Brasil está sendo colonizado digitalmente, diz Mat Velloso, ex-Microsoft, Google e Meta

Em entrevista à Bloomberg Línea, o brasileiro aponta a falta de infraestrutura de energia e o processamento dados no exterior como os maiores gargalos do país na corrida pela inteligência artificial

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Bloomberg Línea — O Brasil corre risco de ficar para trás na corrida global por inteligência artificial e está sendo “colonizado digitalmente”. A avaliação é de Mat Velloso, atual Chief Product Officer da Docker, que deixou a Meta em fevereiro deste ano para se dedicar mais ao país.

Velloso construiu uma trajetória pouco convencional no Vale do Silício. Nascido em São Paulo e criado em Belo Horizonte, o executivo largou um negócio próprio com 100 funcionários aos 30 anos para se mudar para a Nova Zelândia. A decisão o levaria mais tarde à Microsoft, onde passou mais de 12 anos, incluindo um período como conselheiro do CEO Satya Nadella.

De lá, seguiu para o Google DeepMind, como vice-presidente de produtos da plataforma para desenvolvedores de IA, e depois para a Meta, onde ocupou o mesmo cargo dentro do time de superinteligência artificial da empresa.

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Em entrevista à Bloomberg Línea, Velloso explicou o que considera as maiores falhas estratégicas do país, a desorientação regulatória sobre IA, o risco de desemprego em massa e por que, apesar de tudo, ele é otimista com o Brasil.

A entrevista foi realizada durante o Brazil at Silicon Valley, evento organizado por estudantes da Universidade de Stanford e Berkeley, nos Estados Unidos. Pela primeira vez, os organizadores fizeram uma edição no Brasil, em parceria com a Fiesp, com a ambição de aproximar as startups das corporações e do poder público.

Quais são as perspectivas brasileiras nesse momento de IA? Você tem sido bastante crítico sobre uma inação brasileira. O que você vê de mais problemático?

O Igor Marchesini [Assessor Especial do Ministro da Fazenda do Brasil] fez um comentário de que mais da metade dos dados do Brasil hoje são processados em data centers estrangeiros — quer dizer, a gente está sendo colonizado digitalmente. O presidente Lula falou que soberania é a gente ter controle do nosso destino. Se essa é a definição de soberania, e eu concordo com ela, que controle é esse que eu tenho se metade da nossa inteligência já acontece fora do país? Um país estrangeiro, se quiser, fecha a torneira da nossa inteligência e nós paramos de funcionar. Então, quais são esses sistemas críticos que não podem parar de funcionar porque um país deseja fechar a torneira? Isso pra mim é o número um.

Se eu começo com essa linha de que a gente tem que ser dono do nosso destino, a gente tem que ser capaz de processar nossos dados, tem que ser capaz de defender nossos sistemas. O próximo passo é conseguir aplicar essa inteligência em problemas sociais — saúde, educação, segurança. O que eu preciso ter aqui em casa para conseguir fazer essas coisas? Energia barata e em abundância, para ter os GPUs e os data centers. Então começa pela energia — essa é a minha crítica: a gente não se preparou para isso, e está literalmente colonizado digitalmente por causa disso.

Programas como o Redata, com redução de impostos pelo governo federal e depois pelos estados via ICMS, podem ajudar?

Totalmente. Não quero dizer que nada está sendo feito — alguma coisa está sendo feita, e acho ótimo que isso esteja acontecendo. Mas quando eu olho o nível do progresso: a China está colocando 540 gigawatts na rede todo ano — são dois Brasis inteiros —, e nós colocando 9 gigawatts. Ano que vem, os Estados Unidos vão ter um déficit de mais de 13 gigawatts de energia para alimentar essas GPUs. Olha que oportunidade de ouro, o Brasil podia dizer: “nós temos energia barata, tragam esses GPUs pra cá”, mas nós não investimos e não nos preparamos para isso.

É como se você voltasse à primeira revolução industrial e falasse: “vai chegar uma revolução em que o pessoal vai construir máquinas — o petróleo vai alimentar essas máquinas, vamos investir em petróleo.” Agora é a mesma coisa com eletricidade. Estou vendo a indústria privada começar a se mexer, fazer investimentos. Eles estão andando mais rápido, mas o setor público ainda não entendeu a importância dessa infraestrutura de energia.

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E o que fazer agora, já perdido esse primeiro passo? O Redata é um caminho, mas o que fazer além disso?

