Mujica: ‘Não há nada que faça os jovens apaixonarem-se. E a culpa não é deles’

Em entrevista à Bloomberg Línea, o ex-presidente uruguaio José Mujica falou sobre a crise de representatividade e uma característica regional: caudilhos tentando substituir o jogo democrático

O líder político uruguaio fazia parte do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros e passou quase quinze anos na prisão durante a ditadura no país.
13 de Setembro, 2021 | 04:28 pm
Tempo de leitura: 9 minutos

Bogotá — Em entrevista à Bloomberg Línea, o ex-presidente uruguaio e líder político José Mujica falou sobre a “crise da democracia”, a desesperança dos jovens, o processo de paz na Colômbia que “foi amputado” e o legado que deseja deixar.

Longe das redes sociais (ele não está em nenhuma delas), celulares, videochamadas e barulho, Mujica, de 86 anos, prefere fazer a entrevista pelo telefone fixo que toca na tranquilidade de sua fazenda localizada na zona rural de Montevidéu. De lá, ele analisa com perspicácia as bifurcações da história, da política e da economia que conduziram a América Latina a um labirinto do qual ainda não saiu e o qual ele mesmo testemunhou como líder político.

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Em meio à atual crise econômica da região e aos recentes protestos em países como o Chile e a Colômbia, Mujica considerou que a política não está “à altura do que as pessoas estão pedindo”, o que, por sua vez, está “longe de se conformar com a estagnação diante da pobreza e da desigualdade que assola a América Latina em meio a uma crise da democracia”.

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Há uma crise na área do trabalho, e as pessoas estão longe de se conformar com a estagnação diante da pobreza, porque são submetidas a um bombardeio que, culturalmente, significa confundir ‘ser’ com ‘ter’. O que não existe hoje é resignação, e isso acaba em mobilizações ora caóticas ora desesperadas.

Mujica olha para os jovens e lamenta que no cenário atual “não tenham nada que os faça apaixonar-se, nada que os possa abalar”, embora esclareça que “não é culpa deles”, visto que há “uma mudança de era, mas isso não dá respostas”.

“A juventude está desesperançosa para se mover; quando somos jovens, temos que acreditar em algo, e esta juventude não tem muitas coisas em que acreditar. E não é uma questão dos jovens, é uma questão dos mais velhos, que não construíram essa esperança”.

O labirinto da América Latina

Mujica, conhecido pelo seu estilo de vida simples e desapegado durante seu governo (2010-2015), acredita que os latino-americanos “são filhos de nações feudais”.

“Desde o início os recursos foram distribuídos, fundamentalmente a terra, com um critério feudal; tanto na Alemanha quanto em Portugal a revolução burguesa tinha falhado repetidamente, e nossa independência surgiu em um momento em que o mercado mundial já estava organizado, e não é por acaso que quase todos os grandes portos da América Latina deram origem a um país. Porque a relação econômica com o exterior e com a Europa era muito mais importante do que entre nós”, questionou.

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“Nossa cabeça estava sempre pensando em outro lugar, não em nós. E eu acho que nos tornamos prisioneiros dessa realidade (...). Pensamos que lugares além do oceano – Paris, Londres ou Nova York – são mais importantes que nossos queridos vizinhos, e até mesmo nossa própria cultura também exibe esse pensamento. Somos latino-americanos de nascença, mas automaticamente parece que não somos”, acrescentou.

A crise da democracia

“Há uma forte crise na democracia porque ela se move por motivações pessoais e não é monitorada por correntes coletivas e partidos estruturados que vão além da vontade de algumas figuras carismáticas”, disse o presidente uruguaio sobre a guinada para o populismo e o nacionalismo na América.

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Esses “caudilhos” tendem a “substituir o jogo democrático”, e isso “nos prejudica no longo prazo. Cambaleamos sem que haja uma sucessão de políticas de médio prazo que nos permita seguir em frente, estamos mudando constantemente e para pior”, afirmou.

Há uma impotência política, querem substituir partidos construídos metodicamente e correntes coletivas por cifras, e a história não é mudada pelos grandes caudilhos. Se não tiverem uma gigantesca multidão de seguidores disciplinados, os caudilhos de nada valem.

