Bloomberg Línea — Mudar o endereço cadastrado em uma operadora costuma significar dias de espera, um processo que atravessa vários sistemas internos e, não raro, termina em desistência. Foi esse gargalo que a Wonderful atacou em um de seus projetos no Brasil para um o cliente que recebe mais de 70 mil pedidos do tipo por mês.
Os agentes de IA entraram em produção em sete semanas, em um problema que, segundo Rui Duarte Brandão, VP de growth e responsável pela expansão da startup de origem israelense, dezenas de companhias já tentaram resolver sem sucesso.
É esse tipo de caso que a Wonderful startup quer multiplicar em solo nacional. A startup prevê investir US$ 10 milhões no país ainda neste ano e elevar o aporte para US$ 20 milhões em 2027, o equivalente a aproximadamente R$ 100 milhões. Os recursos irão, principalmente, para talentos e infraestrutura.
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Rui Brandão, executivo na liderança da empreitada, tem a meta de alcançar US$ 1 bilhão em receita em dois anos e fazer do país o maior mercado da companhia no mundo. Médico de formação, ele criou o Zenklub, startup que passou por fusão com a Conexa, e liderou a área de saúde mental e a adoção de IA na companhia antes de assumir a Wonderful localmente.
Fundada em 2025 pelos israelenses Bar Winkler (CEO) e Roey Lalazar (CTO), a Wonderful vende uma plataforma para que grandes empresas construam e operem agentes de IA em fluxos complexos de atendimento e de back office. A startup soma mais de US$ 800 milhões em captações e tem hoje cerca de 200 clientes em 40 mercados, com 400 pessoas em pesquisa e desenvolvimento em Israel.
Em sua última captação, anunciada em setembro no valor de US$ 550 milhões, a startup foi avaliada em US$ 5 bilhões.
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Por que o Brasil
A tese de Brandão se apoia no tamanho do país e no seu potencial de escala. “Você tem Estados Unidos, Índia e Brasil”, diz, ao listar os poucos países em que uma única empresa de telecomunicações pode ter 100 milhões de clientes.
A China, na avaliação dele, é difícil de operar; os EUA, muito competitivos, ficam para depois; e a Índia, com sua diversidade de idiomas e regiões, equivale a “várias Índias”. “Acreditamos que o Brasil pode ser o nosso maior mercado”, contou.
Para sair das projeções, a Wonderful está construindo a sua estrutura no país e promete contratar centenas de engenheiros e especialistas técnicos. Nos últimos seis meses, a startup conquistou seis clientes no Brasil e uma carteira de 30 projetos em andamento.
Na América Latina, são cerca de 20 clientes, entre eles o Mercado Livre, no México, e grandes bancos na Colômbia. Os contratos são negociados em dólar.
Em média, cada caso de uso é tocado por uma dupla, um consultor e um engenheiro, o chamado forward deployed engineer (FDE), que trabalha dentro do cliente e se apoia na plataforma para reduzir a necessidade de grandes times por projeto.
Sinistros, KYC e sistemas legados
As dores que mais aparecem entre as empresas brasileiras, diz o executivo, são processos de back office pesados, típicos de companhias grandes, com muitos sistemas e muito legado.
Ele cita o registro de sinistros de seguro de automóvel, com processamento de boletim de ocorrência e fotos do veículo, e o KYC de clientes corporativos em bancos, que exige checagem de contrato social e identificação de quem assina. Os clientes no país estão em setores como telecomunicações, aviação, bancos, seguros e energia.
Para ganhar tração, a Wonderful inverte a lógica de contratação de software corporativo. O cliente, segundo Brandão, não paga por implantação, setup ou discovery.
A empresa coloca o projeto em produção e só então começa a cobrança. “Mostramos valor em produção antes de o cliente pagar”, diz. A startup também se compromete com uma política de no lock-in. Todo o código e a propriedade intelectual construídos para o cliente pertencem a ele, que pode exportá-los e levá-los a outro fornecedor.
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Velocidade como diferencial
Questionado sobre a concorrência, que inclui rivais americanas de agentes, como a Decagon, Brandão responde que o diferencial está na velocidade. “Velocidade é o nosso maior valor”, afirma.
Ele atribui o ritmo a times que já chegam ao cliente com conhecimento de setores e processos, como cobrança, telecomunicações e KYC, o que dispensa longas etapas de diagnóstico, e a uma plataforma que, nas palavras dele, constrói “tudo agora” em vez de depender de implantações de meses.
A própria plataforma mudou nesses 20 meses. Começou em agentes conversacionais, em hebraico, idioma em que a terceirização de atendimento é cara e os modelos de linguagem precisam ser particularmente bons. Dali, avançou para fluxos de trabalho que cruzam várias áreas e sistemas e, mais recentemente, para módulos próprios de CRM e ERP e de agentes de código com camadas de governança.
A ideia, segundo Brandão, é que a empresa se torne a camada de IA do cliente, evitando o que ele descreve como a “desgovernança” de áreas de negócio que contratam ferramentas isoladas.
No caso de uma operação com visitas técnicas a domicílio, diz o executivo, agentes de diagnóstico reduziram em 40% o número de acionamentos de técnicos em dois meses.
Sobre o impacto no emprego, Brandão admite uma redução natural em algumas funções, mas diz que o efeito predominante tem sido outro: a IA organiza a informação de vários sistemas para que uma pessoa tome a decisão em minutos, e não em dias. “Nós estamos devolvendo a empresas muito grandes a agilidade que elas já tiveram quando eram menores”.