Tarifas aéreas no Brasil subiram mais de 30% desde início da guerra, diz J.P. Morgan

Segundo o J.P. Morgan, o salto do querosene de aviação desde o conflito no Oriente Médio elevou custos das companhias, que cortaram voos em quase 5% em maio às vésperas do pico de demanda de julho; Petrobras já aplicou três reajustes seguidos

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Bloomberg Línea — As tarifas aéreas domésticas no Brasil acumulam alta superior a 30% em base anual desde o início da guerra no Irã, segundo dados do monitor de preços do J.P. Morgan, divulgado nesta terça-feira (19) em relatório.

O movimento responde à escalada do querosene de aviação (QAV), pressionado pela trajetória de alta do barril de petróleo desde o conflito, deflagrado em 28 de fevereiro com ataques dos EUA e de Israel ao território iraniano.

O aumento antecede a alta temporada da aviação. Os meses de junho, julho e agosto concentram a maior demanda do ano no transporte aéreo brasileiro, com o pico em julho, por causa do recesso escolar.

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A elevação tarifária registrada em maio ocorre, portanto, fora do período de procura sazonalmente mais forte, um fator que isola o componente de custo como principal vetor do reajuste atual, distinto da pressão de demanda típica do meio do ano.

A Copa do Mundo, disputada entre 11 de junho e 19 de julho na América do Norte, adiciona demanda internacional no mesmo intervalo em que as companhias reduzem a oferta doméstica.

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O QAV representava 45% dos custos operacionais das companhias aéreas antes do reajuste de maio, de acordo com a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas).

A Petrobras, que detém cerca de 85% da produção nacional do combustível, promoveu em maio a terceira alta consecutiva do insumo, de 18%, após reajustes de 9,4% em março e de 54,8% em abril.

A estatal manteve a opção de parcelamento em seis vezes para as distribuidoras, com primeira parcela prevista para julho de 2026, medida que, segundo a companhia, busca preservar a demanda e reduzir os efeitos sobre o setor.

A resposta das empresas tem sido o corte de oferta às vésperas do pico de demanda. As companhias aéreas reduziram voos em quase 5% em maio na comparação com estimativas de um mês antes, de acordo com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

O J.P. Morgan revisou para baixo a projeção de capacidade da Azul (AZUL3), agora estimada em -5% na variação anual, ante +1% anteriormente, segundo o banco.

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Para o setor, o repasse ao consumidor tende a se prolongar para além da alta temporada. “É um processo longo, que pode durar até seis meses”, afirmou Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), em entrevista à Agência Brasil, ao avaliar a transmissão da alta do barril às refinarias e aos contratos.

No relatório, o J.P. Morgan mantém preferência por Latam Airlines (LTM) e Copa (CPA), ambas com recomendação overweight (equivalente a compra, exposição acima da média de mercado), citando valuations razoáveis, balanços mais leves e geração de caixa livre mais consistente, com a Latam também favorecida pelo hedge de combustível.

“Continuamos recomendando uma postura cautelosa”, afirma Guilherme Mendes, analista do J.P. Morgan responsável pela cobertura de aviação na América Latina.

Mesmo nesse cenário defensivo, o banco vê Latam e Copa como as opções mais resilientes, por balanços mais leves e geração de caixa mais consistente.

Sobre a Azul (neutra), o banco cita o overhang (pressão vendedora potencial) associado à listagem de ADRs (recibos de ações negociados na bolsa dos EUA), mas reconhece o “balanço sólido” após a saída do Chapter 11, anunciada em fevereiro.

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