Acho que tem que haver uma conversa séria sobre investimentos públicos e privados na área de energia, em como fazer isso numa escala muito maior do que está sendo feita hoje. Nós também temos que ter uma discussão sobre regulamentação — eu acho que a gente quer regular a IA, mas sinto uma certa desorientação. Por exemplo: a grande preocupação é como a IA pode manipular eleições. Ah, nós temos uma regulamentação em deepfake. Tudo bem, mas lembra da Cambridge Analytica? Não foi deepfake. Eu consigo minerar os dados de uma população, encontrar as pessoas indecisas, descobrir como manipular a opinião delas e controlar a eleição de um país inteiro com essas ferramentas. E não estamos nem de longe preparados para defender essas coisas.

Quando eu penso nos riscos para o Brasil, tem lugares em que acho que estamos regulamentando demais e lugares em que estamos regulamentando menos. Precisamos ter um senso de prioridade.

Como encontrar esse denominador comum?

Eu penso nisso como penso em um projeto na minha vida profissional: quais são minhas dez maiores preocupações, minhas dez prioridades? Democracia é uma — ver a democracia do país implodindo é gravíssimo. A independência de processamento é outra.

Tem um foco enorme agora, por exemplo, na questão de copyright — e eu acho que não é prioridade, e que nunca vai funcionar. Eu concordo com a ideia de que precisamos remunerar o criador, mas o que o projeto faz não é isso. Se você pedir para um modelo gerar uma música parecida com a de um criador, haverá a cobrança de um imposto, que vai para um fundo que remunera arbitrariamente quem eles decidirem que merece. Na prática, isso criou um imposto sobre inferência — e nós acabamos de concordar que a inferência tem que ficar mais barata, não mais cara. Nós estamos começando pelo fim, em vez de começar pelo começo.

No Vale do Silício, quando você lança uma empresa, primeiro se preocupa em fazer ela dar certo, depois em ganhar dinheiro. Aqui, trocamos a ordem: primeiro ganhar dinheiro com o negócio, para depois fazer ele dar certo.

Quando a China gera 540 gigawatts por ano, significa que a emissão de carbono está subindo. O primeiro pensamento é: olha, os caras não estão preocupados com o meio ambiente. Eu não acho que não estejam, e sim pensando na ordem das coisas: uma vez que tivermos essa inteligência, atacamos o problema do aquecimento global. É mais uma questão de priorizar.

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Você tem falado bastante com governos e candidatos. Eles conseguem entender essa necessidade de o Brasil priorizar elementos de tecnologia e IA?

Sinceramente, muitos desses líderes não. Está muito além do universo deles. Vou dar uma colher de chá para o [vice-presidente Geraldo] Alckmin. Quando eu estava com o Lula e falei desses problemas, o Alckmin veio conversar comigo depois e disse que entendeu que energia é um grande gargalo, que ia pensar bastante naquilo. Mas tinha outras pessoas na sala que eu acho que estavam completamente fora do universo delas. Eu estava com outros acadêmicos e me esforcei ao máximo para usar termos bem leigos, bem claros, mas tenho dúvidas se a mensagem foi capturada por todo mundo ali.

E isso não é só um problema do governo Lula — eu vejo todos os candidatos hoje sem muita substância no que estão propondo nessa área. Não acho que estão pensando o suficiente nisso.

Isso é falta de entendimento tecnológico ou de compreensão deste novo contexto geopolítico que chega com a IA?

Mesmo pessoas da minha indústria não têm essa clareza que tem a Paige Bailey [líder de Relações com Desenvolvedores de IA no Google DeepMind, Bailey dividiu o palco com Velloso em um painel do BSV]. Se você voltasse alguns anos e falasse que energia ia ser um gargalo, nem todo mundo estava entendendo que isso ia acontecer — várias pessoas diziam que essa onda de IA era hype, que ia acabar logo, que era tudo bolha. Tem um pouco de bolha, mas não vai acabar logo. Esse crescimento exponencial não era esperado, nem pelos especialistas. Há dez anos, eu lembro de perguntar ao chefe de ciência da Microsoft quando a AGI ia chegar e ele me falar “daqui a 200 anos”. Hoje, você faz a mesma pergunta e a resposta é “daqui a 10 anos”. De 200 para 10 é uma diferença enorme. Até para eles é difícil prever.

Não culpo tanto nossos políticos, mas acho que, quando você olha como a China opera, com planos de 100 anos, e o nosso sistema democrático força os políticos a pensar só nos próximos quatro anos. Isso, de certa forma, quebra nossa capacidade de fazer grandes planos.

