Bloomberg Línea — O Grupo OLX, dono dos portais OLX, Zap e VivaReal, tem apostado no uso de inteligência artificial (IA) para atacar o principal entrave do mercado imobiliário brasileiro: a demora para vender um imóvel.
A categoria responde por metade da receita de R$ 1,2 bilhão do grupo no Brasil, e as três plataformas somam cerca de 7 milhões de imóveis anunciados. Com base nesses dados, a companhia, que tem a Prosus entre os sócios, desenvolveu uma ferramenta de recomendação de preços a imobiliárias e corretores.
O objetivo é usar a base proprietária de dados para mostrar às imobiliárias onde a demanda está mais aquecida e como o preço pedido se compara ao de mercado.
“Um imóvel bem precificado vende rápido”, afirma Olivier Aizac, CEO da operação brasileira, em entrevista à Bloomberg Línea.
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O desafio, segundo ele, é a liquidez do mercado. O Brasil realiza cerca de 1 milhão de transações imobiliárias por ano, volume equivalente ao de França ou Alemanha, países bem menores, o que ajuda a explicar os 15 a 18 meses que uma venda costuma levar para ser fechada.
Nos testes realizados até agora, de acordo com a empresa, quem segue as recomendações de preço geradas pela inteligência artificial recebe entre duas e três vezes mais contatos em um anúncio de imóvel do que quem as ignora.
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A ferramenta dá ao corretor argumentos para a conversa com o proprietário. “Se você quer vender no curto prazo, melhor ajustar o seu preço para baixo. Se não tem pressa, vamos esperar e garantir um preço maior, sem garantia de venda rápida”, contou o executivo francês que lidera a companhia desde meados de 2023.
A funcionalidade será apresentada no Conecta Imobi, evento que a companhia organiza há 14 anos e que reunirá cerca de 5 mil corretores nos dias 21 e 22 de outubro, no São Paulo Expo.
Imóveis lideram a receita
A categoria de imóveis é a principal do grupo, que conta com mais de 20 mil imobiliárias clientes. Automóveis respondem por cerca de um terço, com 800 mil veículos anunciados e, segundo Aizac, cinco vendas a cada dois minutos.
Os cerca de 20% restantes vêm de produtos usados, em especial das comissões sobre transações com pagamento online e entrega, e de publicidade. A plataforma recebe 50 milhões de usuários por mês e entre 300 mil e 400 mil anúncios por dia.
Em 2025, a operação local fechou com receita de R$ 1,2 bilhão, e a empresa prevê alta de dois dígitos neste ano. A margem Ebitda da OLX no Brasil está acima de 30%, percentual que avança entre 10% a 15% ao ano.
O patamar fica abaixo dos 48% da operação global, segundo dados divulgados pela Prosus, que controla a companhia em partes iguais com a Adevinta, proprietária de portais de classificados europeus.
Aizac atribui a diferença à maturidade do mercado de usados na Europa, que segue como o principal do grupo, com forte presença na Polônia, onde o hábito de comprar e vender itens usados é muito mais antigo.
“Nós vemos um potencial importante de crescimento de receita e de melhorias das margens da companhia no médio e no longo prazo”, disse. “Tem obviamente uma dimensão que é a proposta de valor, o quanto ajudamos a vender mais rápido, melhor e vender mais. E ainda os serviços que vamos disponibilizar para isso e que vamos monetizar.”
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O executivo também observa espaço para aumentar a penetração da plataforma no país e aumentar a audiência e a base de clientes. O Sul e o Centro-Oeste aparecem como regiões de maior potencial. No segmento de automóveis, o foco é São Paulo, onde a Webmotors é um competidor forte.
As estratégias são alimentadas por um investimento de R$ 440 milhões anunciados em maio deste ano pela empresa para as áreas de tecnologia, desenvolvimento de produtos e marketing. O valor representa um aumento de 30% em relação ao capital aportado em 2024.
IA em três frentes
Para avançar os produtos, Aizac organiza o uso de inteligência artificial em três eixos e conta com um time de 400 engenheiros localmente. O primeiro é a mudança da porta de entrada do mundo digital, que passou dos portais de busca para o e-mail, as redes sociais e agora os assistentes baseados em modelos de linguagem.
A OLX já tem um aplicativo dentro do ChatGPT e testa como o consumidor passará a buscar imóveis e carros nesse ambiente. O segundo é a eficiência interna: hoje, 70% dos tickets de atendimento são respondidos por IA. O terceiro é a oferta de ferramentas a clientes.
Para o consumidor que anuncia um produto, a plataforma gera o texto do anúncio a partir de uma foto.
“A pessoa não precisa pensar no jeito comercial de explicar o que está vendendo. A IA vai fazer esse trabalho por ela, e o resultado é que vende melhor porque a IA não tem preguiça de detalhar as informações”, afirmou.
Para os lojistas de automóveis, as recomendações de preço e de visibilidade têm um objetivo mais urgente. Cada dia com o carro parado é custo, e a chegada de modelos chineses a preços próximos aos dos usados torna o giro de estoque prioridade.
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Crédito por parceria, lançamentos como próxima fronteira
Diferentemente de concorrentes que avançaram sobre o crédito, a OLX opta por parcerias. Em imóveis, a empresa comprou participação minoritária na CredAluga, startup de garantia locatícia, para dar às imobiliárias parceiras mais segurança na escolha de inquilinos.
Em automóveis, trabalha com os principais bancos e oferece soluções de consórcio, mantendo-se agnóstica. “Nosso DNA é de marketplace, não é de financiamento”, diz Aizac, que não vê QuintoAndar e Loft como concorrentes diretos: o primeiro é uma imobiliária digital e a segunda, uma proptech de financiamento. “Cada um tem um papel diferente dentro dessa indústria.”
O mercado primário de imóveis é uma nova frente que a companhia começa a acompanhar mais de perto. Já há uma categoria específica de lançamentos nas plataformas, ainda em versão inicial, e a ambição é escalá-la entre 2027 e 2030.
“Vamos aprender, vamos trabalhar muito perto das incorporadoras”, afirma o executivo francês, lembrando que o ciclo de decisão é distinto: quem compra na planta só entra no imóvel dois ou três anos depois.
Com a mudanças na Prosus e tese de criação de ecossistema de negócios, implementada após a chegada do brasileiro Fabricio Bloisi, ex-CEO do iFood, à liderança da gestora sediada nos Países Baixos, a OLX testa também com o iFood a possibilidade de entregadores realizarem entregas de produtos da plataforma fora dos horários de almoço e jantar.
Sobre o risco de ser pega por uma disrupção, Aizac não minimiza. “É sempre bom ser paranoico, especialmente num momento de revolução tecnológica”, diz.
A história dos classificados, lembra, é uma história de ruptura: a indústria era dominada pela imprensa e foi tomada por novos entrantes com o digital. “O que me dá confiança que estamos mais preparados para aproveitar essa disrupção do que sermos as vítimas dela.”
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