Bloomberg — Esperava-se que as últimas duas semanas trouxessem alguma clareza a um mercado de ações abalado por uma série de riscos, especialmente as dúvidas sobre os elevados gastos com inteligência artificial, à medida que uma série de gigantes da tecnologia divulgava os seus resultados financeiros.
Após a divulgação dos números, o panorama ficou mais claro. Infelizmente para Wall Street, também ficou consideravelmente mais sombrio.
Embora os resultados das empresas que mais investem em IA tenham mostrado que a computação em nuvem continua em franca expansão, os investidores não ficaram impressionados.
Em vez disso, eles se concentraram nos custos crescentes da expansão dos centros de dados, que estão corroendo os fluxos de caixa livres, o que desencadeou uma forte onda de vendas na sexta-feira (30). Os dados levaram à queda do Índice Nasdaq 100 — de forte composição tecnológica — em outubro a 6,7%, o pior mês desde o pânico causado pelas tarifas em março de 2025.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
“Isso reflete o fato de os investidores estarem se tornando mais exigentes, pois não acredito que todas as empresas hiperescaladoras serão vencedoras daqui para frente”, afirmou Anthony Saglimbene, estrategista-chefe de mercado da Ameriprise. “Tudo vai se resumir a: quanto as empresas estão gastando, quanto estão recebendo de volta e quão sólidas são as suas vantagens competitivas, de modo que possam continuar aumentando a receita.”
As ações da Alphabet despencaram 13% na quinta-feira, 29, seu pior dia de todos os tempos, depois que a controladora do Google divulgou vendas decepcionantes em seu principal negócio de buscas e um segundo trimestre consecutivo com fluxo de caixa livre negativo — algo que nunca havia ocorrido desde que a empresa abriu o capital.
A Amazon seguiu com um relatório que mostrou um fluxo de caixa livre negativo significativamente pior do que os analistas haviam previsto, devido a maiores gastos de capital e ao crescimento mais lento em seu negócio de comércio eletrônico nos últimos três anos. As ações caíram 5,6% na quinta-feira e na sexta-feira, seu pior desempenho em duas sessões desde julho.
“Os investidores estão atribuindo mais risco às empresas com fluxo de caixa negativo”, afirmou Brian Mulberry, estrategista-chefe de mercado da Zacks Investment Management. “Acredito que estamos vendo os investidores votarem com a carteira ao classificar o que ‘qualidade’ significa para eles.”
O setor de IA, na verdade, começou a semana em desvantagem, já que a Meta apresentou um aumento considerável em seus planos de gastos de capital para o ano em seu relatório de resultados divulgado em 21 de outubro. Desde então, as ações caíram 12%. Um indicador do risco de crédito da empresa atingiu o nível mais alto já registrado.
E, na tarde de sexta-feira, a S&P Global Ratings rebaixou a perspectiva de classificação de crédito da controladora do Facebook de “estável” para “negativa”, observando que não está claro quando os gastos da Meta gerarão receita que supere os custos crescentes.
“Os investidores estão começando a recompensar as empresas que demonstram capacidade de converter esses gastos em receita e retorno real sobre o investimento, e a punir aquelas que ainda não o fazem necessariamente, ou que estão aumentando esses gastos”, afirmou Chris Osmond, diretor de investimentos da Fifth Third Wealth Advisors.
O pessimismo chegou a um ponto em que até mesmo empresas que apresentam fluxo de caixa livre estável — uma medida do caixa gerado pelas operações após a contabilização dos gastos de capital — estão sendo afetadas.
A Microsoft divulgou um crescimento de receita acima do esperado em seu negócio de nuvem Azure e um fluxo de caixa livre de quase US$ 19 bilhões. Mas suas ações ainda assim sofreram queda nesta semana, recuando 1,6% na sexta-feira.
As preocupações com a IA vão além das megacaps. Uma previsão trimestral decepcionante de vendas da fabricante de software ServiceNow reacendeu os temores sobre a disrupção causada pela IA e fez com que as ações despencassem 31%, um recorde, na quinta-feira. Enquanto isso, a Fortinet reduziu a sua previsão para vendas de serviços e provocou uma onda de vendas em ações do setor de cibersegurança.
Com as eleições de meio de mandato nos EUA na terça-feira, 3, os operadores enfrentam muitos riscos. Veja a seguir como está o cenário do mercado de IA enquanto os eleitores se dirigem às urnas.
Leia também: De US$ 75 milhões a US$ 7 bilhões: IPO da Anthropic pode multiplicar fortuna de fundos
O desafio existencial da Alphabet
Talvez não haja empresa que personifique melhor as contradições entre os riscos e as recompensas da IA do que a Alphabet.
