‘O plano A é trabalhar de forma construtiva com o governo’, diz Luana Lara, da Kalshi

Em entrevista à Bloomberg Línea, a cofundadora diz que planeja manter conversas com o governo brasileiro para reverter proibição e rebate comparação com cassinos; ‘Atualmente, a Kalshi transaciona mais de US$ 4 bilhões em volume por semana’, afirma

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Bloomberg Línea — A Kalshi mantém seu interesse no mercado brasileiro e tem como “plano A” trabalhar de forma construtiva com o governo brasileiro para reverter a decisão que proibiu sua operação no país, segundo a cofundadora Luana Lopes Lara.

Em entrevista à Bloomberg Línea, a brasileira avalia que a proibição faz parte de um desafio com a qual a plataforma de mercados de previsão está acostumada e diz que a empresa busca trabalhar de forma legalizada e regulada em todos os países onde estiver.

“É nosso desafio educacional mostrar para as pessoas o que realmente são os mercados preditivos e por que eles são diferentes de casas de apostas e muito melhores para a população no final”, afirmou em entrevista, antes de subir ao palco na abertura do Web Summit Rio 2026, na segunda-feira (8).

“Proibir é o pior dos mundos para um governo: você perde a arrecadação de impostos, não tem proteção ao consumidor e perde o rastro do dinheiro. É melhor trabalhar com as empresas para que cresçam dentro do país”, completou a empreendedora, que atua também como COO (Chief Operations Officer) da Kalshi.

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A plataforma, fundada por Luana Lara e o libanês americano Tarek Mansour, está no epicentro de uma das áreas mais disputadas, complexas e controversas do mercado de capitais global, ao lado da concorrente Polymarket.

Longe de ser apenas um termômetro de sentimento popular, a capacidade de transformar eventos do mundo real — de decisões de bancos centrais a resultados eleitorais e desfechos esportivos — em ativos financeiros negociáveis converteu-se em uma poderosa ferramenta de hedging corporativo e alocação de risco.

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Criada em 2018, a Kalshi entrou em operação em 2021 após travar uma batalha jurídica contra a CFTC (Commodity Futures Trading Commission) em Washington para validar a legalidade de seus contratos.

Em 2024, uma segunda vitória, o que permitiu a liberação das apostas em eleições nos Estados Unidos. Dos eventos macroeconômicos e políticos, a Kalshi entrou também em esportes, como NFL e NBA. No intervalo entre os últimos seis a oito meses, a plataforma cresceu 15 vezes, segundo a fundadora.

“Atualmente, a Kalshi transaciona mais de US$ 4 bilhões em volume por semana. Nossos unit economics são extremamente saudáveis, mesmo com os fortes investimentos em marketing", afirmou Luana Lara.

A startup, que anunciou uma captação de US$ 1 bilhão no começo do ano, a um valuation de US$ 22 bilhões, continua nos holofotes não apenas pelos números. Os embates jurídicos permanecem nos Estados Unidos, com procuradores estaduais comparando a Kalshi a cassinos e casas de apostas.

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No Brasil, logo após a plataforma anunciar a entrada a partir de uma parceria com a XP como o seu primeiro passo de internacionalização global, o Conselho Monetário Nacional (CMN) vetou empresas do setor de atuarem no país.

O órgão publicou uma resolução proibindo mercados de previsão ligados a eleições, esportes e outros eventos. Apenas eventos macroeconômicos, como inflação e Selic podem ser negociados.

O movimento foi seguido pela Ministério da Fazenda, que bloqueou cerca de 30 sites, incluindo a Kalshi, sob a alegação de que operam sob a mesma lógica das bets e que são manipuláveis.

É o que a empresa agora busca alterar. “Nós estamos muito acostumados com esse desafio educacional porque passamos por isso nos Estados Unidos. E acredito que muitos países hoje estão onde os Estados Unidos estavam em 2019″, afirmou.

Abaixo, os principais trechos da entrevista com a cofundadora.

