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Goldenstein: Dúvida é sobre extensão do aperto e se o BC não está otimista demais com atividade

Entrevista: Ex-BC, estrategista da Renascença vê autoridade monetária ‘refém’ do mercado e risco de crescimento medíocre em 2022

Dúvida é sobre os próximos passos do Banco Central
05 de Agosto, 2021 | 02:14 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

São Paulo — O comunicado do Banco Central sobre o aumento da Selic de 4,25% para 5,25%, o maior em 18 anos, foi mais duro do que o habitual, mas veio dentro do esperado. A dúvida agora é sobre a extensão do atual ciclo de ajuste nos juros e se a autoridade monetária não está sendo “otimista demais” com as perspectivas para a atividade econômica no pós-pandemia, avalia o estrategista-chefe da Renascença, Sérgio Goldenstein, ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto (Demab) do Banco Central.

“A dúvida era se eles iriam sinalizar uma política contracionista, que foi o que aconteceu”, disse à Bloomberg Línea. “O Copom parece muito preocupado com a inflação corrente e talvez refém da precificação do mercado”, disse.

“A dúvida é quanto ao ritmo de ajustes subsequentes e com relação à taxa Selic terminal. Tem muita divergência com relação aos passos posteriores à reunião de setembro. Nós, na Renascença, temos um call de Selic a 7,25% em dezembro, sendo que na próxima reunião seriam 100 basis point; depois, o BC irá desacelerar para 75 basis; e encerraria o ciclo em dezembro com 25 basis. Teríamos uma Selic de 7,25%, que seria levemente acima da taxa neutra”, disse.

Goldenstein acredita que a trajetória do atual ciclo de alta da Selic dependerá do chamado balanço de riscos, que pesa, de um lado, as pressões inflacionárias no cenário de retomada da atividade; e, de outro, os riscos fiscais e o impacto das incertezas nos investimentos.

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“No ano passado, o BC comunicou o forward guidance; depois partiu para uma indicação de normalização parcial, de [estímulos] abaixo da neutra; recentemente, alterou para normalização total e agora muda para começar acima da neutra. Então, é um banco central que vem sendo surpreendido pelos números recentes de inflação e o grande foco é reforçar a ancoragem das expectativas de inflação”, disse.

O estrategista destaca que o BC usa em seu modelo as previsões para a Selic da pesquisa Focus, que hoje estão em 7% para 2022 e cai para 6,75% em 2023 -portanto, compatíveis com a meta de 3,5% para 2022 e de 3,25% em 2023. “Pelo modelo do BC, não haveria espaço para uma taxa Selic muito acima desses 7% ao ano”, disse.

“O que vai determinar a trajetória da política monetária? Vai ser a projeção do balanço de riscos. É muito importante acompanhar a evolução da questão fiscal. Porque se houver uma deterioração, isso vai aumentar o prêmio de risco, vai vai ocasionar uma depreciação do câmbio e o BC poderia ter que levar a uma taxa bem acima de 7%”, disse.

“Mas pelo modelo hoje não haveria essa necessidade. Se apertar muito acima de 7%, o modelo deles começaria a levar inflação para abaixo da trajetória de metas”, completou.

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Risco de crescimento medíocre

Goldenstein receia que o cenário otimista para atividade que o Banco Central parece contar não se confirme. “Parece que o BC está subestimando os riscos baixistas em relação à atividade econômica. Ele vem contanto muito com o impacto positivo da reabertura da economia, porém, há alguns fatores que tendem a moderar a atividade ao longo dos trimestres”, disse.

O primeiro, afirma o estrategista, é o mercado de trabalho ainda frágil, que se soma ao aumento do comprometimento da renda das famílias com custo da dívida, fatores que associados limitam uma expansão mais forte do consumo das famílias nos próximos trimestres.

“Isso associado a um ambiente mais turbulento pode sim azedar o crescimento dos investimentos. Um ambiente de incertezas no campo político, não apenas eleitoral, pode postergar decisões de investimento por parte dos empresários. E isso com uma política monetária mais apertada do que se previa há um pouco atrás”, afirmou.

“Com isso tem uma chance de o crescimento do PIB ficar em 2% no próximo ano, o que seria um crescimento medíocre”, afirmou.

Cenário para inflação

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Para Goldenstein, o cenário básico para inflação nos próximos meses pode ser mais benigno. Ele reconhece que é bem provável que ocorram pressões de demanda no próximo ano, com menor pressão sobre o câmbio e preço de commodities.

“O que o BC está tentando é reforçar a ancoragem das expectativas dado que a inflação corrente é muito alta, derivada principalmente de choques de oferta. Você teve uma combinação de depreciação forte do câmbio no ano passado, que se somou a uma alta expressiva dos preços das commodities. À medida que a economia foi reabrindo os empresários foram obrigados a repassar os custos que subiram de forma significativa”, disse.

ONTEM: Economistas veem BC mais duro para segurar expectativa de inflação

Toni Sciarretta

Toni Sciarretta

News director da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista com mais de 20 anos de experiência na cobertura diária de finanças, mercados e empresas abertas. Trabalhou no Valor Econômico e na Folha de S.Paulo. Foi bolsista do programa de jornalismo da Universidade de Michigan.