Os seus resultados mostraram um forte crescimento nas consultas de busca relacionadas à IA. No entanto, como o Google cobra taxas mais baixas por esse tráfego do que nas buscas tradicionais, a receita desse segmento ficou aquém das expectativas.
As buscas representaram quase 56% da receita da empresa no ano passado; portanto, uma desaceleração pode ser potencialmente catastrófica.
A Alphabet já havia enfrentado preocupações de que sua participação de mercado no setor de buscas pudesse estar vulnerável à concorrência de chatbots lançados por empresas como a OpenAI. Embora os resultados sólidos nos trimestres anteriores tenham ajudado a dissipar esses temores, este relatório sugeriu que a Alphabet poderia ser a arquiteta de sua própria disrupção.
A Alphabet “está construindo infraestrutura, mas talvez correndo o risco de canibalizar seu próprio negócio”, afirmou Saglimbene. “A próxima etapa da IA será a fase de ‘provar o seu valor’.
Como as expectativas em relação às empresas que estão desenvolvendo essa tecnologia são tão altas, cada trimestre será um boletim que ou justifica as expectativas ou as refuta. Quando a narrativa não atende às expectativas, as quedas nas ações podem ser severas, como já vimos.”
Queda no setor de software
Esta temporada de resultados reacendeu as preocupações quanto à ameaça de a IA causar disrupção no setor de software, com ofertas de empresas como a Anthropic e a OpenAI potencialmente corroendo o seu poder de fixação de preços e suas margens.
Até o momento nesta temporada de divulgação de resultados, 90% das empresas de software do S&P 500 superaram as expectativas de lucro, enquanto apenas 70% superaram as expectativas de receita, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. Ambos os índices representam uma deterioração em relação ao último trimestre, quando 100% superaram as expectativas de lucro, enquanto mais de 80% superaram o consenso em relação às vendas.
“O mercado está completamente apreensivo quanto às empresas de software que sobreviverão em um mundo dominado pela IA”, afirmou Ben Connard, diretor de investimentos da Carnegie Investment Counsel.
Várias ações do setor de software foram afetadas nesta temporada de resultados, após as empresas apresentarem resultados ou previsões pouco animadoras.
Além da ServiceNow e da Fortinet, as ações da fabricante de software de comunicações Twilio despencaram 18% na sexta-feira após uma previsão decepcionante, o que constitui “uma preocupação clara”, pois “implica uma desaceleração acentuada” em relação ao terceiro trimestre, segundo a Bloomberg Intelligence.
Leia também: Brasil domina infraestrutura de IA na América Latina, mas Chile lidera ranking da Cepal
Devorando dinheiro
Os gastos elevados com infraestrutura de IA continuam a pesar sobre o fluxo de caixa livre das empresas de tecnologia de megacapitalização. Das quatro hiperescaladoras, três delas — Amazon, Meta e Alphabet — registraram déficits de fluxo de caixa livre no trimestre.
O fluxo de caixa livre negativo da Amazon atingiu quase US$ 35 bilhões, em comparação com um fluxo de caixa livre de US$ 430 milhões há um ano. A Microsoft foi a exceção, com um fluxo de caixa livre positivo de US$ 18,6 bilhões.
“Costumávamos ver o setor de tecnologia de uma maneira específica”, disse Saglimbene, da Ameriprise. “Elas costumavam ser empresas com poucos ativos, mas com forte fluxo de caixa e crescimento muito confiável. Agora, tornaram-se empresas com muitos ativos, o quadro do fluxo de caixa mudou e, em alguns casos, a confiabilidade do crescimento também mudou. Tudo isso justifica uma maneira diferente de analisá-las. É preciso avaliá-las de forma diferente do que se fazia antes, considerando os recursos que estão sendo gastos.”
O dilema dos gastos de capital
Os gastos de capital em centros de dados continuam a todo vapor. A Meta elevou ligeiramente a sua previsão para esses gastos neste ano, e seus compromissos de gastos futuros subiram para US$ 825 bilhões.
Embora os gastos de capital da Microsoft em seu primeiro trimestre fiscal tenham ficado aquém das expectativas devido a gargalos, a empresa afirmou que os gastos seriam mais elevados no segundo semestre de seu ano fiscal, que termina em junho. Enquanto isso, as obrigações futuras de gastos da Alphabet saltaram para bem mais de US$ 1 trilhão.
“Acho que a demanda por ferramentas de IA ainda é incrivelmente alta, e isso significa que precisamos que os gastos de capital sejam realizados”, afirmou Mulberry, da Zacks Investments. “Mas, neste momento, já acumulamos US$ 800 bilhões em gastos este ano, e como monetizar isso? E, quando isso for feito, será que se transformará em fluxo de caixa positivo — ou seja, será lucrativo?”.
--Com a colaboração de Carmen Reinicke e Matt Turner
Veja mais em bloomberg.com
©2026 Bloomberg L.P.