Queda da patente do Ozempic exige rigor sobre genéricos, diz VP da Novo Nordisk

Empresa alerta para surgimento de medicamentos de baixa qualidade e alega que riscos surgem em um ambiente de crescente pressão competitiva, possível entrada de genéricos mais baratos e desafios regulatórios desiguais na região, explicou Valney Suzuki à Bloomberg Línea

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Bloomberg Línea — A Novo Nordisk (NVO), fabricante de medicamentos para obesidade e diabetes, alertou sobre os riscos da possível entrada de produtos de qualidade inferior após o vencimento, em vários países do mundo, de suas patentes de tratamentos à base de semaglutida, o composto ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy.

O vencimento da patente da empresa dinamarquesa Novo Nordisk sobre a semaglutida em países como o Brasil, a Índia ou o Canadá pode ter efeitos diretos sobre os preços, o acesso e os padrões de qualidade, em meio a um boom na demanda global por tratamentos para a obesidade e o diabetes.

“É algo comum no setor (o vencimento da patente). Investimos, vendemos, a patente expira e aí começa outro ciclo”, disse Valney Suzuki, vice-presidente da área de Negócios para a América do Sul, América Central e Caribe da farmacêutica Novo Nordisk, à Bloomberg Línea.

Segundo o executivo, o principal desafio que se apresenta é a capacidade dos sistemas regulatórios de garantir a segurança dos novos produtos que entram no mercado desses países.

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“Os órgãos reguladores precisam ter muito bom senso ao decidir se aprovam ou não a entrada dessas moléculas”, observou Suzuki.

De acordo com sua experiência, existem agências reguladoras que aplicam padrões rigorosos e exigem evidências clínicas sólidas antes de autorizar um medicamento.

“Já vi, inclusive, agências em todo o mundo que recusaram a aprovação de genéricos da semaglutida por falta de dados clínicos”, afirmou o executivo.

No entanto, também existem “agências que são um pouco mais superficiais e que, de forma apressada, permitem a entrada de produtos genéricos, talvez sem tanto rigor”.

“Portanto, é importante compreender a relevância do medicamento original, que, no caso da semaglutida, conta com dados de mais de 30 milhões de pacientes”, afirmou Valney Suzuki. “Realizamos dezenas de estudos clínicos. Com isso, temos a certeza de poder atestar a eficácia do produto”.

Entre os aspectos positivos do vencimento da patente, Suzuki destacou que a entrada de medicamentos genéricos nos mercados pode ampliar o acesso aos mesmos.

O executivo explicou que, em alguns casos, a entrada de medicamentos genéricos levou a uma nova segmentação do mercado e a um reajuste nos modelos de preços para os pacientes.

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No entanto, ele observou que também existem terapias nas quais a chegada dos genéricos não teve um impacto significativo.

A Bloomberg informou que pelo menos uma dúzia de grandes empresas farmacêuticas indianas planejava lançar versões genéricas dos bem-sucedidos medicamentos para emagrecer da Novo Nordisk assim que a patente expirasse, em março.

Por exemplo, a Natco Pharma fabricou uma injeção de semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy.

Seu dispositivo em forma de caneta custa cerca de 4.500 rúpias por mês (cerca de US$ 47,82 atualmente).

Em comparação, a caneta Wegovy da Novo tem um preço inicial de aproximadamente 10.480 rúpias (US$ 111) na Índia e cerca de US$ 199 nos Estados Unidos no modelo de pagamento direto.

Mercado de produtos falsificados

Suzuki também alertou sobre o crescimento do mercado ilegal de medicamentos falsificados, como o Ozempic e outros tratamentos à base de semaglutida.

Ele destacou que alguns agentes têm se aproveitado da grande necessidade e vulnerabilidade dos pacientes para introduzir produtos falsificados no mercado.

Ele indicou que esse fenômeno tem múltiplas origens, que vão desde redes sofisticadas de falsificação até imitações mais rudimentares.

E alertou que essa situação já resultou até mesmo em internações hospitalares, o que representa um problema de saúde pública.

Por isso, recomendou aos pacientes que adquirissem os medicamentos exclusivamente por meio de canais comerciais autorizados e aprovados pelas agências reguladoras locais.

“Não procure soluções milagrosas na internet com preços muito diferentes, pois pode não se tratar de um produto original e devidamente testado”, afirmou.

O mais recente estudo clínico da Novo Nordisk, chamado STEP UP, mostrou que os pacientes em tratamento alcançaram uma perda média de peso de 21%, e que um em cada três alcançou reduções de até 25%.

“Ao conter a obesidade, você converte uma pandemia e uma série de outras doenças que têm um impacto muito oneroso no sistema de saúde e no bolso da população, além de causar muitas faltas no trabalho”, afirmou o executivo da Novo Nordisk.

