Veste, dona de Le Lis e Bo.Bô, já colhe resultados de reformas em lojas, diz CEO

Em entrevista à Bloomberg Línea, Alexandre Afrange, diz que unidades reformadas entregam crescimento de vendas 20 pontos percentuais acima das que não tiveram alterações

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Bloomberg Línea — Em uma noite recente na rua Oscar Freire, um dos endereços mais nobres do varejo de vestuário e acessórios de São Paulo, no bairro dos Jardins, andaimes eram montados na calçada em frente à loja da marca Bo.Bô, para que operários trabalhassem na revitalização da fachada e do interior da unidade.

Por trás da obra havia a execução de uma estratégia de retomada das vendas do grupo de moda Veste (VSTE3), antes conhecido como Restoque, dono também de outras quatro marcas - Le Lis, Dudalina, John John e Individual - voltadas para o público de alta renda.

A recuperação acontece no momento em que um dos principais players do segmento, o Grupo Soma (SOMA3), acertou uma fusão com a Arezzo (ARZZ3) para criar o maior grupo de moda do país.

O “banho de loja” recém-aplicado à unidade da Bo.Bô na Oscar Freire não é pontual. A previsão é reformar mais 20 lojas em 2024.

Em 2023, dos R$ 116,2 milhões investidos pela companhia, cerca da metade foi destinado à implementação de “novos conceitos arquitetônicos” no seu parque que conta com 171 lojas próprias, nove outlets e nove franqueadas, segundo o balanço do quarto trimestre.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO da Veste, Alexandre Afrange, disse que as vendas de uma loja reformada conseguem crescer 20 pontos percentuais, na comparação com o desempenho de unidades sem essa conversão.

Os recursos para as 20 novas reformas previstas para 2024 virão da geração de caixa. A empresa já reformou mais de 40 unidades, disse a diretora de Relações com Investidores, Elisa Bastos de Lima.

“Estamos fazendo uma reorganização tijolo por tijolo, etapa por etapa, sem pegar atalhos, na velocidade que o mercado absorve. Com essas transformações já feitas e em curso, buscamos uma rentabilidade melhor e que seja sustentável”, disse o executivo.

Ele classificou como um “sucesso” até o momento o turnaround da Veste, que abandonou o nome anterior (Restoque) no final de 2022, após a conversão de debêntures da dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão em ações por investidores e credores, parte do processo de recuperação extrajudicial de 2020.

Afrange, um dos fundadores da marca Le Lis (antes Le Lis Blanc) e ex-CEO da Restoque, retornou a cargos de direção do grupo em 2021, primeiro como diretor geral de Operações (COO) e, um ano depois, como CEO em substituição a Livinston Bauermeister.

O grupo de moda, um dos mais tradicionais do país, havia se endividado como fruto de um plano de expansão agressivo e de uma operação com deficiências, além de queda abrupta das vendas com a pandemia.

A conversão de debêntures em equity levou ao controle da Veste a gestora WNT, que tem o Banco Master, de Daniel Vorcaro, como principal investidor. Fundos sob gestão da WNT possuem 49,26% da Veste, seguidos por Geribá Investimentos (18,09%) e BTG Pactual (12,99%), segundo dados do site de RI.

Em 2023, a Veste realizou um aumento de capital no valor de R$ 100 milhões.

“Já temos provas do sucesso da reestruturação. O plano de reorganização está dando resultados”, disse Afrange.

Margem bruta na casa dos 65%

O CEO da Veste disse que o grupo não pretende tocar um plano de expansão no curto prazo nem praticar uma política comercial apoiada em descontos com impacto negativo em suas margens de lucro.

Em 2023, a margem bruta ficou em 65,7%, três pontos percentuais acima da registada no ano anterior (62,7%). Afrange disse o plano é conservar esse patamar de margem bruta.

“Estamos aumentando a base de clientes, mesmo sem o foco em liquidações. O número de lojas físicas está adequado para nossas projeções. Temos lojas onde está o PIB, onde está o consumo, e o e-commerce nos dá uma capilaridade importante para aumentar a base de clientes”, afirmou o CEO.

As vendas digitais, por meio de canais como o site e o WhatsApp, já respondem por 22% da receita. O canal B2C (ao consumidor) manteve o indicador de vendas a preço cheio como principal condutor de sua estratégia comercial, aumentando vendas (+5,5% no quarto trimestre na base anual) e melhorando a rentabilidade.

