Bloomberg Línea — Um dos gargalos mais comuns apontados por empresas para o crescimento de seus negócios é o capital humano, em diferentes mercados. No Brasil, essa questão é ainda mais presente, diante de fatores como deficiências históricas na educação básica e o tamanho da demanda para ser atendida.
Para a Truss, marca do Grupo Boticário de produtos para o cabelo voltados para uso de profissionais, o treinamento e a qualificação de novos cabeleireiros se tornou um pilar central da estratégia de expansão.
A tal ponto que a empresa aprovou seu plano mais ambicioso até hoje, que prevê investimento de cerca de R$ 40 milhões até o fim de 2026 para a capacitação de 220 mil profissionais até 2027 - o anúncio se deu no começo da semana, justamente no Dia do Cabeleireiro, na segunda-feira (19).
“É um movimento de aceleração do crescimento, considerando o nosso modelo de negócios com franquias e o objetivo de ser uma empresa nacional com alcance maior”, disse Giovana Orlandeli, diretora de Comunicação e Branding da Truss, em entrevista à Bloomberg Línea.
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A executiva explicou que o plano representa um aumento de quase 200% em relação aos 75.000 profissionais capacitados nos dois últimos anos.
A marca realizou mais de 8.000 atividades educacionais, entre treinamentos em salões, eventos regionais e experiências presenciais de imersão, no último ano.
A Truss Professional, fundada por Manuella Bossa em 2003, foi adquirida pelo Grupo Boticário em novembro de 2022, com a conclusão do negócio em janeiro de 2023.
Desde então, o grupo liderado pelo CEO Fernando Modé tem investido para expandir os negócios em um setor - de produtos e serviços para o cabelo - que movimenta R$ 130 bilhões ao ano no Brasil, de acordo com estimativas da indústria.
“O cabeleireiro e a educação estão no cerne do negócio de Truss. A educação é uma forma de fomentar não só um setor que é tão grande na economia como de permitir que os profissionais tenham acesso a melhores técnicas”, disse Orlandeli.

Segundo a executiva, o profissional que possui mais conhecimento técnico vende mais serviços e produtos, rentabiliza melhor o seu salão e amplia o tíquete médio, de modo que alimenta um ecossistema em torno do negócio que comanda.
A capacitação inclui também conteúdo que vai além do tratamento do cabelo, da gestão operacional e financeira do salão ao atendimento ao cliente.
Há também treinamento sobre criação de conteúdo, frente que ganha cada vez mais relevância sob a ótica de apresentar o seu trabalho para um público mais amplo - e isso passar por saber explicar os atributos também dos produtos.
O treinamento é dividido em módulos que são “consumidos” de acordo com as necessidades de cada franqueado e profissional, de produtos para o cabelo no verão ao tratamento de loiro - uma das principais tendências. “Não funciona no modelo ‘one size fits all’: cada um tem as suas demandas e as suas necessidades.”
Para a Truss, a capacitação não só é fundamental como também serve como “barreira de saída”, na medida em que o profissional passa a usar mais os produtos da marca, a saber como utilizá-los adequadamente e a buscar inovações, o que amplia o seu engajamento, estendendo a sua jornada de aprendizado.
A inovação em fórmulas, ressaltou a executiva, é outro dos pilares do modelo do Grupo Boticário como um todo - são quase 5.000 novos produtos por ano -, de modo que preparar o profissional de salão para que tenha interesse em conhecer o que há de novidade e saber como fazer uso é igualmente essencial.
E, consequentemente, tudo isso amplia o seu LTV (Lifetime Value), métrica do valor gasto ao longo do relacionamento do consumidor com uma empresa.

“É um mercado que depende muito de confiança. Você, como cliente, não coloca seu cabelo nas mãos de qualquer pessoa, em alguém em que não confie. E isso significa que o profissional precisa estar muito seguro do que está fazendo”, disse a diretora da Truss. “Depois que ele aprende uma técnica com um determinado produto, dificilmente ele vai se arriscar a trocar por outro”, explicou.
Um profissional fidelizado chega a comprar três vezes mais produtos para o cabelo para seus clientes do que aquele que não tem um relacionamento.
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Por outro lado, em um setor marcado pela informalidade, na medida em que as barreiras de entrada são baixas - uma pessoa pode começar na área recebendo clientes em sua própria casa, com tesouras e outros produtos de valor acessível -, a capacitação permite que esse profissional consiga evoluir na sua jornada.
“O objetivo é que o cabeleireiro que está no interior do Ceará, por exemplo, tenha acesso ao mesmo conteúdo de treinamento do que aquele que frequenta a nossa Truss Academy em São Paulo”, disse a executiva, em referência, no segundo caso, ao espaço aberto no começo de 2025 e que serve também para eventos e relacionamento.
Orlandeli ressaltou que, no fim do dia, o treinamento funciona uma via de mão dupla.
“Todo o conhecimento que vai para a ponta também volta em forma de aprendizado para a marca, com o entendimento das necessidades dos clientes da parte de quem está em contato direto com eles”, afirmou. “É muita informação que nos ajuda a entender, por exemplo, sobre especificidades de fios.
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