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Alta demanda na América Latina

O debate sobre os medicamentos para a obesidade e o diabetes ocorre em meio a um forte aumento da demanda na região.

Nos últimos 12 meses, encerrados em fevereiro, a empresa vendeu aproximadamente 2,16 milhões de canetas para o tratamento da obesidade, incluindo Wegovy e Saxenda, na América Latina, excluindo o Brasil e o México.

De acordo com a Novo Nordisk, a América Latina tem registrado taxas de crescimento de dois dígitos nas terapias para obesidade e diabetes, impulsionadas pela alta prevalência dessas doenças.

Suzuki explicou que esse dinamismo transformou a região em um dos mercados de maior crescimento global para a empresa, tendo o Brasil e o México como principais centros, mas com avanços significativos também em países como Colômbia, Chile e Argentina.

“Aqui na América Latina, infelizmente, o que não nos enche de orgulho é a prevalência da diabetes. Quando se trata de obesidade ou sobrepeso, chamam muito a nossa atenção, por exemplo, países como a Argentina e o Chile, que apresentam uma prevalência em torno de 70%”, observou.

O aumento da demanda por esses produtos provocou, na época, episódios de escassez em várias partes do mundo, incluindo a América Latina, quando a oferta não conseguiu acompanhar o crescimento do consumo.

“Hoje a situação é diferente. A Novo Nordisk, após um investimento maciço, tem estoque e abastecimento para toda a América Latina. Não estamos mais com falta de produto. Há um estoque muito bem distribuído na região”, disse ele.

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Panamá: centro logístico regional

Diante do “boom” regional desses produtos, o Panamá se consolida como peça-chave na estratégia de distribuição regional da Novo Nordisk.

A empresa está implementando um novo centro logístico no país para centralizar o abastecimento para a América Latina, em resposta ao aumento de até 145% nos volumes de alguns produtos.

“O que estamos fazendo é investir em um centro logístico no Panamá para a América Latina, o que nos garante agilidade e maior fluidez”, afirmou. “Iniciamos a fase de implementação este ano e a ideia é que esteja pronto o mais rápido possível.”

Segundo Suzuki, atualmente cada país deve realizar suas importações diretamente das fábricas localizadas nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa e na Ásia.

O executivo explicou que, nesse contexto, é mais eficiente criar um centro logístico que centralize as solicitações.

O modelo busca melhorar o planejamento, otimizar os processos e acelerar a entrega dos medicamentos a diferentes países da região.

“A criação de um centro regional permite ‘um planejamento mais preciso e uma entrega mais rápida aos países’”, explicou ele.

O centro logístico pretende aproveitar a posição estratégica do Panamá como centro de conexões aéreas e marítimas, bem como sua conectividade regional.

Na região, a empresa conta com cerca de 1.400 funcionários diretos, sem contar com o pessoal dedicado à fabricação.

No ano passado, no âmbito de uma reestruturação global, a empresa reduziu cerca de 10% de seu quadro de funcionários na América Latina, em linha com o que ocorreu em outras regiões, contou Valney Suzuki.

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Acesso aos produtos

O executivo explicou que a empresa mantém conversas com governos, seguradoras e sistemas de saúde para ampliar o acesso aos tratamentos. “Nos reunimos, conversamos e tentamos chegar a acordos sustentáveis para que essa população tenha acesso”.

No ano passado, por exemplo, executivos da Novo Nordisk e de sua concorrente Eli Lilly (LLY) chegaram a um acordo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para reduzir os preços dos medicamentos que contêm GLP-1 para perda de peso em programas de saúde como o Medicare e o Medicaid.

Suzuki destacou que existem programas de apoio aos pacientes que incluem educação em saúde (com foco em alimentação e na promoção de um estilo de vida saudável), acompanhamento clínico e descontos que podem chegar a 50%, dependendo do país.

No entanto, ele afirmou que os preços variam significativamente de acordo com a regulamentação local, já que alguns mercados operam sob controles estatais, enquanto outros têm esquemas mais flexíveis.

Na América Latina, a empresa está em fase de preparação regulatória para o lançamento de novas soluções à base de semaglutida, especialmente na sua versão oral para o tratamento da obesidade.

A Novo Nordisk explicou que o processo ainda se encontra em uma fase preliminar de aprovação regulatória em cada país.

Assim que essas autorizações forem obtidas, a empresa dará início às negociações de acesso com os sistemas de saúde para definir sua inclusão nos planos públicos.

“Estamos abertos a dialogar com todos os governos; o processo regulatório já está em andamento”, afirmou ele.

A empresa não descarta a possibilidade de a região ser incluída nos planos de lançamento, embora ainda não haja datas definidas, já que tudo depende do andamento dos processos regulatórios em cada mercado.

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