Como a Latam e a Azul podem se beneficiar da recuperação judicial da Gol

Companhia aérea que entrou com pedido de proteção contra credores no Chapter 11 dos EUA deve enfrentar mais dificuldades do que a chilena Latam, segundo especialistas

Eventual restrição na oferta de voos pela Gol beneficiaria inicialmente a Latam pela presença em um número maior de mesmas rotas (Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)
31 de Janeiro, 2024 | 05:05 AM
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Bloomberg Línea — O pedido de proteção contra credores da Gol Linhas Aéreas (GOLL4) no Chapter 11 da Justiça dos Estados Unidos, equivalente à figura da recuperação judicial no Brasil, evidenciou as dificuldades que a companhia enfrenta para renegociar as dívidas. O agravamento de sua crise e as incertezas sobre o êxito do processo, que envolve principalmente um acordo com as empresas de arrendamento de aeronaves, abrem caminho para o crescimento de suas concorrentes.

A Gol afirmou que pretende continuar a operar normalmente, mas a crise pode gerar impacto que vai da demanda por passageiros temerosos com a garantia dos voos até a oferta em caso de eventual disputa com as empresas de arrendamento, segundo especialistas consultados pela Bloomberg Línea.

O analista de transportes do Citi sediado em Nova York, Stephen Trent, disse que a Latam (LTM) tem muito mais sobreposição com a Gol em termos de rotas no mercado brasileiro do que a Azul (AZUL4).

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“Se a Gol hipoteticamente fosse tirada de muitas dessas rotas e a Latam se tornasse a única operadora em trajetos de alta densidade, é possível dizer que as autoridades antitruste vão querer ver pelo menos uma outra companhia aérea prestando serviços nessas rotas”, disse o analista em entrevista à Bloomberg Línea. “Isso implica que a Azul pode ter oportunidades de expansão.”

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Trent fez a ressalva de que ainda não está claro como o anúncio de recuperação judicial da Gol pode afetar a percepção dos passageiros. “É possível que a Azul e a Latam possam ver alguma repercussão na demanda por causa deste evento”, disse.

De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Latam encerrou 2023 na liderança do mercado doméstico com 37,8% de participação, seguida de Gol (33,3%) e Azul (28,4%).

Na visão de Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, há restrições para que a Gol aumente a oferta de voos organicamente, uma vez que a empresa teria que gastar volumes substanciais de caixa para tirar aeronaves do chão. “Quando olhamos para o balanço da Gol, com os atuais níveis de liquidez corrente e alavancagem, existe a necessidade de a companhia ser ainda mais eficiente.”

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O analista apontou que a Latam tem cerca de 65% de sobreposição de rotas com a Gol, em visão semelhante à de Trent, do Citi. “Pelo menos em um primeiro momento, me parece que a Latam se beneficiaria mais com essa situação. Vejo pontos positivos para a Azul, mas a sobreposição é muito menor.”

Para o analista Luan Calimério, do BB Investimentos, há condições para que a Gol minimize o impacto do processo de recuperação, a julgar pelas condições oferecidas pelo Chapter 11.

“De modo geral, há maior preservação dos ativos essenciais às atividades da companhia (no caso da Gol, as aeronaves), o que proporcionaria manutenção da oferta de voos e maior probabilidade de geração de caixa para futura saída do processo”, avaliou o analista do BB Investimentos.

Gol vs. Latam no Chapter 11

A principal batalha a ser travada a partir de agora pela Gol para avançar, com êxito, com o processo de recuperação judicial na justiça americana deve ser com as empresas de leasing de aeronaves, conhecidas no mercado como “lessors” ou “lessores”. Segundo a Gol, a dívida com 25 arrendadores que seguem a lei norte-americana é de R$ 9,8 bilhões. “A novela vai ser longa”, avaliou Arbetman.

Ao fim do terceiro trimestre, a dívida bruta declarada no balanço era de R$ 19,5 bilhões.

Arbetman e Trent ressaltaram que a Gol provavelmente buscou outras fontes de capital antes de decidir pelo Chapter 11. “Mas o pedido indica que a empresa tentou um acordo com os lessores e não chegou a lugar nenhum”, disse Trent.

Segundo o analista do Citi, baseado em Nova York, há um desafio adicional para o processo de recuperação da companhia brasileira: muitos investidores têm dificuldade de entender o que de fato é a Abra, holding criada no final de 2022 para controlar a Gol e a colombiana Avianca.

