Mounjaro desponta no Brasil enquanto queda de patente do Ozempic acirra concorrência

Dezessete laboratórios correm para vender semaglutida, base do Ozempic, Wegovy e Rybelsus, da Novo Nordisk, após a queda da patente no país; mas novos compostos e a liderança do Mounjaro, protegido até 2032, podem ser barreira para genéricos

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Bloomberg Línea — Com patente garantida até 2032, o Mounjaro, da Eli Lilly, tem registrado um momento positivo no mercado brasileiro.

O medicamento para perda de peso da farmacêutica americana superou em vendas os medicamentos à base de semaglutida (Ozempic, Wegovy e Rybelsus, da Novo Nordisk) no Brasil em janeiro de 2026, segundo dados da Close-Up International, consultoria que monitora o mercado farmacêutico por meio de auditorias de prescrição e vendas coletadas diretamente nas farmácias.

O Mounjaro registrou R$ 850 milhões em janeiro, contra R$ 453,2 milhões somados pelos três produtos da Novo Nordisk, uma liderança que a equipe do UBS BB antecipou em relatório datado de outubro de 2025 ao projetar vendas trimestrais do medicamento superiores a R$ 1 bilhão no Brasil, com base em dados da mesma consultoria.

Se o ritmo de janeiro se mantiver, o resultado trimestral projetado pelo banco já estaria superado no primeiro mês.

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A virada do Mounjaro frente ao Ozempic antecedeu a queda formal da patente da semaglutida, ocorrida em março, e sinaliza uma mudança de preferência clínica que as farmacêuticas já monitoram, já que os genéricos podem estrear num mercado que já elegeu outro padrão terapêutico.

A razão está no avanço científico. O estudo SURMOUNT-5, publicado no New England Journal of Medicine em maio de 2025, demonstrou que a tirzepatida (GLP-1 e GPI), princípio ativo do Mounjaro, promove perda média de 20,2% do peso corporal em 72 semanas, contra 13,7% com a semaglutida.

Em termos absolutos: 22,8 kg contra 15 kg. Enquanto rivais disputam o mercado da semaglutida, a Eli Lilly opera com exclusividade sobre a tirzepatida até 2032.

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Queda da patente

A queda da patente da semaglutida movimenta 17 laboratórios na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas o mercado que disputam não é mais o topo da tabela.

Com o Mounjaro consolidado como referência clínica e a Lilly com sua patente protegida até 2032, a semaglutida genérica ocupa outro papel: volume, preço acessível e expansão do acesso, não liderança terapêutica.

Dos 17 pedidos, oito estão em análise (sete sintéticos e um biológico) e outros nove aguardam início de avaliação, segundo nota pública da Anvisa.

Em resposta à Bloomberg Línea, a agência confirmou que EMS, Ávita Care e Cristália são as empresas com processos em estágio mais avançado, mas que já receberam questionamentos técnicos e aguardam resposta das empresas para seguir.

“Via de regra, estas informações de processos são reservadas por envolver informações de interesse comercial das empresas”, informou a assessoria da Anvisa por email.

Os demais nomes na fila (Megalabs, Brainfarma e Cosmed, controladas pela Hypera Pharma [HYPE3], Sun Pharma, Biomm (BIOM3), Aché, Althaia e Libbs) foram identificados por apuração da Bloomberg Línea junto ao mercado farmacêutico, sem confirmação oficial da agência.

A Cimed, que havia anunciado lançamento para o dia seguinte à queda da patente, reviu o cronograma e estima entrada no mercado apenas em 2027.

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Como a candidata com maior probabilidade de aprovação no curto prazo, a EMS informou ter investido R$ 1,2 bilhão em planta em Hortolândia, interior paulista, com capacidade para 20 milhões de canetas por ano.

O produto usa síntese química em fase sólida, diferente do processo biológico da Novo Nordisk, o que o coloca em categoria regulatória própria: não é genérico, similar nem biossimilar. Preço estimado entre R$ 500 e R$ 600, queda de quase 50% em relação ao Ozempic atual.

O Itaú BBA projetou que o mercado de GLP-1 no Brasil pode superar R$ 50 bilhões até 2030, partindo de R$ 10 bilhões em 2025, num país de 70% da população acima do peso.

Para a Eli Lilly, os genéricos da semaglutida não são ameaça. “A troca do Ozempic pelo Mounjaro será uma decisão dos médicos”, afirmou Luiz André Magno, diretor médico sênior da Eli Lilly Brasil, à Bloomberg Línea no ano passado.

