no pico, em julho de 2020 - isso considerando que a maioria tinha nível de instrução superior completo ou pós-graduação.

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Com isso, o modelo de home office, antes pouco praticado no país, entrou nas rodas de debate das empresas, com colaboradores e gestores divididos entre as vantagens e desvantagens da experiência.

Agora, à medida em que a pandemia chega ao fim, os que foram favoráveis ao novo regime devem levar a possibilidade de trabalho remoto em consideração na hora de escolher permanecer em uma companhia, analisa Gameiro. Só que, segundo ela, a solução de sistema híbrido adotada por algumas pode trazer desafios maiores do que manter toda a equipe em home office.

“Esse sistema é novo para nós. As figuras de liderança precisarão aprender a como manter a cultura da empresa e a integrar a equipe, ao mesmo tempo em que prezam pela saúde e bem-estar dos colaboradores”

Thaís Gameiro, neurocientista e sócia-fundadora da Nêmesis

Uma pesquisa realizada pelo Google Workspace Brasil com gestores e colaboradores em maio de 2021 apontou que 44% dos 897 respondentes gostariam de escolher o modelo híbrido de trabalho, contra 29% que preferem o presencial e 27% que escolheriam unicamente o remoto.

Dentre as preferências dos que querem trabalhar de casa estão o menor tempo de deslocamento ao trabalho e a flexibilidade de horários, contra a interação com colegas no café e no almoço e as reuniões presenciais dos que preferem trabalhar do escritório.

Incentivos na América Latina

Segundo o Relatório de Imigração na América Latina do segundo e terceiro trimestres deste ano da Fragomen, mais antiga empresa de imigração do mundo, pelo menos 10 países da região da América Latina implementaram um visto especial ou programa para nômades digitais no contexto da queda do turismo devido à pandemia.

De acordo com o estudo, países como Argentina, Colômbia, Costa Rica e Panamá facilitaram a aplicação e preveem benefícios para estrangeiros que investirem em propriedades, em títulos do governo ou em outros tipos de investimentos locais, e também para aqueles que buscam a residência temporária, mas têm vínculo empregatício no país de origem, os chamados de nômades digitais. Já o Brasil não apresentou nenhuma nova iniciativa nesse sentido.

“Ao mesmo tempo que começamos a ver a redução das restrições de entrada e os requisitos de quarentena nas fronteiras para combate à Covid-19, observamos uma agenda para recuperação econômica a partir da imigração, tirando proveito inclusive de novas tendências do mercado financeiro, como as pautas de ESG, e do mercado de trabalho, como o modelo remoto”.

Diana Quintas, sócia da Fragomen no Brasil

O que acontece agora?

A Qintess, empresa brasileira de tecnologia, abriu 30 vagas no início de junho para atendimento de empresas norte-americanas e europeias e outras 700 para atuação no mercado interno. Todas com possibilidade de trabalho híbrido, a escolha do colaborador.

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Jaider Ramos, diretor operacional para as Américas na empresa, explica que a maioria das vagas para atender clientes de fora são para desenvolvedores e programadores que podem trabalhar remotamente ou em qualquer escritório da companhia, com abertura para profissionais de todo o país. Ele observa que o regime é importante para quem sonha em trabalhar fora do Brasil eventualmente.

“Aos que realmente gostariam de se lançar numa aventura profissional internacional, a experiência de começar essa jornada de casa, além de abrir mais portas para que uma mudança física se concretize num futuro próximo, é uma rota mais conservadora e segura antes de dar o grande passo”, diz.

Já o QuintoAndar, plataforma digital para aluguel e venda de imóveis, abriu 200 vagas abertas, com processo seletivo remoto e possibilidade de regime híbrido de trabalho que, segundo a empresa, deve ser mantido mesmo com o final das restrições da pandemia.

Para Gameiro, essa flexibilidade é um propulsor grande de retenção de talentos, fora a oportunidade de conversar com outros colaboradores não só do Brasil, mas do mundo inteiro, usando as plataformas de comunicação.

*Nome alterado a pedido da entrevistada

--Com colaboração de Sérgio Ripardo

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