Nesse sentido, Mujica defendeu “acreditar no coletivo”, que “alguns podem representar”, considerando que “não se substitui uma massa de pessoas comprometidas e militantes”. “Acredito que nossa falha seja de natureza política”, resumiu.

 Ex-presidente uruguaio José Mujicadfd

Aumento das brechas

Segundo Mujica, a pandemia evidenciou a “realidade” de um continente que “já era o mais injusto do planeta na distribuição de riquezas” e lamenta que no cenário atual essa característica vá se acentuar “porque muitas pessoas ficaram pelo caminho”.

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Soma-se a este dilema o fato de que a América Latina “transnacionalizou todos os ramos da economia”, desde o comércio até os serviços, enquanto houve “uma evolução tecnológica muito ampla” que “tende a aumentar a disparidade de conhecimento em favor do mundo desenvolvido”.

“A América Latina tem o complexo desafio de poder formar jovens com formação superior em um mundo que avança a uma velocidade muito alta”, explicou o líder político uruguaio.

Processo de paz colombiano “foi amputado”

O líder do Movimento de Participação Popular (MPP) uruguaio também se referiu ao acordo de paz firmado em 2016 entre o governo colombiano e o ex-movimento de guerrilha das Farc, agora transformado em partido político, após mais de meio século de conflito.

Segundo o ex-presidente, “o processo de paz foi algo maior que a paz porque foi uma oportunidade de lutar profundamente em uma Colômbia produtiva” com “a infinidade de recursos naturais que esse maravilhoso país possui”.

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“Contudo, essa cultura da violência continua absorvendo esse processo, então é um projeto que foi amputado” porque “há uma parte da sociedade acostumada a viver na tensão, na guerra, então a Colômbia continua em uma lógica da qual não consegue sair há muito tempo”.

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Mujica questionou a “crise de atitude e cultura muito forte”, ao mesmo tempo que apontou que ainda há “muitos homens sem terras” e que ainda há muitos lugares nos quais o Estado praticamente não chega, e se chega, chega muito mal”.

Argentinos que se mudam para o Uruguai

Nos últimos dias, o presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, disse que o país “precisa de pessoas para ampliar o mercado interno e aqui podemos pensar no longo prazo”, em um claro apelo a investidores de países como a Argentina.

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“O governo está considerando permitir a entrada de proprietários estrangeiros imunizados no país na primavera, ao passo que no final do ano, os estrangeiros com imunização total já poderão visitar o Uruguai”, afirmou.

Questionado sobre o assunto, Mujica disse que o fluxo de capitais da Argentina para o Uruguai tem “uma tradição. Os argentinos que vêm ao Uruguai querem comprar um apartamento ou uma casa; o Uruguai é um país lindo para se morar, mas com certeza não tem horizonte de esperança especulativa e as dimensões que a Argentina pode ter. Eles podem dormir aqui, mas seus negócios vão ficar lá”.

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A má distribuição de riqueza

O líder político uruguaio afirmou que “nos últimos 30 anos a economia mundial cresceu muito, mas sacrificou uma parte importante das classes médias baixas, que estão congeladas. A economia teve um crescimento notável, mas tornou-se mais concentrada do que nunca. A cada dois ou três dias surge um novo bilionário”.

O mundo mostrou que no pós-guerra, principalmente na Europa, a economia pode crescer, mas lembrando uma progressividade fiscal que pode se resumir em ‘quem tem mais, tem que pagar’. Essa é uma forma de redistribuição de riqueza na sociedade.

“Não quero dizer que a economia não cresce – a economia cresce, mas a distribuição também cresce, o que possibilitou o chamado Estado de bem-estar social. Essa ideia fiscal foi mantida até os anos 1980, mais ou menos em 1985, depois começou a declinar e o que se chama de neoliberalismo nada mais é do que o velho liberalismo bruto de antes da Primeira Guerra Mundial. Significa uma concentração extrema em torno das fontes de capital, com uma péssima distribuição”.

Ex-presidente uruguaio José Mujica fala com apoiadores a imprensadfd

Reflexões sobre capitalismo e consumo

Mujica também criticou a “cultura subliminar que o mercado gerou, que precisa que todos sejam potenciais compradores desesperados que estejam sempre criando dívidas para continuar pagando” e que pensam que “a vida é pagar prestações”.