A tirzepatida age em dois hormônios (o GLP-1, que regula o apetite, e o GIP, que potencializa a queima de gordura), enquanto a semaglutida age apenas no GLP-1. Essa ação dupla, chamada de duplo agonista, explica a maior potência no emagrecimento, comparou Magno.

Em nota, a Novo Nordisk classificou o vencimento da patente da semaglutida como uma etapa “natural” do ciclo de inovação e reafirmou seu compromisso com o Brasil.

Com presença de quase 40 anos no país, a empresa dinamarquesa informou que mantém a expansão da fábrica em Montes Claros (MG) e segue investindo em ciência, produção local e soluções para doenças crônicas graves.

Era Mounjaro nas redes sociais

Os resultados clínicos do Mounjaro se traduzem em números do varejo farmacêutico. No último trimestre de 2025, a tirzepatida respondia por 57% das vendas de GLP-1 no Brasil, contra 43% da semaglutida, segundo o UBS BB.

Levantamento da Conexa Saúde mostrou que o Brasil registrou 586 mil buscas pelo termo “Mounjaro” no Google em julho de 2025, com 171 mil para “Mounjaro preço”, proporcionalmente mais do que as 120 mil buscas por preço do Ozempic, que somou 715 mil pesquisas no período.

No TikTok e no Instagram, multiplicam-se vídeos de endocrinologistas popularizando o Mounjaro, com dicas de nutrição para evitar perda de massa magra e treinos para prevenir flacidez e queda de cabelo.

Restaurantes passaram a oferecer o chamado cardápio Mounjaro, com porções menores e alimentos ricos em proteína, voltados a pacientes com apetite reduzido.

Os dias de exclusividade do Mounjaro também podem estar contados. A Eli Lilly avança com a retatrutida, triplo agonista hormonal, age em três receptores metabólicos contra dois do Mounjaro, com perda média de 28,7% do peso em 68 semanas, resultado comparável ao de cirurgias bariátricas.

A submissão regulatória nos Estados Unidos é esperada para o final de 2026. A Novo Nordisk desenvolve o CagriSema, com redução de 22,7% do peso após 68 semanas. Viking Therapeutics, AstraZeneca, Roche e Pfizer também avançam no segmento.

Segunda divisão das canetas emagrecedoras

A própria Novo Nordisk se reposiciona no país anunciando dose inicial do Wegovy injetável sem custo e o Rybelsus oral, versão em comprimido, a partir de R$ 565 mensais.

No setor público, a Novo Nordisk firmou parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro para capacitar profissionais no tratamento da obesidade, sem transferência de recursos nem doação de medicamentos.

Os primeiros pacientes iniciaram o tratamento em uma unidade de saúde do Rio de Janeiro no dia 18 de março, dois dias antes da queda da patente que a própria empresa tentou, sem sucesso, estender por mais 12 anos na Justiça.

O mercado privado segue em outra velocidade. As canetas emagrecedoras já respondem por quase 10% do faturamento da RD Saúde (RADL3), dona das bandeiras Raia e Drogasil, da Pague Menos (PGMN3) e da Panvel (PNVL3).

A RD capturava entre 30% e 40% das vendas de Mounjaro no país, participação desproporcional aos seus 16% de market share geral, reflexo de sua presença em regiões de alta renda, segundo relatório do UBS BB de outubro de 2025.

São o produto que mais cresce nas prateleiras e o que menos deixa lucro por unidade: a caixa mensal de Wegovy 1,7mg custa cerca de R$ 1.400 com desconto do laboratório e o Mounjaro, em doses de 2,5 mg a 15 mg, varia de R$ 1.400 a R$ 3.000 dependendo da dosagem, mas a margem para a farmácia é menor que a de um medicamento comum.

Em 2025, as maiores redes paulistas registraram 3.838 roubos de canetas, média de 11 por dia, perda de R$ 68,97 milhões, com 64% dos casos na capital, contou a Abrafarma, associação das 29 maiores redes do país, que criou um grupo de segurança específico pela primeira vez em sua história.

Ainda assim, nenhuma rede quer ficar fora desse mercado. A Panvel, em apresentação recente a analistas, listou o GLP-1 ao mesmo tempo como vilão da rentabilidade hoje e principal motor de crescimento até 2030, quando projeta quase dobrar sua receita em cinco anos, de R$ 5,9 bilhões em 2025 para entre R$ 11,5 bilhões e R$ 12 bilhões.

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