No B2B, em que o faturamento caiu 4,8% em 2023, a Veste tem cerca de 3.000 clientes e já esboça uma recuperação, segundo o CEO, sem citar dados específicos.

Fechamento de unidades e tíquete de R$ 2.500

No ano passado, a companhia fechou nove unidades, das quais um outlet e quatro lojas da John John. As decisões levaram em consideração principalmente o critério de rentabilidade. Neste começo de 2023, o grupo encerrou mais uma operação.

“De modo geral, não temos um grande ajuste no número de unidades para fazer neste ano. Talvez uma com performance pior possa fechar, mas também podemos avaliar uma oportunidade e abrir outra”, afirmou o CEO.

Os nove outlets, por sua vez, representam 6% da receita e devem ficar nesse patamar, pois não há intenção de aumentar o número de unidades. “Já tivemos 41 outlets no passado. Usamos essas unidades para escoar as sobras das coleções”, explicou.

A Veste trabalha com contratos de arrendamento dos imóveis de suas lojas, com duração média de quatro anos. Segundo Elisa Bastos de Lima, shoppings têm colaborado com a estratégia da companhia de rentabilizar sua base de clientes por meio da transferência de suas lojas para pontos melhores. Em 2023, o faturamento médio por loja atingiu R$ 5,9 milhões, um avanço de 18,7% ante 2022.

A Bo.Bô tem o tíquete médio mais elevado entre as cinco marcas da companhia. Segundo o CEO, cada compra na marca alcançou o valor médio de R$ 2.500 em 2023, acima da Le Lis (entre R$ 1.200 e R$ 1.300), que respondeu por quase a metade (49%) do faturamento da companhia no período.

“A Bo.Bô mais que dobrou de tamanho nos últimos anos. Tinha 4% e fechou 2023 com 9% de contribuição na receita”, disse Afrange.

Foi também a marca que terminou o ano de 2023 com a maior taxa de crescimento de receita bruta da Veste (24,4% na base anual), que totalizou R$ 117,7 milhões em doze meses.

A Le Lis teve o segundo maior ritmo de aumento de vendas (12,8%),com receitas de R$ 653,2 milhões, seguida por Dudalina (R$ 226,6 milhões, queda de 1,2%) e John John (R$ 224,8 milhões, redução de 11%).

Já a marca Individual, criada em Santa Catarina, teve o menor faturamento do portfólio da Veste: R$ 70,9 milhões e perda de 1% na comparação com 2022.

John John: impacto negativo

O desempenho negativo de John John em 2023 chamou a atenção de analistas de equity research do BTG Pactual em relatório sobre o balanço.

Com valor de mercado de R$ 1,6 bilhões, companhia acumula queda da ação de cerca de 30% em 2024 até a segunda-feira (18), quando fechou cotada a R$ 14,00. Em doze meses, subiu perto de 20%.

“Assim como nos últimos trimestres, a Veste manteve a estratégia de menos vendas promocionais e reajustes de preços para reduzir conflitos entre canais e melhor posicionar suas marcas, apesar do crescimento consolidado de SSS [Same Stores Sales] de 6,8% a/a [ano a ano], impactado negativamente pelo canal John John e B2B”, disse o analista Luiz Guanais, do BTG Pactual, no relatório. Ele tem recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 24 em 12 meses.

O CEO disse que, ao fim de 2024, o investidor começará a ver resultados positivos na operação da John John, que será a última marca da empresa a passar pelas transformações já executadas nas demais.

Exposição ao público de alta renda

Em 2023, a empresa apresentou lucrou R$ 55,9 milhões, com margem líquida de 5%, enquanto o lucro do quatro trimestre somou R$ 19,6 milhões, com margem de 7%.

O Ebitda ajustado do ano foi de R$ 224,4 milhões (+12%), com margem de 20,2%. No quarto trimestre, a geração de caixa cresceu 1% para R$ 19,6 milhões, com margem de 21,8%.

“À medida que a empresa continua a ajustar estrategicamente suas operações (redimensionamento da presença de lojas, otimização da estrutura de capital, remodelações de lojas, menos vendas promocionais e reposicionamento de marcas em todos os canais), esperamos uma tendência de melhoria nos próximos trimestres, apesar dos fracos números do quarto trimestre”, escreveu o analista do BTG Pactual, citando ainda a “exposição [do grupo] ao nicho resiliente de alto padrão no Brasil”.

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