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O analista fez um paralelo com o processo de Chapter 11 da Latam entre 2020 e 2022, em que as acionistas Delta Airlines e Qatar Airways sobressaíram aos olhos do mercado.

“Se olharmos para Delta e Qatar, as vantagens [conferidas pela base de acionistas] são muito fáceis de visualizar. No caso da Abra é um pouco mais difícil de entender.”

“Eu diria que as pessoas não entendem a Abra, o que é um dos riscos para a Gol entrar nesse processo”, afirmou Trent. “É possível que haja uma falta de confiança entre os lessores e a Gol e a falta de compreensão sobre a Abra provavelmente não ajude”, acrescentou.

O processo de Chapter 11 da Gol foi protocolado com um compromisso de financiamento de US$ 950 milhões de membros de grupos credores da Abra na modalidade “debtor-in-possession” (DIP), voltada para empresas em recuperação judicial.

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Esse modelo foi autorizado pelo juiz Martin Glenn, responsável pelo caso na justiça americana, mas com ressalvas quanto ao custo. Ele classificou o financiamento como “incrivelmente caro” e exigiu que a Gol e seus credores incluíssem disposições que permitissem a seu tribunal, à agência de controle de falências do Departamento de Justiça ou aos credores uma revisão significativa das taxas que seriam pagas.

“Não vou assinar um cheque em branco para todos os advogados e profissionais que se beneficiam de um empréstimo DIP muito caro”, disse o juiz Glenn, segundo noticiado pela Bloomberg News.

Arbetman disse que alguns indicadores da Gol, como o de liquidez corrente, seguem baixos, o que pode fazer com que os credores tenham paciência menor se comparado ao processo do grupo chileno.

Ao menos do ponto de vista de bolsa, a sinalização tem sido a de que o mercado, de modo geral, decidiu não conceder por ora o benefício da dúvida: as ações acumulam queda de 68% neste ano.

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Em seu último dia como parte do Ibovespa nesta terça-feira (30), as ações da Gol encerraram o pregão com uma queda de 26,97%, negociadas a R$ 2,87. A exclusão da companhia aérea de todos os índices da B3 ocorreu em razão do processo de recuperação judicial nos Estados Unidos.

Expectativas do processo

O analista do Citi apontou outros fatores que diferenciam o processo da Gol daquele enfrentado pelo grupo chileno. “A Latam tinha uma boa perspectiva de longo prazo, com a Delta e a Qatar por trás, ao mesmo tempo em que tem forte atuação no Chile, na Colômbia e entre outros países, além de uma operação de carga em Miami. É um ‘animal’ muito complexo se comparado à Gol”, disse Trent.

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Na avaliação do advogado Felipe Bonsenso, especialista em direito aeronáutico, o prazo para conclusão do processo de Chapter 11 da Gol depende muito das negociações com os credores, mas no geral o histórico de recuperação de companhias aéreas nos Estados Unidos é positivo.

“É uma jurisdição mais segura, com precedentes sólidos e histórico de recuperação de companhias aéreas. Todas as grandes empresas do setor já passaram por esse processo e os credores estão acostumados”, disse Bonsenso à Bloomberg Línea.

Ele fez a ressalva, entretanto, de que o processo da Gol ocorre em contexto diferente do da Latam. “É uma oportunidade para a Gol ajustar suas operações, uma possibilidade de retomada. Mas o momento agora é outro, o contexto não é mais o de pandemia.”

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O especialista afirmou que o pedido da Gol pelo Chapter 11 diz muito sobre o setor de aviação no Brasil. “O próprio governo reconhece que as companhias aéreas estão em dificuldades. São regras muito rígidas, em um mercado com elevado custo de combustível e milhares de processos de passageiros na Justiça. Inúmeras despesas são em dólar, mas a receita é em real. A equação é difícil.”

- Com informações da Bloomberg News.

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Juliana Estigarríbia

Jornalista brasileira, cobre negócios há mais de 12 anos, com experiência em tempo real, site, revista e jornal impresso. Tem passagens pelo Broadcast, da Agência Estado/Estadão, revista Exame e jornal DCI. Anteriormente, atuou em produção e reportagem de política por 7 anos para veículos de rádio e TV.