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“A acumulação é uma cultura gerada para o mercado, pelo mercado e com o mercado”, disse, referindo-se à felicidade humana, que definiu como “uma questão filosófica”.

No mundo de hoje, “se as pessoas são mais ou menos felizes, não importa, é melhor que as pessoas confundam felicidade com ter posses e não percebam que a vida está passando e, de repente, subitamente sacrifica as únicas coisas importantes que existem: a amizade, o carinho de um casal, o cuidado dos filhos, dos amigos, mas bem, são questões filosóficas que não interessam ao mercado”.

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Questionado sobre o capitalismo, ele considerou que, embora tenha tido “a genialidade para fazer a ciência multiplicar a produtividade e gerar formidáveis fundamentos desta civilização”, ele também é “responsável pela brutal desigualdade no mundo”.

“Devemos muito a ele, tivemos muitas coisas positivas, por exemplo, a expectativa aumentou em 40 anos – mas como está pautado no lucro, o capitalismo não tem limites, ele apenas pressiona e pressiona, então ele está levando a vida e os recursos do planeta ao limite de sua resistência; é um cataclismo resultante do sucesso”, afirmou.

“É curioso, mas como tantas coisas humanas, tinha um lado positivo e outro perigosamente negativo, porque a política de lucro não é necessariamente racional”, acrescentou.

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Acredito que existem muitas despesas inúteis, provavelmente três milhões de dólares por minuto em orçamentos militares no mundo, então as pessoas dizem que não há recursos pra acabar com a pobreza; os recursos existem, mas o problema é que estamos desperdiçando-os.

O dilema do clima

“Há 30 anos, os cientistas de Kyoto nos contaram o que estava acontecendo, por que estava acontecendo e o que tinha de ser feito; agora, 30 anos se passaram e o que fizemos feito como humanidade foi pouco, a crise do meio ambiente e do clima foi gerada pela atividade humana, e apenas a atividade humana pode corrigi-la”, disse.

“Essa questão ficará latente, não para mim que sou um homem velho, mas para aqueles na casa dos 30 e 40 anos”, disse Mujica, que pediu cooperação porque a questão é “global por natureza, um só país não resolve o problema sozinho”.

“Deve haver acordos globais, e estamos muito longe disso. Caso contrário, é muito provável que a humanidade pague um custo muito alto. Agora, no fundo, a crise não é de conhecimento, o homem primitivo causou muitos desastres, mas ele não sabia, o homem contemporâneo está causando desastres, mas sabe por quê. Por isso, tem o dobro de responsabilidade pelo que vai acontecer”, disse.

“Criamos uma civilização mentirosa porque se cada cidadão do mundo – em um mundo que terá sete, oito ou nove bilhões de habitantes – pensar que pode viver como os norte-americanos ou os europeus, jogando montanhas de lixo de suas casas, precisaríamos de três planetas”, analisou.

Legado e mensagem aos jovens

“Não conheço nenhum cordeiro salvo por seu balido, então (eu diria) que o mundo que podemos ter é aquele pelo qual podemos lutar e criar, que tudo depende da vontade humana organizada e da capacidade que demonstramos para mudar esse mundo, mas não vamos esperar que seja no singular, devemos construir um coletivo. A vida é bela, apesar dos pesares, mas quem não tem motivo não se preocupa e vai passar a vida comprando felicidade em prestações mensais”, comentou.

“É lindo viver com uma causa que faça sentido, essa eterna questão do ser humano... qual é o sentido da vida? O sentido da vida é aquele que atribuímos com nossa vontade, por isso, como não podemos escapar da morte e herdamos algo muito grande daqueles que nos precederam – a civilização – sinto que é um dever tentar contribuir para deixar um mundo um pouco melhor do que aquele em que nascemos; isso é atribuir um sentido à vida. Não viva como um caranguejo ou como uma alface – que vive porque nasceu – a natureza nos deu consciência para nos alegrarmos e nos angustiarmos; isso é viver com vontade e compromisso”.

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Daniel Salazar Castellanos

Daniel Salazar Castellanos

Profesional en comunicaciones y periodista con énfasis en economía y finanzas. Becario de EFE en el programa de periodismo de economía de la Universidad Externado, Banco Santander y Universia. Exeditor de Negocios en Revista Dinero y en la Mesa América de la agencia española de noticias EFE.

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