Para descolar do mercado, Lenovo aposta em IA, empresas e serviços no Brasil

Enquanto mercado deve ficar estável, operação brasileira aposta em IA corporativa para manter trajetória de expansão, conta Ricardo Bloj, Country Manager para o Brasil, à Bloomberg Línea. Na América Latina, alta deve ficar entre 5% e 10%

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Bloomberg Línea — A Lenovo planeja crescer no Brasil neste ano de 2026 mesmo diante de um cenário de estabilidade para o mercado de PCs, com uma aposta na demanda corporativa por equipamentos com inteligência artificial embarcada e na expansão de serviços.

“A expectativa é que o mercado como um todo fique estável. Nós queremos crescer mais que o mercado”, disse Ricardo Bloj, Country Manager para o Brasil da Lenovo, à Bloomberg Línea, sem abrir metas específicas de crescimento.

Em 2025, a fabricante chinesa registrou crescimento de 14,5% nas vendas globais, mantendo a liderança com 24,9% do mercado de computadores, incluindo desktops, notebooks e workstations, seguida pela HP e pela Dell, segundo dados do IDC.

A estratégia da Lenovo para 2026 para o Brasil e para a América Latina como um todo está centrada em três pilares: equipamentos corporativos com IA, expansão de serviços avançados e o lançamento global da Qira, assistente pessoal baseado em IA que integra diferentes dispositivos da marca, que chegará neste ano.

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Para impulsionar as ofertas, a companhia aposta na visibilidade de grandes eventos como a Copa do Mundo de futebol masculino, da qual é uma das patrocinadoras. O evento terá, pela primeira vez na história, três sedes: Estados Unidos, Canadá e México.

Corporativo impulsiona demanda

A demanda por equipamentos com IA no Brasil está sendo impulsionada pelo setor corporativo, em especial por grandes empresas privadas.

Uma pesquisa da IDC com 250 CIOs (Chief Information Officer) brasileiros mostrou que mais de 60% estão em fase de implementação de IA, sendo 54% com alguma solução de IA generativa.

“Cada vez mais as empresas estão implementando, começando com finanças, RH e supply chain. Isso, por si só, acaba gerando uma demanda crescente de equipamentos”, disse o executivo, que está no comando da operação no Brasil desde 2017, em entrevista durante a CES em Las Vegas em janeiro.

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A Lenovo lidera globalmente o mercado de PCs com IA embarcada e fechou o período encerrado em setembro passado, segundo trimestre do ano fiscal, com participação de mercado superior a 30%.

A companhia projeta que até o fim de 2027 cerca de 80% dos equipamentos vendidos já terão IA embarcada — máquinas capazes de rodar acima de 40 TOPS (trilhões de operações por segundo).

No Brasil, a Lenovo registrou participação de quase 27% nas vendas da Black Friday no segmento para o consumidor final, segundo dados da GfK, com manutenção da liderança, com a Asus na segunda posição.

Um desafio para a operação brasileira e também na América Latina é a comercialização de notebooks com IA para os usuários finais.

De acordo com executivos, o preço mais elevado tem feito com que a demanda avance mais lentamente do que em outras regiões.

A elevação dos preços dos notebooks, prevista para algo em torno de 10% neste ano devido à escassez de memória RAM e maior demanda por componentes, é um fator que deve desestimular a aceleração das vendas.

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Segundo Gaspar Fernandez-Conc, Vice-Presidente e General Manager para a América Latina, a expansão da base de clientes depende também de a empresa conseguir comunicar melhor o valor dos equipamentos com IA.

“Está do nosso lado, da Lenovo, explicar a tecnologia para que as pessoas entendam o que estamos oferecendo e como esse produto pode ajudá-las a ser mais produtivas e eficientes”, disse o executivo à Bloomberg Línea também durante a CES.

O VP disse estimar um crescimento entre 5% e 10% para a operação da companhia em LatAm.

“Em nível mundial dizem que vamos estar flat [estável], mas nós, na América Latina, nunca ficamos estáveis. Sempre estamos crescendo entre 5% e 10% todos os anos”, afirmou o executivo.

Nem tudo é PC

A área de serviços tem ganhado importância crescente na estratégia da Lenovo.

No resultado do segundo trimestre da companhia globalmente, a divisão alcançou US$ 2,6 bilhões em receita, uma alta de 18% em comparação com o mesmo período do ano anterior — a receita da Lenovo ficou em US$ 20,5 bilhões.

Globalmente, tudo que não é PC — incluindo infraestrutura, servidores, smartphones, tablets e serviços — já representa entre 47% e 49% da receita total.

No Brasil, a participação de não-PCs é ainda maior e ultrapassa a marca de 50% quando somados smartphones, servidores e serviços.

Isso se deve principalmente ao peso relevante dos smartphones na América Latina, região em que a Motorola tem presença significativa.

A Lenovo tem expandido os serviços avançados para além da garantia estendida tradicional, com uma oferta de gestão de parques de TI, help desk terceirizado e modelos de pagamento por uso — como o True Scale para servidores, em que clientes pagam pelo consumo de processamento e energia.

“Imagine isso para GPU, todo mundo está precisando de GPU”, disse Bloj.

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Em linha com o boom de IA, a gigante chinesa aposta no segmento de consultoria para implementação de IA, com uma metodologia para auxiliar clientes na jornada de adoção da tecnologia.

E ainda quer levar para os clientes as soluções de supply chain que usa internamente, baseadas em IA e consideradas pelo Gartner como uma das oito melhores do mundo em eficiência operacional.

Qira: assistente de IA

Um dos principais lançamentos anunciados pela Lenovo foi a Qira, assistente pessoal de IA que integra notebooks, smartphones, tablets e outros dispositivos da marca. Diferentemente de chatbots tradicionais, a Qira foi desenvolvida para aumentar a produtividade a partir da integração entre aparelhos.

“Eu fico o dia inteiro com meu telefone na mão, meu tablet, notebook, recebo um e-mail no notebook, outra mensagem no smartphone. No final do dia, eu faço o comando de catch-up para ver o que aconteceu e ele me traz todo o resumo de uma maneira bem intuitiva e produtiva”, citou o executivo.

O executivo disse que a estratégia não é monetizar a Qira por meio de licenças mas agregar valor ao ecossistema de produtos Lenovo, em linha com o conceito “Smarter AI for All” (IA Inteligente para Todos). O serviço deve chegar ao Brasil entre três e seis meses após o lançamento global.

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