Nasa no limite: como a modernização digital viabiliza as novas missões à Lua

Agência espacial substitui sistemas legados por IA e containers para processar 340 mil parâmetros em tempo real e garantir a segurança dos astronautas no retorno à Lua

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Bloomberg Línea — Enquanto o mundo olha para o céu aguardando o próximo passo da humanidade em direção à Lua, nos bastidores do Marshall Space Flight Center, em Huntsville, ocorre uma revolução silenciosa, mas crítica.

A Nasa tem trocado o peso de décadas de infraestrutura legada por uma arquitetura ágil de nuvem híbrida e inteligência artificial para sustentar o programa Artemis.

Josiah Johnson, arquiteto do Nasa Marshall, detalhou como a agência espacial conseguiu transformar um ambiente de TI engessado em um motor de eficiência, reduzindo custos operacionais em 40% e cortando o tempo de implantação de novos sistemas de dias para meros minutos.

O desafio da missão Artemis II — a primeira tripulada a orbitar a Lua em mais de 50 anos — não é apenas físico, mas informacional. A Artemis II foi uma missão de quase 10 dias realizada este ano com a participação de quatro astronautas a bordo da nave Orion.

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A expedição não pousou na Lua, mas serviu de teste para o futuros projetos especiais, como a Artemis III, projetada para o próximo ano com naves da Blue Origin e SpaceX, e a Artemis IV, prevista para marcar o retorno do ser humano ao solo lunar.

Para garantir a segurança dos astronautas, a Nasa tem rastreado 340.000 parâmetros em tempo real através de 907 cargas de trabalho (workloads) virtuais.

“Não há margem para dúvidas,” afirmou Johnson, que participou do Red Hat Summit, evento que ocorreu em Atlanta, nos Estados Unidos. “Usamos centenas de lançamentos simulados e milhares de horas de ensaios para garantir que os engenheiros tomem a decisão certa no momento certo.”

Para suportar esse volume de dados, a Nasa realizou uma migração técnica de larga escala, em parceria com a Red Hat. O processo contou com um ganho de eficiência em estrutura, migrando 4.000 máquinas virtuais (VMs) legadas para 2.000 máquinas de alta performance.

“Isso permitiu o fornecimento de dados em tempo real necessários aos nossos pesquisadores para as nossas missões críticas da ISS (Estação Espacial Internacional) e do programa Artemis”, contou.

No processo de modernização, foram criados 4.000 containers (ambientes isolados de software) para aplicações de nova geração. Segundo Johnson, a agência evitou um aumento de custos de 200% a 300% que seria imposto pelo seu antigo provedor de virtualização.

Segundo o engenheiro, com a explosão de dados da Estação Espacial Internacional (ISS) e das missões lunares, os cientistas da Nasa correm o risco de se tornarem “analistas de dados” em vez de pesquisadores, risco que a agência governamental tenta conter com a adoção de IA nas bordas (Edge AI).

A estratégia da Nasa não é substituir o julgamento humano, mas usar modelos de IA para filtrar o ruído. A agência tem adotado uma abordagem de “micro-modelos” (semelhante aos microserviços de software) para tarefas específicas e um foco humanizado, em que a IA prioriza os dados mais relevantes para que os controladores de voo foquem na tomada de decisão em situações críticas, em vez de triagem manual de telemetria.

“Vemos esses modelos de IA como uma ferramenta no espaço, não como um substituto para o julgamento humano, mas como um multiplicador de força. Ao filtrar, correlacionar e priorizar todos esses fluxos de dados, a IA pode nos ajudar a garantir que tenhamos os insights mais relevantes logo à frente”, afirmou Johnson.