Bloomberg — Ao que parece, para tornar a picape elétrica da Ford uma campeã de vendas, a montadora precisou simplesmente parar de fabricá-la.
Desde que a última F-150 Lightning saiu da linha de montagem em dezembro, ela se tornou um dos veículos mais cobiçados dos Estados Unidos em meio ao aumento da procura por veículos elétricos usados.
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A crescente demanda mostra que há grande interesse por caminhonetes elétricas entre os motoristas dos Estados Unidos, desde que os veículos não sejam muito caros, afirmou Jimmy Douglas, CEO da Plug, uma distribuidora atacadista de veículos elétricos.
“Quando a Ford a vendia nova, a conta era complicada”, disse Douglas. “Mas, no mercado de usados, a Lightning custa entre 50% e 60% do preço de tabela, e esse é realmente um ponto ideal. É uma picape incrível pelo preço.”
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Além de serem desencorajados pelos preços elevados, os motoristas de caminhonetes têm demorado relativamente mais para adotar os veículos elétricos porque o veículos não são muito aerodinâmicos. O design quadrado e o peso considerável de uma picape de meia tonelada limitam a autonomia.
No entanto, as picapes a combustão enfrentam os mesmos desafios físicos quando se trata de quilometragem. Os fãs de picapes, em resumo, têm sentido o impacto dos altos preços da gasolina — impulsionados pela guerra no Irã — de forma mais intensa do que a maioria dos motoristas.
A escassez também contribuiu para isso. Em um ano bom, a Ford vende cerca de 900 mil F-150s movidos a gasolina, enquanto comercializou pouco mais de 100 mil unidades de sua versão elétrica em pouco mais de quatro anos.
Uma F-150 Lightning típico muda de mãos em cerca de 20 dias nos Estados Unidos, contra 44 dias para um veículo usado médio. O preço tem subido constantemente para US$ 50.000, um aumento de 4% desde o início do ano, de acordo com o Edmunds.com.
E quase um terço dos Lightnings usados é vendido por concessionárias que comercializam outras marcas. Normalmente, essas lojas revenderiam um Ford usado a uma concessionária Ford, segundo Douglas, mas muitas estão optando por anunciar o carro diretamente para aproveitar a demanda em alta.
Chase Norris, um planejador municipal na região de esqui do Colorado, trocou recentemente a sua F-150 a gasolina por um Lightning usado. Por US$ 40.000, ele considerou o veículo tanto uma grande melhoria quanto uma pechincha.
“É melhor para o meio ambiente e, por acaso, é mais rápido do que alguns Mustangs”, disse Norris. “Além disso, eu acampo bastante. Se esfriar à noite, basta ligar meu cobertor elétrico na tomada.”
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Parte do apelo para clientes como Norris, no entanto, é que eles não notarão grande diferença. O exterior do Lightning é praticamente idêntico ao da versão movida a gasolina — assim como o interior, até mesmo o enorme seletor de marchas, que se dobra para dentro do console central.
A única exceção aparente do veículo elétrico é o amplo compartimento dianteiro onde antes ficavam as velas de ignição e os cilindros. Em caso de necessidade, a picape também pode fornecer energia para uma casa.
A aposta direta da Ford com o Lightning foi que os compradores de veículos elétricos eram simplesmente motoristas que queriam um veículo mais silencioso, mais ecológico e mais barato em termos de combustível e manutenção.
“Uma das melhores coisas que a Ford poderia ter feito”, disse Douglas, “foi fazer com que o F-150 Lightning se parecesse com um F-150.”
O problema, segundo analistas, é que a Ford nunca cumpriu de fato sua promessa de vender sua picape movida a bateria a preços alinhados aos de suas picapes a gasolina.
O preço de US$ 40.000 anunciado no lançamento do veículo foi rapidamente retirado e substituído por US$ 50.000. Mesmo esse valor raramente era visto nos pátios das concessionárias.
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Em seu primeiro ano de vendas, o preço médio de transação de uma F-150 Lightning — o que os compradores realmente pagaram — foi de US$ 79.000, porque a Ford produziu uma parcela maior de versões mais sofisticadas e caras do veículo, de acordo com o site Edmunds.com.
Enquanto isso, as F-150 a gasolina eram vendidas, em média, por US$ 19.000 a menos. Mesmo nesses níveis, a Ford estava perdendo muito dinheiro com seus veículos elétricos, chegando a perder, em determinado momento, mais de US$ 100.000 por cada unidade vendida.
No mercado de usados, no entanto, os preços do Lightning são comparáveis aos dos F-150 a gasolina. Em condições de paridade, parece que os clientes gostam da versão elétrica tanto quanto — ou mais do que — do modelo tradicional, pelo menos quando os preços da gasolina estão altos.
O EV Group, que vende veículos usados movidos a bateria em todo o país por meio de três concessionárias, tem observado muitos clientes adquirindo Ford Lightnings como segunda picape. Eles dirigem o veículo elétrico no trajeto semanal para o trabalho e utilizam o modelo a gasolina nos fins de semana, de acordo com o CEO e cofundador do EV Group, Alex Lawrence.
“Quando se faz as contas de quanto eles vão economizar”, disse Lawrence, “às vezes o veículo elétrico usado sai de graça, se é que isso faz sentido.”
No momento, porém, os pátios de Lawrence estão sem nenhum Lightning. Embora suas lojas estejam vendendo cerca de 300 veículos por mês, ele não consegue encontrar nenhum F-150 elétrico usado — pelo menos não pelo preço certo.
Em última análise, a decisão da Ford de descontinuar o Lightning fez parte de uma reestruturação agressiva de toda a sua estratégia de veículos elétricos. A empresa criou uma nova unidade de desenvolvimento na Califórnia para fabricar uma picape elétrica acessível — e para fazê-lo com eficiência suficiente para também gerar lucro.
No próximo ano, a Ford promete uma picape elétrica totalmente nova, batizada de Fathom, com preço inicial em torno de US$ 28.000. Embora as vendas do Lightning nunca tenham ultrapassado 34.000 por ano, a Ford espera vender 100.000 unidades da nova picape anualmente.
Kevin Roberts, diretor de inteligência de mercado da CarGurus, uma plataforma digital de vendas, afirmou que a recente demanda por Lightnings usados é um bom presságio para as vendas do Fathom.
“A demanda por veículos elétricos usados tem demonstrado que os clientes estão dispostos a considerar a opção elétrica quando a proposta de valor é adequada”, disse Roberts. “O [preço de tabela] anunciado pela Ford coloca a Fathom diretamente nessa discussão sobre acessibilidade.”
A Ford se recusou a comentar, mas reconheceu que ajustar a economia dos veículos elétricos de modo a garantir tanto lucro quanto preços baixos continua sendo um desafio.
Em uma conferência na semana passada, o CEO da Ford, Jim Farley, afirmou que a empresa “ainda não conseguiu pousar o avião” no que diz respeito à produção em massa de sua nova plataforma de veículos elétricos.
“Vai ser um esforço e tanto”, explicou ele, “lançar isso em escala, dentro do orçamento e no prazo.”
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