Localiza: os riscos aos negócios que entraram no radar de bancos de Wall Street

Goldman Sachs, Bank of America e Citi apontaram ameaças em relatórios recentes; empresa disse à Bloomberg Línea que segue ‘estratégia pautada em visão de longo prazo’

Localiza Divulgação
08 de Fevereiro, 2024 | 05:05 AM
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Bloomberg Línea — O mercado de locação de veículos enfrenta um período de incertezas no mundo e também no Brasil. Nos Estados Unidos, o investimento para a eletrificação da frota tem sido colocado em xeque diante da demanda aquém da esperada e da queda dos preços de usados, como foi assumido pela Hertz.

No mercado nacional, há riscos que espreitam as empresas do setor, a começar pela maior delas, segundo apontaram três diferentes bancos de Wall Street em relatórios a clientes nas últimas semanas.

O mais recente a fazer o alerta, e de maneira mais incisiva, foi o Goldman Sachs (GS), cujos analistas rebaixaram nesta semana a recomendação para a ação da Localiza (RENT3) de compra para neutro.

Uma semana trás, o time de equity research do Bank of America (BAC) demonstrou preocupação com as margens no segmento de aluguel de curto prazo, o chamado rent a car (RAC, no jargão do mercado). E o Citi (C), por sua vez, apontou o segmento de seminovos com desempenho abaixo do esperado.

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A Localiza é a maior locadora de veículos do país, com uma frota que ultrapassa 600 mil unidades, muito acima da segunda colocada do mercado, a Movida (MOVI3).

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No relatório do Goldman Sachs, os analistas Bruno Amorim, João Frizo e Guilherme Costa Martins explicaram por que, apesar da visão ainda positiva para as perspectivas de longo prazo para o negócio principal da Localiza, de aluguel de veículos, decidiram rebaixar a recomendação.

“Vemos um claro risco de queda para as estimativas de consenso em 2024 e 2025, devido principalmente a um cenário incerto e à deterioração do mercado de automóveis usados”, disseram os analistas.

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Eles destacaram que os preços de carros usados têm caído desde meados de 2023, enquanto os de veículos novos permaneceram resilientes desde então.

“A Localiza é compradora de carros novos e vendedora de usados e essa tendência provavelmente pressionará as margens de seminovos”, apontaram no relatório.

Segundo os analistas, a depreciação também tende a ficar mais acentuada e, como resultado, as estimativas de lucros no futuro próximo são mais baixas.

Os analistas do Goldman Sachs ponderaram que o horizonte para a companhia ainda é obscuro. Se os preços dos automóveis novos e usados não recuperarem a paridade no longo prazo, locadoras de veículos terão que buscar meios para resolver a equação de depreciação mais elevada com preços do zero quilômetro estruturalmente mais elevados, sob o risco de uma taxa mais lenta de crescimento.

Para este ano de 2024, os analistas projetam que os volumes de modelos da Localiza devem crescer aproximadamente 5% no RAC, rent a car; 15% em frotas e 10% no consolidado da operação. Já as tarifas cobradas de clientes devem crescer 5% no RAC e 9% na operação de terceirização.

Isso deve levar a um avanço da receita líquida de 19% nas operações de aluguel e um crescimento do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de 24% no ano também no aluguel.

O banco projeta para a companhia um lucro líquido de R$ 3,5 bilhões em 2024, cerca de 10% abaixo do que aponta o consenso de analistas ouvidos pela Bloomberg.

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Incertezas de longo prazo

O BofA, por sua vez, manteve a recomendação de compra para a ação da Localiza no relatório divulgado na semana passada, mas destacou uma visão neutra para os resultados financeiros no longo prazo.

Segundo o documento, o cenário é positivo neste momento de redução da taxa de juros, a Selic, de crescimento da frota e de maiores tarifas marginais na divisão de frotas.

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Os analistas lembraram que a companhia anunciou que estuda mudar a linha de custos referentes à desativação de frota da divisão de seminovos para a de RAC e de terceirização de frotas, o que reduziria as margens no aluguel. Por outro lado, o Ebitda de seminovos aumentaria, apontou o banco.

Em relatório no início de janeiro, o Citi apontou para o cenário de preços de venda de carros ligeiramente mais baixos para a Localiza, com atividade de seminovos abaixo do esperado. Também alertou para a trajetória de crescimento da depreciação na terceirização de frota em 2024 e 2025.

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Por outro lado, a depreciação por modelo no segmento de rent a car deve caminhar para uma normalização em 2024, em paralelo a uma combinação de menor dívida total e de taxa de juros mais baixa que levará a menores despesas financeiras neste ano e no próximo.

Apesar das ressalvas operacionais, o Citi elevou o seu preço-alvo para a ação de R$ 55 para R$ 62 ao fim de 2024 em razão justamente do efeito da queda esperada dos juros.

O que disse a Localiza

Procurada pela Bloomberg Línea para comentar os pontos citados pelos bancos, a Localiza informou por meio de nota que “está sempre atenta a fatores específicos do cenário macroeconômico, que impactam diretamente o setor, e reforça a solidez de sua estratégia de negócios pautada em uma visão de longo prazo, gerando valor aos clientes e parceiros mesmo diante de cenários desafiadores”.

O Goldman Sachs tem preço-alvo para a ação de R$ 67,10 em 12 meses, e o Bank of America, de R$ 76, sem especificar um período. A ação encerrou negociada a R$ 53,52 nesta quarta-feira (7).

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No ano, acumula queda de 15,85%, que se acentuou depois do relatório do Goldman na segunda-feira (5). Em 12 meses, a perda de valor é de 7,86%.

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Juliana Estigarríbia

Jornalista brasileira, cobre negócios há mais de 12 anos, com experiência em tempo real, site, revista e jornal impresso. Tem passagens pelo Broadcast, da Agência Estado/Estadão, revista Exame e jornal DCI. Anteriormente, atuou em produção e reportagem de política por 7 anos para veículos de rádio e TV.