A Kalshi foi criada em 2018 e chegou aos 8 anos de história após enfrentar duras batalhas judiciais. Como você enxerga a atual fase da companhia?

Nós ainda estamos muito focados no mercado americano. Vemos muito espaço para crescer tanto no ecossistema de varejo, da pessoa física, quanto no lado institucional, que tem acelerado bastante.

Ao mesmo tempo, estamos olhando com muita atenção para o mercado internacional, tentando mapear quais países são prioridade. Essa expansão depende essencialmente do lado regulatório.

Estamos trabalhando com vários governos; alguns são extremamente abertos para replicarmos o modelo que temos nos EUA, outros menos. Estamos resolvendo isso.

Há várias empresas de mercados preditivos surgindo em diferentes países, mas nos inspiramos muito no que a Uber fez no sentido de realizar uma expansão internacional ganhando o mercado global. O que temos de diferente é que só iremos entrar se a estrutura regulatória estiver totalmente certa.

Olhando para o mercado doméstico americano, vocês operam sob uma licença federal. No entanto, há estados que tentam impor restrições locais (como Nevada ou Nova Jersey). Como vocês lidam com essa fricção federativa?

Como nós somos uma exchange legalizada e regulada no âmbito federal [pela CFTC], isso gera uma prevalência da lei federal sobre a estadual — legalmente, os estados não podem sobrepor leis locais à regulação federal.

É claro que vários estados tentam questionar isso na Justiça, mas acabamos de conquistar uma vitória enorme na segunda instância (Corte de Apelações), como ocorreu no Terceiro Circuito com Nova Jersey, confirmando que a nossa tese jurídica está correta.

Levará tempo e ainda enfrentaremos idas e vindas em tribunais de primeira e segunda instância, mas estamos confiantes no nosso direito. É apenas uma questão de tempo.

O grande debate que cerca os mercados de previsão é a associação com o mercado de apostas e jogos de azar (gambling). Como você defende a Kalshi dessa acusação? Qual é a real linha divisória?

A mecânica do negócio muda tudo, e os incentivos são completamente opostos. Em um sportsbook (casa de aposta esportiva) ou cassino, você aposta contra a casa. Eles definem as probabilidades e lucram diretamente com a sua perda. Se você ganha muito, é banido; se perde, recebe bônus para perder mais dinheiro.

Na Kalshi, nós não participamos dos trades. Nós somos uma bolsa, exatamente como o mercado de ações. O usuário “A” negocia contra o usuário “B”. Nós não temos incentivo para as pessoas perderem, a plataforma não corta nenhum dos ganhadores.

Funcionamos como se fosse um mercado de ações, onde as pessoas vão comprar e vender ‘ações’ sobre o que vai acontecer no futuro. Essa diferença mecânica dos incentivos da empresa faz muita diferença na proteção ao consumidor e na forma como funciona a questão de dados.

Do lado de um cassino, eles não estão tentando achar o melhor preço possível; eles tentam achar o pior preço que as pessoas ainda aceitem comprar, que ainda aceitem apostar. Nós queremos o melhor preço possível, o que for mais barato para o investidor, porque assim virá mais gente.

O segundo ponto é econômico. Na roleta de um cassino, não há risco sistêmico envolvido, nenhuma indústria depende daquele resultado. Nos mercados da Kalshi, os contratos refletem indústrias reais de milhões de dólares que estão correlacionadas.

Temos esportes, por exemplo, que é uma indústria enorme. Em Nova York, onde eu moro, o prefeito da cidade apontou que a chegada dos Knicks às finais da NBA gerou um impacto econômico de mais de US$ 220 milhões na cidade, englobando hotéis, bares e comércio.

Esta era uma cadeia gigantesca que não tinha como participar de hedging e mitigar os seus riscos, como ocorre em mercados tradicionais como a agricultura. Hoje, donos de bares e hotéis utilizam a Kalshi para fazer hedging (mitigação de risco).

Se a série de jogos for mais curta — já que a final da NBA é no modelo melhor de 7 partidas, número que pode se reduzir a até 4 jogos —, eles faturam menos e se protegem comprando contratos na plataforma. É a mesma discussão de 1909 sobre os futuros de agricultura, que foi parar na Suprema Corte americana e venceu porque mitigava o risco da economia real.

