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Como a Kangu, última aquisição do Mercado Livre, foi do lançamento à saída em dois anos

A startup aposta em modelo descentralizado para criar eficiência e escala praticamente de um dia para o outro

Marcelo Guarnieri, Ricardo Araújo, and Celso Queiroz - cofundadores da Kangu, adquirida pelo Mercado Livre nesta semana
Por Marcella McCarthy (Brasil)
27 de Agosto, 2021 | 10:41 am
Tempo de leitura: 4 minutos

Miami — No início da semana, o Mercado Livre anunciou que estava adquirindo a Kangu, startup brasileira de logística de comércio eletrônico com uma taxa de crescimento insana, por um valor não revelado. Ficamos sabendo da notícia dos executivos do Mercado Livre, mas na Bloomberg Línea queríamos conhecer a história da Kangu e, mais especificamente, como foi do lançamento à saída em dois anos.

Esta é uma visão panorâmica do crescimento da empresa: no início de 2020, a Kangu tinha cerca de 30 funcionários – hoje são cerca de 350. Ela foi de entregar 150 mil pacotes por mês para quase 8 milhões em três países. Segundo o Mercado Livre, em 2020, o faturamento da Kangu cresceu 100 vezes ao ano.

A Bloomberg Línea conversou com Ricardo Araújo, cofundador e co-CEO da Kangu, e com a única investidora da empresa, a NXTP, sobre a rápida evolução da empresa (fundada em abril de 2019).

“Havia muitas sutilezas sobre a empresa, que, quando vimos, ficamos muito animados”, disse Alexander Busse, sócio da NXTP, que avaliou o negócio da Kangu.

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Para começar, a Kangu não é centralizada; na verdade, é assim que ela maximiza sua eficiência. Em vez de armazéns centrais – como muitas outras empresas de logística de comércio eletrônico – a empresa habilitou pequenas lojas como pontos de entrega e coleta.

“O que a Kangu está realmente fazendo é o que chamamos de logística distribuída com mini hubs”, disse Busse. Essa abordagem acelera a entrega e reduz os custos – o que Busse diz ser o principal motivo de as pessoas abandonarem seus carrinhos de compras nas vendas de comércio eletrônico.

O que a Kangu faz de diferente

Vejamos o que é conhecido como “logística reversa” – quando você deseja devolver um pacote. Tradicionalmente, no Brasil, você tinha que ir ao correio, que provavelmente não é perto da sua casa, e então você tinha que lidar com toda a burocracia subjacente. Com a Kangu, você pode olhar no aplicativo, ver qual loja do bairro é um local de retirada (qual é a mais próxima de você, qual está aberta em um momento conveniente etc.) e decidir onde deseja deixar o pacote. Tudo o que o dono da loja precisa fazer é escaneá-lo.

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O mesmo vale para retiradas, mas nesse caso é sempre a mesma loja.

A Kangu foi idealizada por três veteranos da logística brasileiros que se conheceram quando trabalhavam na FedEx: Ricardo Araújo, Marcelo Guarnieri e Celso Queiroz. Queiroz participou apenas do lançamento da empresa, mas continua como cofundador.

Os três saíram da FedEx para lançar uma empresa de consultoria em logística, e, na época, Araújo disse que conseguiram aprender tudo sobre logística e que tiveram tempo para realmente avaliar o mercado e ver qual solução faltava e seria um ótimo encaixe.

Eles se viraram com a Kangu até janeiro de 2020, quando começou a pandemia. Até então, nove meses após o lançamento, a empresa já tinha 600 postos de entrega, já trabalhavam com o Mercado Livre e já tinham se expandido para o México conforme solicitado pelo Mercado Livre.

“Com um aplicativo, você pode transformar uma pessoa comum em um empresário de logística. Tudo que ela precisa fazer é escanear um pacote”, disse Araújo. É isso que torna esta startup tão fascinante – ela alavanca toda a cidade e seu capital humano para expandir seus negócios – e rapidamente.

“O que é ótimo nesse modelo é que todos saem ganhando”, disse Busse. “A Kangu está começando a adaptar a logística novamente, tornando-a uma empresa comunitária”, acrescentou.

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Foram essas “sutilezas” que tornaram a Kangu um investimento atraente para a NXTP, que era a única investidora. Para a maioria das empresas atingir esse tamanho, seriam necessários centenas de milhões de dólares, mas a Kangu o fez com apenas R$ 6 milhões.

“Por sermos uma startup, não pudemos acessar dinheiro do governo [durante a pandemia]. Tínhamos apenas alguns meses de funcionamento. E estávamos crescendo, então precisávamos de caixa para crescer“, disse Araújo. E a NXTP estava de acordo com essa estratégia.

“Por isso, usamos nosso dinheiro para manter as coisas – e criamos muita fidelidade – porque mantivemos [as pequenas lojas] funcionando. Também não demitimos ninguém nem reduzimos o salário de ninguém”, acrescentou Araújo.

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Para algumas pequenas lojas que perderam o fluxo de pessoas durante a pandemia, o negócio de logística que a Kangu oferecia era o que mantinha suas portas abertas. E foi com esses negócios que a Kangu conseguiu crescer rapidamente.

“A cidade cria esse sistema logístico, então é muito natural, e quanto mais cresce, melhor fica”, afirmou Araújo

Após a aquisição, a Kangu continuará sendo administrada pelos fundadores, mas disse que as coisas andarão ainda mais rapidamente. “Agora que somos uma empresa, não precisamos mais negociar taxas com o Mercado Livre”, disse Araújo.

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Marcella McCarthy

Marcella McCarthy (Brasil)

Jornalista americana/brasileira especializada em tech e startups com mestrado em jornalismo pela Medill School na Northwestern University. Cobriu America Latina, Healthtech e Miami para o TechCrunch e foi fundadora e CEO de um startup Americano na área de EdTech. Baseada em Miami.

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