Bloomberg — Para se ter uma ideia de como o varejo de luxo dos Estados Unidos tem sido volátil nos últimos anos, basta olhar para o currículo de Geoffroy van Raemdonck.
Ele foi nomeado novo CEO da Saks Global Enterprises na quarta-feira (14), como parte do processo de Chapter 11 nos Estados Unidos (equivalente à recuperação judicial no Brasil) da varejista.
Pouco mais de um ano depois de deixar o cargo mais alto na Neiman Marcus, quando a Saks comprou a famosa loja de departamentos em um acordo de US$ 2,65 bilhões alimentado por dívidas, ele retorna com a missão de conduzir a empresa combinada e, uma vez que ela emerja, tornar seu portfólio de lojas de departamento de luxo lucrativo.
Os detentores de títulos da Saks, que estão fornecendo US$ 1,5 bilhão em financiamento para a empresa, acreditam que van Raemdonck pode fazer isso - em parte porque ele já fez isso antes.
O veterano do varejo, de 53 anos, nascido em Bruxelas, na Bélgica, estava à frente da Neiman Marcus há cerca de dois anos quando o grupo entrou com pedido de Chapter 11 em 2020, levado ao limite pelo fechamento de lojas durante a pandemia de covid-19.
Leia mais: Valor da escassez: por que um relógio de ouro da Rolex é mais barato que o de platina
Van Raemdonck permaneceu no cargo e supervisionou a saída da Neiman do processo, estimulada por um boom pós-pandemia nos gastos com luxo.
Os credores da Saks também pressionaram para que Van Raemdonck assumisse o comando da empresa porque acreditam que ele tem um bom relacionamento com as marcas de luxo, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram para não ser identificadas ao discutir conversas particulares. A aposta é que ele conseguirá fazer as pazes com as principais marcas de moda do mundo, que devem centenas de milhões de dólares em pagamentos atrasados à Saks.
Atualmente, ele faz parte da diretoria da Moncler SpA, ao lado de Alexandre Arnault, um descendente do conglomerado de luxo LVMH. A Saks deve à LVMH quase US$ 26 milhões, de acordo com documentos judiciais publicados na quarta-feira.

Quanto mais rápido os relacionamentos forem resolvidos, disseram as pessoas, mais mercadorias a Saks poderá colocar nas prateleiras de suas lojas - incluindo Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus - para atrair compradores e aumentar as vendas, que caíram drasticamente nos últimos trimestres.
Quando van Raemdonck estava à frente da Neiman, “a empresa não estava atrasada nos pagamentos aos fornecedores”, disse Mary Ross Gilbert, analista da Bloomberg Intelligence. “Esse é o motivo pelo qual ele foi contratado agora.”
Depois de concluir seus primeiros estudos na Bélgica e na Áustria, van Raemdonck fez mestrado em administração de empresas na Universidade de Chicago no final da década de 1990, de acordo com seu perfil no LinkedIn. Ele ingressou no Boston Consulting Group, especializado em varejo e bens de consumo, onde trabalhou até 2004.
Nos anos seguintes, ocupou cargos executivos em empresas como Louis Vuitton, St. John Knits e Ralph Lauren, antes de ingressar na Neiman Marcus em 2018.
A Saks não respondeu aos pedidos de comentário.
“É bom ter um rosto familiar” administrando a Saks, disse Steven Millman, diretor de marca da grife Bella Dahl, sediada em Los Angeles, que vende roupas femininas contemporâneas. A Bella Dahl parou de vender para a Saks nos últimos anos por causa de pagamentos atrasados e, em vez disso, concentrou-se na Bloomingdale’s, de propriedade da Macy’s.
Millman disse que também era reconfortante saber que van Raemdonck teria ex-colegas experientes ao seu lado. Brandy Richardson, que era diretora financeira do Neiman Marcus Group quando van Raemdonck era CEO, foi nomeada diretora financeira da Saks no ano passado e permanecerá na empresa durante o processo de Chapter 11. Darcy Penick, ex-presidente da Bergdorf Goodman, foi nomeado na quarta-feira para o mesmo cargo na Saks.
Embora a experiência de van Raemdonck na condução da Neiman Marcus durante a falência lhe dê uma noção do que está por vir, sua nova função será muito mais difícil, disse David Silverman, diretor sênior da Fitch Ratings.
“A Neiman Marcus, como entidade operacional, estava indo bem”, disse Silverman em uma entrevista, ressaltando que o processo de falência permitiu que a empresa se livrasse de algumas dívidas, e que as vendas continuaram a ter um bom desempenho após o pedido de falência.
A Saks, por outro lado, teve uma “bola de neve de problemas e complicações do ponto de vista operacional que provavelmente será muito mais difícil para essa empresa reverter”, disse Silverman, citando as deserções de fornecedores e a queda nas vendas como novos desafios a serem enfrentados por van Raemdonck.
A Saks disse que espera sair do processo ainda este ano.
Uma vantagem para van Raemdonck é que muitas marcas de moda indicaram, durante as dificuldades financeiras da Saks Global, que desejam o sucesso da empresa.
Por meio das várias marcas, as empresas têm acesso a uma grande plataforma para vender seus acessórios e roupas - especialmente as marcas de pequeno e médio porte que não têm suas próprias redes de lojas.
Van Raemdonck e sua nova equipe “serão capazes de guiar essa loja de departamentos histórica com grande distinção”, disse Brunello Cucinelli, o fundador homônimo da marca de moda, em um comunicado na quarta-feira.
O fato de a Saks ter comprado a Neiman - e não o contrário - pareceu, na época, ser uma prova de que a Saks havia saído vitoriosa na rivalidade de décadas entre as varejistas.
Foi também um golpe de mestre para o magnata do setor imobiliário de Nova York e proprietário da Saks, Richard Baker, que sonhava há mais de uma década em reunir as empresas para criar o maior conglomerado de varejo de luxo dos EUA.
A situação se inverteu rapidamente.
Antes do Chapter 11 da Neiman, a loja de departamentos e suas lojas Bergdorf Goodman eram responsáveis por uma parcela maior das vendas do que a Saks Fifth Avenue, de acordo com dados da Bloomberg Second Measure, que rastreia compras com cartão de débito e crédito.
Essa participação caiu e, em meados de 2020, a Neiman e a Bergdorf juntas venderam aproximadamente o mesmo valor, em dólares, que a Saks Fifth Avenue.
Mas em 2024, à medida que a aquisição se aproximava do fechamento, a participação da Neiman e da Bergdorf nas vendas se recuperou.
No quarto trimestre de 2025, a Neiman e a Bergdorf tinham uma participação de 61% nas vendas, contra 39% da Saks, mostram os dados, um sinal de que as marcas adquiridas estavam em uma posição melhor para enfrentar os recentes problemas financeiros.
Agora, Baker está fora, e van Raemdonck está de volta.
-- Com a colaboração de Reshmi Basu.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também:
Bershka chegará ao Brasil com loja com mil metros quadrados no Morumbi Shopping
Como a Salton mira chegar a R$ 1 bilhão em vendas com aposta em espumantes a R$ 50
Rolex, Omega e Cartier: os relógios de até US$ 1 milhão que brilharam no Globo de Ouro
©2025 Bloomberg L.P.