Diante desse perfil de mitigação de risco corporativo, o futuro da Kalshi está mais atrelado ao ecossistema institucional (B2B) do que ao investidor de varejo?

Em volume financeiro concentrado, sim. O futuro estará mais com empresas e fundos de investimento. Nós começamos com o varejo porque é muito mais fácil. Quando você constrói uma nova exchange, enfrenta o clássico problema do “ovo e da galinha” da liquidez. Uma grande corporação quer abrir uma posição de US$ 1 milhão para proteger um risco de US$ 10 milhões, mas não dá para começar uma bolsa do zero oferecendo essa profundidade de livro de ordens. Começamos pela pessoa física, onde ordens de US$ 100 ou US$ 500 funcionam e dão tração inicial.

A partir de meados do ano passado, quando começamos a ter níveis de liquidez muito altos com um crescimento muito rápido, as instituições e empresas começaram a nos procurar porque finalmente atingimos o tamanho que elas precisavam para operar.

Sobre o investidor de varejo, críticos e reportagens apontam que o nível de dependência ou comportamento aditivo de quem opera na Kalshi ou na Polymarket é muito similar ao de apostadores de cassino, apenas sob uma roupagem mais sofisticada. Como vocês gerenciam o risco do cliente de varejo?

O que eu vejo é que tem risco em todo lugar — seja em ações, cripto ou futuros. Eles vão perder mais aqui do que perderiam em outros mercados? Isso não é verdade. Se você olha o mercado preditivo, falam que 70% das pessoas perdem, mas em daytrade, ações, futuros e em casas de apostas esse índice chega a até 95%.

Eu acho que o percentual é menor nos mercados preditivos porque eles são os mais intuitivos, as pessoas os entendem melhor. Se eu perguntar se a ação da Apple vai subir ou descer hoje, a maior parte do varejo não faz ideia. Menos o cidadão comum consegue analisar se a inflação vai subir porque ele percebe o preço do pão aumentando no supermercado.

Em relação às pessoas com vícios, há indivíduos com problemas em daytrade de ações, criptoativos e, inclusive, em mercados preditivos. É por isso que colocamos muito foco e esforço no lado de segurança. Temos limites rígidos de depósitos e trading, ferramentas nas quais o usuário fica impedido de depositar por três dias se identificarmos perdas sequenciais e exclusão total de campanhas de marketing para perfis de risco.

A nossa mecânica não é ter pessoas perdendo dinheiro sem parar — isso é incentivo de cassinos e casas de apostas — e por isso podemos colocar ênfase neste lado da segurança. O comportamento aditivo não é um risco para o nosso modelo de negócios.

Passando para o cenário brasileiro: como vocês receberam o veto recente do Conselho Monetário Nacional (CMN) e o subsequente bloqueio de IPs determinado pelo Ministério da Fazenda à plataforma, logo após a parceria com a XP?

Nós queremos fazer tudo de um jeito legalizado e regulado em todos os países onde estivermos. Para nós, o que aconteceu no Brasil é um desafio educacional, que é muito do que falamos.

Muitas pessoas escutam sobre nós a partir de indústrias que claramente se sentem ameaçadas pela existência de mercados preditivos e nos comparam com cassinos e casas de apostas. Tentam falar que nós, de algum jeito, somos piores do que eles, o que ninguém realmente consegue explicar como surge esse argumento.

Houve lobby das “bets”?

Eu não sei como funciona, não acho que seja uma empresa ou algo assim. Para nós, eu vejo que é uma questão de como construímos uma narrativa; é o nosso desafio educacional mostrar para as pessoas o que realmente são os mercados preditivos e por que eles são diferentes de casas de apostas e muito melhores para a população no final.

Mas, na verdade, nós estamos muito acostumados com esse desafio educacional porque passamos por isso nos Estados Unidos. E acredito que muitos países hoje estão onde os Estados Unidos estavam em 2019.