Quais os efeitos de todo esse movimento de IA para as empresas e a economia em geral?

Existe um medo enorme — que ainda não se materializou — de que em algum momento a IA vai gerar um grande desemprego. Se isso acontecer, várias estruturas básicas são afetadas: pensa em como funciona a previdência social, que não funciona se não tiver gente suficiente entrando no mercado. Se muita gente sai do mercado de uma vez, e a população já está envelhecendo e encolhendo, isso cria uma dificuldade real.

Eu acho que tem um risco bem real termos uma onda de desemprego, com a IA começando a substituir uma série de empregos. A própria Paigey comentou algo nesse sentido: nós temos um tradutor aqui, mas poderíamos plugar o Gemini e fazer tradução simultânea. Ou seja, de repente, aquele emprego desaparece. O que acontece com aquela pessoa? Isso é uma preocupação, e a China já está se movimentando para criar leis — inclusive um tribunal chinês decidiu que você não pode substituir uma pessoa por IA. A maior parte do mundo ainda nem começou a pensar em como lidar com isso. Que leis que teremos? Vamos ter renda universal? Nós temos que pensar nessas coisas.

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Em mercados emergentes como o Brasil, isso fica ainda mais difícil?

Fica mais difícil, mas por outro lado o Brasil tem uma cultura de pensar no coletivo — a gente tem o SUS. O sistema de saúde americano é um sistema de terceiro mundo comparado ao SUS. Aqui, as pessoas realmente têm acesso à saúde. Um trabalhador do McDonald’s nos Estados Unidos não pode ficar doente — ele perde o emprego. Nós temos essa cultura, e isso me deixa otimista de que o Brasil pode pensar nessas coisas de um jeito diferente.

No universo de negócios, como você tem visto o desenvolvimento das startups brasileiras e das grandes empresas na conexão com a IA?

Eu saí do Brasil há 20 anos e fiquei bem desconectado durante um tempo. Quando comecei a me reconectar, tomei um susto com a quantidade de startups fantásticas aparecendo, empreendedores muito competentes, gente que já fez uma, duas, três startups darem certo e continua fazendo. Foi uma descoberta ótima ver essa explosão de criatividade no Brasil. A internet, a IA, a computação em nuvem se democratizaram — você não precisa estar no Vale do Silício para inovar, precisa de um computador em casa. Acho que essa é uma oportunidade de ouro para o Brasil. Temos que pegar essas ferramentas e acelerar essa inovação.

Há alguns anos, dizia-se que o Brasil estava cinco anos atrás dos Estados Unidos em desenvolvimento tecnológico, e outros países da América Latina, há dez anos. Como você percebe essa diferença hoje?

Depende da área. Sempre uso o exemplo de que o internet banking no Brasil não tem nada a dever aos internet banks americanos. O nosso sistema bancário é um dos mais avançados do mundo, não tem vergonha nenhuma. Nos Estados Unidos, você ainda digita a senha numa caixinha de texto, coisa que o Brasil descobriu que não precisa fazer há mais de uma década. O pix é outro exemplo. Os americanos têm ódio do Pix, porque funciona. Enquanto o mundo corria atrás de cripto, o Brasil resolveu o problema de outro jeito, e resolveu bem. Na área de saúde, também temos muito mérito. Nós não temos a tecnologia do primeiro mundo, mas temos um sistema que funciona bem para a população em geral.

Onde a gente está atrás é no sistema legal, que é um desastre completo. Parece que foi feito para segregar, não para o brasileiro entender. Nos Estados Unidos, você entra numa página, em três cliques abre uma empresa, abre conta de banco, tudo funciona. Aqui tem um excesso de burocracia e uma linguagem jurídica que sabota o país. Mas mesmo assim, você vê startups como o Enter chegando para resolver isso. Não acho que estamos tão atrás desse mundo.

Quais são as principais dúvidas das grandes empresas brasileiras que você tem ajudado hoje?

Muitas estão tentando se reinventar ou são empresas tradicionais tentando entender como o mundo vai mudar, e querem ter certeza de que não têm nenhum ponto cego. São grandes empresários, muitos bilionários, que falam: “eu quero que o Brasil dê certo, não tenho nada a ganhar se o Brasil der errado. Quero ter certeza de onde posso ajudar, quero que esse país prospere.” Sinto que eles têm uma preocupação genuína em ver o país prosperar, até por interesses pessoais.