Mercados

Economistas veem BC mais duro para segurar expectativa de inflação

O Copom elevou a taxa Selic para 5,25%, e a avaliação é que autoridade monetária reconheceu aumento de preços mais persistente, especialmente no setor de serviços

Banco Central atua para segurar as expectativas de preços
04 de Agosto, 2021 | 08:15 pm
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São Paulo — O Banco Central adotou um discurso mais duro para controlar as expectativas de inflação, particularmente com relação ao horizonte da meta de 3,5% do IPCA em 2022, segundo economistas. A avaliação é que a autoridade monetária reconheceu uma inflação mais persistente, especialmente no setor de serviços, em meio a uma atividade econômica robusta com a reabertura da economia no pós-pandemia.

O Banco Central reconheceu ainda que, nesse cenário, os juros terão de voltar para o patamar acima do neutro, com objetivo de desaquecer a economia e evitar a indexação. A decisão pode ter efeito no câmbio, levando a uma apreciação do real. Já as taxas de juros mais curtas podem subir, enquanto as mais longas poderão recuar, a depender do noticiário em relação aos riscos fiscais.

MAIS CEDO: O Banco Central acelerou a dose de aperto nos juros e elevou a taxa Selic em 1 ponto percentual, de 4,25% para 5,25% ao ano.

O que dizem os economistas:

  • Segundo Jansen Costa, sócio da Fatorial Investimentos, o Banco Central se vê “correndo atrás da curva” de juros. “O mercado de juros antecipou a alta e está ditando o ajuste do Copom. O comunicado deixa claro um novo aumento de 1 ponto de juros com mais um novo aumento de 1 ponto. As expectativas de juros para dezembro vão aumentar após essa ata”, disse.
    • Jansen sustenta que, com a alta da Selic, a renda fixa pode voltar a ficar interessante se o investidor optar por mudar a maneira de investir e buscar títulos pré-fixados para um prazo de até 12 meses, conseguindo uma rentabilidade de mais de 7%. “Consegue também ter juros real perto de zero e um rendimento melhor do que no Tesouro Selic ou poupança diminuindo a chance de ficar negativo em relação à inflação”, completou.
  • Para Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, a decisão do BC mostrou uma preocupação com a dinâmica inflacionária, incluindo choques temporários com o impacto das geadas nos produtos in natura. “Ao mesmo tempo, o BC vislumbra uma atividade ainda forte, mas sem grandes riscos, o que consolida esse cenário de recuperação econômica, portanto o foco passa a ser segurar as expectativas e garantir uma convergência das expectativas de inflação de forma célere em 2022”, disse.
  • Mauro Orefice, diretor de investimentos da BS2 Asset, o comunicado veio mais duro do que o habitual ao afirmar que o BC terá de elevar as taxas para patamar acima do neutro. “Isso se torna necessário, porque o Brasil é conhecido pela indexação de preços, o que torna a inflação estrutural e o Banco Central precisa ser mais duro para garantir a ancoragem das expectativas”, disse.
  • Na avaliação de André Perfeito, economista-chefe da Necton, não houve surpresa com a decisão, mas os agentes de mercado devem repercutir a promessa de novo aumento da mesma magnitude em setembro. “O tom mais hawkish sugere que a parte longa da curva de juros pode retroceder”, disse, reforçando cuidado com a possibilidade de que uma proposta de emenda constitucional possa desrespeitar o teto de gastos e mitigar a queda dos juros mais longos.
  • Para João Beck, economista e sócio da BRA, o comunicado do Copom mostrou um alinhamento com o compromisso da meta em tom ainda mais rígido, principalmente quando sinaliza juros para patamar acima do neutro. “Especial destaque para divisão de responsabilidades com o Congresso. Que já havia sido escrito em comunicados recentes, mas agora com mais ênfase. Mesmo a despeito de melhoras no perfil da dívida pública, sinais de continuidade de políticas de estímulo preocupam”, disse.
Toni Sciarretta

Toni Sciarretta

News director da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista com mais de 20 anos de experiência na cobertura diária de finanças, mercados e empresas abertas. Trabalhou no Valor Econômico e na Folha de S.Paulo. Foi bolsista do programa de jornalismo da Universidade de Michigan.

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