Demorou muito tempo para chegarmos onde estamos hoje, em crescimento e apoio. É claro que queremos vir para o Brasil o mais rápido possível, mas também estamos muito animados para entrar em outros países com o mesmo modelo dos Estados Unidos.

Ao longo dos anos, a Kalshi teve uma atuação litigiosa nos Estados Unidos até chegar ao estágio atual. Qual será a estratégia para reverter as decisões do governo no Brasil?

Nós não temos nada muito resolvido, nós queremos trabalhar de uma forma construtiva com o governo. Mesmo nos Estados Unidos, nós trabalhamos de uma forma construtiva por muitos anos antes de ter que processar o governo.

Era a última opção que tínhamos, não víamos outro caminho a não ser esse e nós sabíamos que estávamos certos na lei. Por isso, ganhamos em primeira e segunda instância. O nosso plano A é trabalhar de forma construtiva com o governo brasileiro.

Como está essa conversa hoje?

Não sou quem está à frente dessas conversas, então não sei muitos dos detalhes, mas nós estamos trabalhando com vários governos do mundo e tentando explicar realmente o que fazemos. O ponto central que tentamos demonstrar aos governos é de que banir um mercado não faz a atividade desaparecer, apenas a joga para a ilegalidade offshore.

Foi o que aconteceu nos EUA: quando as apostas em eleições foram proibidas inicialmente, plataformas sediadas em paraísos fiscais ou no Panamá capturaram todo o mercado.

Quando a Kalshi ofereceu uma alternativa regulada e segura dentro dos EUA, o volume migrou de volta imediatamente. Proibir é o pior dos mundos para um governo: você perde a arrecadação de impostos, não tem proteção ao consumidor e perde o rastro do dinheiro. É melhor trabalhar com as empresas para que cresçam dentro do país.

Além do Brasil, em quais mercados internacionais ou da própria América Latina as conversas regulatórias estão mais avançadas neste momento?

Estamos conversando muito com outros países da América Latina, que é onde há um crescimento no interesse pelo mercado, e também na Ásia. Estamos muito animados com a Europa, onde a regulamentação está bem solidificada. Mas, na América Latina, tem países que estão se movendo rapidamente, só ainda não posso dizer quais são.

Olhando a trajetória: a Kalshi nasceu em 2018, operacionalizou em 2021, conquistou a grande virada jurídica em 2024 e abriu o ano consolidando uma captação bilionária que avalia a empresa em US$ 22 bilhões. Como você analisa essa escalada vindo de um período tão longo de incertezas?

É uma sensação muito louca porque, por muito tempo, não estava dando certo. Passamos vários anos lutando contra o governo e, depois que lançamos a plataforma, havia muita dificuldade porque o governo atrasava tudo o que queríamos fazer. Foi muito complicado. Foi apenas em meados de 2024 que nós começamos a crescer de fato, o que é muito bom porque ainda temos muito caminho pela frente.

Como foi lidar com essa situação como empreendedora?

Foi uma etapa complicada. Óbvio que, para mim e para o meu sócio, foi muito difícil emocionalmente. Nós ficávamos pensando: “apostamos a nossa vida inteira neste negócio, será que vai dar certo?”. E não era só esse o lado: tínhamos que olhar para o nosso time e dizer que ia dar tudo certo. Era muito difícil fazer isso. Agora, todos os desafios que temos são muito mais fáceis porque a empresa está indo muito bem, os clientes estão felizes com o produto e estamos crescendo muito.

Hoje, qual é o ritmo de crescimento da Kalshi e os números da operação?

Nos últimos seis ou oito meses, nós crescemos 15 vezes. Atualmente, a Kalshi transaciona mais de US$ 4 bilhões em volume por semana. Nossos unit economics são extremamente saudáveis, mesmo com os fortes investimentos em marketing.

Qual é o futuro da Kalshi?

O sonho é o IPO no futuro, mas não agora. Estamos muito focados em crescer o máximo que pudermos. O IPO parece o próximo pedaço natural do caminho.

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